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Comportamento

Surpresas previsíveis

Algumas coisas fogem do nosso controle; em outras há fatos que não deveriam justificar essa reação


    • São José do Rio Preto
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Por que algumas coisas dão tão errado, mesmo quando há várias pistas sugerindo que um desastre é iminente? São as "surpresas previsíveis", definidas pelos professores da Harvard Business School, nos Estados Unidos, Michael Watkins e Max Bazerman como "um evento ou série de eventos que surpreendem um indivíduo ou um grupo, apesar do prévio conhecimento de toda a informação necessária para a antecipação do acontecimento e suas consequências". Eles são autores do livro "Os desastres previsíveis".

Surpresa, dizem os dicionários é tudo aquilo que provoca espanto; aquilo capaz de surpreender, de espantar; coisa ou situação que causa admiração: circunstância imprevista, inesperada, repentina; o que não se sabe por antecipação ou o imprevisto.

Há alguns fatos que acontecem totalmente fora de controle, onde fica provada a imprevisibilidade da vida. "Há certas situações na vida que parecem surpreendentes, inesperadas e que acontecem de repente. Em boa parte dos casos, porém, o que nos causa surpresa tem por trás uma sucessão de encadeados que não deveriam justificar essa reação", escreve o jornalista e professor universitário André Trigueiro no livro "A Força do Um" (ed. Infinda).

O próprio Trigueiro é quem dá os exemplos. "Uma relação amorosa não se esgarça de uma hora para a outra. O arrefecimento do desejo tem uma ou mais causas que são do conhecimento de, pelo menos, uma das partes. É um processo que se desenrola de forma mais ou menos rápida, mas nunca subitamente, como uma explosão de repentina", escreve.

Isso vale para o fim de um casamento ou para estados mórbidos de saúde. "Muita gente tem uma vida sedentária, sono irregular e alimentação errática e ainda se reserva ao direito de levar um susto quando descobre que tem diabetes, pressão alta, entupimento das artérias ou outro problema qualquer. Quem não se cuida, abre caminho para 'surpresas' desagradáveis", esclarece. Na área de engenharia, sabe-se que toda catástrofe é precedida de uma cadeia de eventos que remetem à falhas humanas ou de ordem material. "Um avião que caiu, uma ponte que ruiu, um prédio que desabou, uma usina nuclear que teve um vazamento radioativo, uma barragem de mineração que se rompeu. Invariavelmente, uma situação dessas não tem causa única; existe uma causa única: existe uma soma de fatores que são identificados ao longa da investigação, irresponsabilidade, imperícia, omissão, leniência, entre outros fatores costumam ser associados a vários gêneros de tragédia", diz ainda na obra.

Em muitos momentos recebemos alertas da vida, por vários meios, desde sinais de fora vindo de pessoas, acontecimentos, ou até da nossa intuição que nos mostra um fio de risco, mas por excesso de confiança nas nossas capacidades, ou por considerarmos que estamos tomando os devidos cuidados, acabamos por vacilar e nos deparamos com algumas das surpresas um tanto previstas, que mesmo tendo sua importância e nos aborrecendo ou causando danos e sofrimentos, não tiram tanto o nosso chão comparadas com as que nem imaginávamos.

Apesar de algumas surpresas serem "previsíveis", temos acontecimentos que realmente nos surpreendem. Mesmo tomando os cuidados que julgamos necessários, ou ainda quando nos sentimos preparados para as mais complexas situações, como uma mágica, elas nos apanham desprevenidos.

"A cada curva, fatos repentinos nos sondam e pelo temor de enfrentarmos situações que possam evidenciar nosso descontrole, procuramos então afastar a possibilidade do inesperado", diz a psicanalista Silvana Lance, psicoterapeuta especialista em psicodrama clínico. Muitos, na tentativa de se proteger, criam rotinas aparentemente imutáveis e perfeitas, se cercando de rituais e resumindo a vida a detalhes previamente planejados que embora sem grandes emoções, podem transmitir uma sensação de segurança.

"Mas já temos em nosso dia a dia rotinas suficientes impostas por situações variadas, e se além destas nos infligirmos outras minuciosamente calculadas por conta do medo dos imprevistos, tornaremos nossa vida enfadonha, deixando de vivenciar episódios importantes além de nos podar a experiência e todo o encanto da surpresa, da novidade e da superação", complementa.

Se analisarmos que nada acontece da forma como planejamos em todos os nossos caminhos, por mais que nos empenhemos, veremos que isso tem um lado bom, pois nos leva ao aprendizado de melhor nos conhecermos e lidarmos com as surpresas que surgem. Elas podem ser boas e ruins, mas precisamos ser mais flexíveis com as ruins, uma vez que elas tiram o nosso chão de maneira dolorosa.

Entretanto, algumas surpresas contribuem para uma melhor reflexão e visão de vida, e são estes fatos imprevisíveis que mudam de alguma maneira a rota previsível que traçamos para a nossa história, nos dando grandes oportunidades de crescimento, se não materiais, com certeza espirituais, ou às vezes até ambas se conseguirmos entender a experiência vivida.

Em diferentes situações da vida, boa parte das surpresas não deveriam ser chamadas assim. "Especialmente para os que cultivam a fé e se sentem amparados por uma força superior que estabelece ordem no caos. Ressignificar os eventos que acontecem em nossas vidas à luz desse entendimento, não atribuindo ao acaso (ou às surpresas) o que nos acontece, é um exercício de espiritualidade e transcendência", escreve ainda André Trigueiro. De qualquer maneira, o susto, segundo ele, pode ser a culminância de uma história que passou despercebida ou foi deliberadamente ignorada por nós.