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Painel de Ideias

Novas ondas

E se o vento tinha a levado para outros mares, cabia a ela decidir se se afogaria em saudade ou nadaria em direção a uma "nova felicidade". Então, mediante ao que o destino lhe apresentava até ali, decidiu ficar com a segunda opção


    • São José do Rio Preto
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Foi abrir a porta do prédio para ter uma nova visão sobre a vida. Em sua cidade natal, no litoral, rapazes de 23 anos usam bermuda, boné e chinelo. Na nova morada, no interior do Estado, ele a esperava de calça jeans, sapatos, uma camiseta branca de gola V e um blazer muito bem cortado.

O topete lhe dava um ar de James Dean e o sorriso, emoldurado por intensos olhos azuis, formava duas belas covinhas que ressaltavam o frescor de sua idade.

Ele disse "oi". Ela também. Antes que pudesse seguir com a conversa, ele se dirigiu a ela e, bem devagarzinho, seus lábios se encontraram novamente. O beijo no portão do prédio era ainda melhor do que aquele apressado da saída da balada da madrugada anterior.

- Já estava com saudade desse beijo... - disse ele.

- Sério? - questionou ela.

- Seríssimo. Uma pena eu ter esse compromisso pra ir hoje. Se não a gente poderia pegar um cineminha. Você gosta de cinema?

- Adoro cinema!

- Que bom, eu também! A gente pode ir durante a semana

- Engraçado... Você tem mesmo 23 anos?...

Ela tinha 30. E ficou extremamente embaraçada de confessar a idade. Para sua surpresa, a reação daquele lindo jovem foi a melhor possível.

- Adoro mulher mais velha. Vocês são absolutamente decididas e eu curto muito isso!

Foi o suficiente para lhe ganhar! Ao que tudo indicava, as coisas estavam começando a entrar no eixo depois das enormes mudanças ocorridas nos últimos meses. Tinha se adaptado à nova cidade, o novo trabalho se tornava cada vez mais promissor e, mês a mês, ela conquistava novos e divertidos amigos. Tudo era diferente, mas, como ela mesma dizia, "era um diferente muito bom".

Não que ela estivesse fazendo planos de casar e ter filhos com o primeiro novo affair que aparecesse em seu caminho, mas ocupar sua cabeça com aquela mistura de jeitão de menino com atitude madura de homão era bem o que ela precisava para aliviar a profunda decepção que tivera no último relacionamento - um homem dez anos mais velho, que tinha sido surfista profissional, era amante de praia e havia ficado em sua terra natal. Um passado doído, que ela ainda não conseguira superar.

Ainda assim, naquele domingo à tarde, antes dele ir para o tal compromisso, ela e o pretendente novinho conversaram bastante. Deram risadas e beijaram bastante também. Ela descobriu que ele era super ligado à família e à religião, coisa rara nos dias de hoje (ainda mais pra alguém na idade dele).

No final das contas, aquele início não era exatamente um desenho perfeito do que queria para ela. Mas era um bom rascunho, e ela gostava do que via.

Talvez toda aquela mudança de cidade, trabalho, amigos e paqueras fosse como novas ondas invadindo sua terra interiorana. E se o vento tinha a levado para outros mares, cabia a ela decidir se se afogaria em saudade ou nadaria em direção a uma "nova felicidade". Então, mediante ao que o destino lhe apresentava até ali, decidiu ficar com a segunda opção.

Talvez fosse sua vez de aprender a surfar. E talvez, se conseguisse, ela nunca mais seria a mesma garota praiana de antes...

PATRÍCIA ANDRIK, Jornalista em Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço aos sábados