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Saúde

Perigos desde cedo

Jovens estão mais expostos a perigos do consumo excessivo do álcool


    • São José do Rio Preto
    • máx 32 min 18

Você deve ter visto nos últimos dias por todos os cantos do País adolescentes e adultos com copos, canecas e garrafas de bebida na mão. Bastante comum entre os jovens, a prática de ingerir várias doses de bebidas alcoólicas em um curto intervalo de tempo - conhecida como "binge drinking" - traz consequências sérias a curto e longo prazos. Em curto espaço de tempo, aumenta a prevalência de comportamentos de risco como dirigir após beber, ter um apagão ou fazer sexo sem se proteger, e, a longo prazo, aumenta as chances de lesões no fígado, doenças no coração, câncer e morte.

O binge drinking  nada mais é do que um termo em inglês para o comportamento em que o usuário ingere, em um curto período de tempo, uma quantidade de álcool muito maior do que o corpo é capaz de metabolizar. Esse padrão se caracteriza pelo consumo de, pelo menos, quatro doses em uma única ocasião para as mulheres e de cinco doses para os homens, o que leva a uma concentração de etanol no sangue de 0,08% ou mais.

O álcool é a substância psicotrópica mais utilizada pelos adolescentes no País, segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria. Dados do Relatório Global sobre Álcool e Saúde, da Organização Mundial da Saúde (OMS), mostram que o Brasil está acima da média mundial de consumo per capita de 6,4 L/ano. E considerando apenas as pessoas que bebem, o consumo médio do brasileiro é de três doses por dia - 27% maior que a média na região das Américas e no mundo, que equivalem a 2,3 doses diárias. Além dos riscos imediatos, o consumo contribui para o surgimento de doenças e outras complicações. "Na adolescência, ele ainda prejudica o desenvolvimento, pois causa danos ao cérebro que são irreversíveis", explica a médica clínica geral Luciana Mancini Bari, do Hospital Santa Mônica.

Quando comparado a outros países populosos, o Brasil tem a segunda maior taxa de complicações resultantes do consumo de álcool. "O álcool muitas vezes não é reconhecido como droga e, por ser lícito, acaba sendo interpretado pela sociedade como pouco nocivo. No entanto, a maior parte dos danos causados por essas substâncias no mundo são decorrentes do abuso e dependência de álcool e não das drogas ilícitas como maconha e cocaína", explica a pesquisadora Zila Sanches, autora de um estudo feito na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) publicado na revista científica Plos One que mostra justamente os riscos a que os jovens estão expostos durante a prática.

Principais consequências

O consumo de álcool em excesso causa reações imediatas ao corpo que são de fácil reversão tontura, enjoo, falhas na memória e na coordenação motora. No entanto, apesar de reversíveis, essas consequências podem levar o usuário a tomar decisões impulsivas, ter menos controle emocional e se envolver em acidentes. "A longo prazo, o binge drinking pode acabar afetando todos os órgãos do corpo e provoca grandes prejuízos, como lesões cerebrais, doenças no fígado e aumento no risco de câncer", diz a médica clínica Luciana Mancini Bari.

"É o binge drinking o responsável por grande parte dos acidentes automobilísticos nos quais o álcool está envolvido; por substancial parte da violência doméstica que acomete sobretudo a população brasileira mais vulnerável; por boa parte da violência interpessoal (brigas e assassinatos) que também age de modo mais incisivo sobre a parcela menos favorecida da população", explica o psiquiatra Guilherme Messas, especialista em álcool e drogas. O mesmo vale para sintomas depressivos e, o que é mais preocupante, ideação suicida.

É importante que as famílias estejam atentas aos sinais que podem levar ao exagero. "No caso de adolescentes, alguns comportamentos geralmente aparecem antes da entrada do álcool e outras drogas na vida destas pessoas", diz a médica Luciana Bari. Entre eles estão tristeza, isolamento, baixa autoestima/depreciação da autoimagem, muito sono, pouco apetite ou vice-versa, dificuldade na escola e de se inserir num grupo de outros adolescentes. "Esses sinais geralmente estão juntos como comorbidade e às vezes chegam muito antes do primeiro porre ou da primeira cheirada", salienta a médica.

  • Beber fora de situações sociais ou sozinho;
  • Agressividade;
  • Dificuldade para parar de beber mesmo depois de embriagado;
  • Tentar esconder evidências do consumo de álcool;
  • Perda de memória;
  • Tremores;
  • Insônia;
  • Falta de apetite.

Fonte: Luciana Bari

 

De curto prazo

  • Aumenta consideravelmente as decisões impulsivas, propiciando os riscos de acidentes e agressões;
  • Está associado a ocorrências de abuso sexual, sexo desprotegido, overdose, quedas e tentativas de suicídio;
  • Diminui a produção do hormônio que regula a perda de água do organismo, por isso você vai tanto ao banheiro. Também atrapalha a absorção de água pelo corpo e estimula a produção de suor;
  • Você fica desidratado e perde sais minerais e vitaminas;
  • Aumenta a pressão arterial, o que pode causar infartos, AVC e até a morte;
  • Provoca miocardiopatia alcoólica, que é o dano causado às células cardíacas quando há o consumo em excesso de álcool. Também enrijece as artérias que distribuem o sangue pelo organismo. Além da possibilidade de infarto, pode causar morte súbita.

De longo prazo

  • Pode causar doenças no fígado: acúmulo de gordura, inflamação e o aparecimento de cicatrizes, a chamada cirrose;
  • Também é fator de risco para diversos tipos de câncer, como de boca, esôfago, fígado, intestino e mama. Isso acontece porque, quando o organismo metaboliza o álcool, são geradas substâncias reativas que podem atacar o DNA, proteínas e lipídios do corpo. Prejudica a capacidade de absorção de nutrientes que estão associados ao risco de câncer e aumenta os níveis de estrogênio, hormônio que está associado ao risco de câncer de mama.

Fonte: Luciana Mancini Bari, médica clínica geral