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Espiritualidade

Quando os favores acabam

Não há antídoto prévio contra a ingratidão; mesmo assim faça o bem sempre


    • São José do Rio Preto
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No vasto dicionário das mazelas humanas, lá está ela, a ingratidão, em lugar de destaque. As demonstrações do egoísmo humano surgem a qualquer momento, quer seja na indiferença diante de favores ou benefícios recebidos, quer seja por omissão diante das necessidades de quem prestou auxílio anterior ou nas ações que venham mesmo a prejudicá-lo.

Dizem os estudiosos do comportamento que a ingratidão é o único veneno para o qual não há um antídoto a ser preparado com antecedência. Isso porque ela foge de qualquer lógica e pode vir da última pessoa que esperamos que seja a nos atacar, não reconhecer atos passados de generosidade. Pode vir de um conhecido, de um parente, de um amigo, de um colega ou de qualquer pessoa a quem prestamos um favor, ajudamos numa hora de dificuldade, socorremos, escutamos e amparamos em situação complicada ou de tristeza. "As últimas pessoas das quais pensamos em nos vacinar são as pessoas a quem fizemos o bem", diz a esotérica Marina Gold.

As respostas sobre o que leva uma pessoa a ser ingrata são as mais variadas: pode ser a cobiça, a maldade e a inveja, que não permitem o reconhecimento do outro simplesmente por querer ter a mesma condição de quem ajuda. "As pessoas que têm condições de ajudar são mais generosas, e os ingratos, mesmo que ajudados por aquela força, não conseguem conviver com o fato de não ter força semelhante", diz ainda Marina.

Às vezes, você oferece uma oportunidade para alguém e, em vez de essa pessoa entender como uma oportunidade que possa elevá-la, vê o degrau e pisa na pessoa que o ofereceu, em vez de pisar no próprio degrau simplesmente. Isso pelo simples fato de querer ser mais forte que a pessoa que tem a força para ajudar. "A pessoa grata o é integralmente, portanto não adianta você querer domar o ingrato porque a ingratidão sempre dará um jeito de aparecer de alguma área, quer seja por gestos ou atitudes", diz Marina, que tranquiliza o benfeitor. Isso porque se o ato de bondade e altruísmo partir de você, você é o ser privilegiado. "Aquele a quem a inteligência universal destinou o papel de poder ser humano e participativo, deu condições de exercer seus critérios de forma a ajudar a quem precisa, carrega o maior dos trunfos", explica.

"Dentre os muitos inimigos morais do homem, a ingratidão assoma, relevante, na condição de filha dileta do egoísmo, que se nutre com as vérminas do orgulho. A ingratidão estabelece síndromes de distúrbios comportamentais, que degeneram, a curto ou longo prazo, em problemas de alienação mental", escreveu o palestrante espírita Divaldo Franco, no livro "Otimismo" (ed. Leal), ditado pelo espírito Joanna de Ângelis. E continua: "Nos dias hodiernos, a ingratidão toma corpo com muita facilidade, tornando-se elemento normal nas relações sociais, em lamentável agressão aos postulados éticos, quando não se tenha em conta a moral evangélica."

Um workshop recente patrocinado pelo Greater Good Science Center, Universidade da Califórnia, Berkeley, nos Estados Unidos, apresentou as descobertas mais recentes da ciência na prática da gratidão. Por mais impressionantes que tenham sido os avanços, nenhum palestrante lidou com o que pode ser a maior questão que pode atrapalhar a ciência básica para aplicações práticas: o que deve ser superado como cultura ou como indivíduo para a gratidão florescer?

"Pesquisas provaram que a gratidão é essencial para a felicidade, mas os tempos modernos regrediram a gratidão a um mero sentimento, em vez de manter seu valor histórico, uma virtude que leva à ação", escreveu o pesquisador Robert Emmons, da University of California, Davis, nos Estados Unidos. Filósofos romanos como Cícero (107 a.C - 43 a.C.) e Sêneca (4 a.C. - 65 a.C.) concluem em seus escritos que a gratidão é uma ação de retribuir um favor e não é apenas um sentimento. "Da mesma forma, ingratidão é a falha em reconhecer o recebimento de um favor e se recusar a retribuí-lo", complementa.

Senso elevado de autoimportância

Pesquisas contemporâneas mostram uma imagem mais complicada da ingratidão. "Pessoas ingratas tendem a ser caracterizadas por um senso excessivo de autoimportância, arrogância, vaidade e uma necessidade insaciável de admiração e aprovação. Os narcisistas rejeitam os laços que ligam as pessoas a relacionamentos de reciprocidade. Eles esperam favores especiais e não sentem necessidade de pagar", explica ainda Robert Emmons.

Remédio para o narcisismo

A gratidão, com frequência, é receitada como o remédio para o mérito exagerado que marca o direito narcisista. Mas o que permite a gratidão em primeiro lugar? Mark T. Mitchell, professor de ciência política no Patrick Henry College, na Virgínia, nos Estados Unidos, é quem dá a resposta: "A gratidão nasce da humildade, pois reconhece o talento da criação e a benevolência do Criador. Esse reconhecimento dá à luz atos marcados por atenção e responsabilidade. A ingratidão, por outro lado, é marcada pela arrogância, que nega o presente, e isso sempre leva à desatenção, irresponsabilidade e abuso."

Humildade é a chave para ser grato

A humildade é a chave da gratidão, porque viver humildemente é a abordagem mais verdadeira da vida. Pessoas humildes estão fundamentadas na verdade de que precisam de outras pessoas. Nós não somos autossuficientes. "Ver com olhos agradecidos exige que vejamos a rede de interconexão na qual alternamos entre doadores e receptores. A pessoa humilde diz que a vida é um presente para agradecer, não um direito a ser reivindicado", diz Emmons. Faça o bem sem olhar a quem, pois nem todas as pessoas são gratas. Fazer o bem não é uma troca.