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Criança e Adolescente

Notas de bem-estar

A música traz benefícios para corpo e mente desde cedo


    • São José do Rio Preto
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A música faz o cérebro evoluir de modo único. A constatação é da neuropsicóloga Catherine Loveday, da Universidade de Westminster, em Londres. O estudo só reforça aquilo que educadores e famílias já sentem na prática: o ensino musical contribui para o desenvolvimento infantil em diversos aspectos. Segundo a pesquisadora, ao afetar as emoções, a música é capaz de estimular profundamente o cérebro, como nenhuma outra forma de manifestação artística. "Trata-se de um forte estímulo cognitivo e há fortes evidências de que a prática musical melhore a memória e a linguagem", explica.

Médicos e terapeutas já comprovaram cientificamente que uma simples canção pode trazer benefícios para a saúde do corpo e da mente. Não é à toa que alguns filósofos descrevem a música como a linguagem da alma. A música traz benefícios a todas as pessoas, como redução de estresse, auxílio na concentração, estímulo à memória, relaxamento da mente e tantas outras funções.

Mais do que isso, ela foi classificada como uma das nove múltiplas inteligências do ser humano pelo psicólogo norte-americano Howard Gardner. Segundo o estudioso, cada pessoa possui mais facilidade com determinada área do conhecimento e, entre elas, está a musical, em que o indivíduo tem fortes habilidades para tudo que está relacionado ao som.

O cientista Sylvain Moreno, do Instituto canadense Rotman, liderou uma pesquisa que avaliou o efeito da prática musical no desenvolvimento do cérebro de crianças de oito anos. Elas receberam aulas gratuitas de música por um período de seis meses e foram avaliadas antes e depois. Os testes mediram habilidades cognitivas, auditivas e de leitura. Na avaliação final, as crianças demonstraram melhora nas habilidades de leitura e eram mais capazes de conectar palavras escritas com seus sons falados - um componente crítico da alfabetização. Além disso, foram identificadas mudanças de entonação ou emoção durante uma conversa.

O maestro Paulo de Tarso aprendeu a tocar flauta doce aos seis anos e o estímulo se transformou em uma reconhecida e bem-sucedida carreira ao longo da vida. Ele defende a inclusão da música na vida da criança desde o útero materno, que ela seja iniciada desde bem pequena e desenvolva, aos poucos, o trabalho rítmico, melódico. "A música, entre tantos benefícios, estimula as sinapses cerebrais e a concentração", explica.

Aprender essa arte desde cedo, por sua vez, pode gerar resultados surpreendentes no desenvolvimento da criança e do adolescente, impactando positivamente na coordenação motora, concentração e emoções. O contato com a música favorece e desenvolve essas competências, assim como melhora a concentração, coordenação motora e o foco em atividades. "A musicalização infantil auxilia no contato social, equilíbrio emocional, desenvolvimento linguístico e expressão corporal. Cada elemento básico da música, ritmo, melodia e harmonia são responsáveis por um aspecto na evolução", explica a pediatra Denise Katz.

A estudante Maria Laura Bertasso Pavarino, 7 anos, começou a aprender piano em agosto do ano passado. A mãe, Karine, conta que ela ganhou da avó um piano de brinquedo como presente de Natal. "Meu marido começou a ensinar a ela um trecho da música 'Ode à alegria' e em três dias ela estava tocando", conta. Procuraram então o Instituto Musical Maestro Paulo de Tarso para que pudesse estudar. O pai faz aulas de violoncelo e toca outros instrumentos como bateria, violão e um pouco de piano. "A música realmente transforma as pessoas. Fomos muito felizes com a escolha do instituto que trouxe essa rotina musical para nossas vidas", conta a mãe. Maria Laura também faz aulas de canto. "A avó agora deu um piano elétrico de presente e sempre que possível estamos com ela praticando", complementa.

"Trabalhos mostram que, a partir da 21ª semana de gravidez, os bebês já podem perceber estímulos sonoros, como sons internos do corpo da mulher, batimento cardíaco, respiração e a voz da mãe", explica Claudia Freixedas, superintendente educacional da organização social Sustenidos.

Uma pesquisa de avaliação de impacto encomendada a Ipsos Public Affairs mostra que as atividades musicais incentivam e impactam de forma positiva o comportamento dos alunos. Os familiares que responderam à entrevista avaliaram o comportamento de seus filhos comparando antes e depois do início da prática musical no programa. Mais de 60% notaram um aumento da disciplina e organização das crianças. Já no quesito relação com os amigos e família, 80% declararam que sentiram seus filhos mais sociáveis e abertos para compartilhar momentos em família. "Esses dados confirmam que a prática musical, principalmente quando realizada coletivamente, pode promover a desenvoltura, além de possibilitar novas formas de pensar e ver o mundo, de ter uma visão crítica e reflexiva de si mesmo e dos outros e trabalhar questões de solidariedade, formando, assim, pessoas mais tolerantes", explica. Crianças e jovens também podem encontrar na música uma outra linguagem para se expressar, desenvolvendo a acuidade auditiva, a escuta atenta, a prontidão, o senso imaginativo e criativo.

"A música estimula atributos como a expressividade, a comunicação e a espontaneidade. Como uma expressão artística, comunica e desenvolve a espontaneidade quando se começa a improvisar ou criar", afirma o professor de música Celso Pan. Segundo ele, a música está diretamente ligada à percepção dos sons, ou seja, ao treino de escutar, o que também desenvolve a memória sonora e corporal.

Para aprender a tocar um instrumento musical, aponta o professor, não basta ter vontade, é preciso ter disciplina, autoconhecimento corporal e concentração, mas toda essa dedicação compensa. "É muito prazeroso conseguir dominar e criar música a partir de um instrumento. Muitas vezes torna-se um jogo de sons, pura diversão", diz ainda.

Entretanto, a escolha do instrumento deverá ser da própria criança e não dos pais. "Ela poderá querer aprender outros instrumentos com o passar dos anos, mas a decisão deve ser dela", complementa o maestro Paulo de Tarso.