Diário da Região

    • São José do Rio Preto
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16/02/2020 - 00h30min

Painel de Ideias

Negócio de ocasião

As flâmulas - os mais novos talvez nem saibam que estou falando daquelas bandeirolas de tecido, em formato triangular, que as pessoas penduravam na parede - foram, ao seu tempo, um registro de acontecimentos importantes

Divulgação José Luís Rey | jlrey@paginaimpar.com.br
José Luís Rey | [email protected]

A bela e rara coleção de flâmulas que o pesquisador Fernando Marques guarda em seu Museu da Imagem e do Som - e que recebeu um importante reforço há alguns anos, com a doação feita pela família do cirurgião-dentista Rupem Kuyunjian - certamente é capaz de provocar, nos que têm a oportunidade de vê-las, uma sensação inquietante, difícil até de definir. Algo como o que se sente quando se encontra a fotografia de uma pessoa querida que já tenha morrido, ou - para ser menos trágico - quando se depara com um convite antigo para uma festa de aniversário que tenha se tornado inesquecível.

As flâmulas - os mais novos talvez nem saibam que estou falando daquelas bandeirolas de tecido, em formato triangular, que as pessoas penduravam na parede - foram, ao seu tempo, um registro de acontecimentos importantes. A coleção tem exemplos de flâmulas comemorativas a jogos de futebol, campanhas políticas, aniversário de instituições e por aí afora.

Rio Preto provavelmente fosse uma cidade mais interessante no tempo em que celebrava suas efemérides, estampando-as nas flâmulas. Hoje, elas saíram de moda, a cidade não é mais a mesma - nem a biquinha da Andaló existe mais...

As gerações que se acostumaram a aguardar, em frente ao portão de casa, a passagem da charrete do padeiro trazendo o irresistível pão-doce coberto de creme amarelo são as mesmas gerações que se informavam, pelo apito inconfundível do sorveteiro, da aproximação de um carrinho abarrotado de delícias geladas - algumas delas também em flagrante desuso. Ou alguém ainda compra picolé de creme holandês?

Coisas como o Juju - um refresco colorido, vendido em saquinho de plástico que tinha de ser furado com o canudo - rivalizava, na preferência de consumo da molecada, com o cachorro-quente comprado nos carrinhos do "Salchibom" e, mais tarde, do "Dunga Dog". Cachorro-quente da Americana, aquele do inigualável molho com pimentão, era coisa para ocasiões especiais, dia de ir "à cidade" em companhia da mãe. Sorvete "ula-ula" ou "banana split" no "Só Suco" mais ainda - era programa de época do Natal, com o comércio aberto à noite.

O espírito dessa cidade das flâmulas, do vendedor de beiju com sua matraca barulhenta, do carrinho de pipoca do Miola na esquina da Siqueira com a Bernardino, do homenzinho resmungão vendendo balões de gás na praça Ruy Barbosa, das vitrines iluminadas das Casas Regente, aparecia em preto-e-branco nos cartões postais que destacavam, se bem me lembro, o prédio da Galeria Bassitt, as praças do centro vistas do alto, o Instituto de Educação Monsenhor Gonçalves, a catedral velha, essas coisas.

Postais como aqueles que o Babá Bassitt recebeu certa vez, em grande quantidade, como pagamento de uma dívida, e ofereceu em consignação a um desconfiado comerciante português da Bernardino. Se vendesse, pagaria por eles, se não vendesse, tudo certo - e mesmo assim o português concordou em receber apenas uma pequena parte, uma espécie de teste.

Assim que a mercadoria foi exposta, Babá começou a pedir a um monte de amigos que fossem ao estabelecimento e comprassem pelo menos um cartão. No mesmo dia, o estoque do teste estava esgotado, o que motivou o comerciante a procurar seu fornecedor.

- O senhor tem mais daqueles cartões?

- Tenho.

- Estou interessado em comprar todos eles...

Comprou, pagou e não vendeu mais nenhum.

Acho que o nome daquela sensação que se tem ao olhar as flâmulas que lembram aqueles tempos é saudade. Deve ser...

JOSÉ LUÍS REY, Jornalista em Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço aos domingos

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