McCoy Tyner: jazz e alteridadeÍcone de fechar Fechar

Painel de Ideias

McCoy Tyner: jazz e alteridade

Segundo Morton e Cook, Tyner era "canhoto", e suas "figuras rítmicas graves têm uma profundidade e peso característicos enquanto que seu modo de solar tem uma qualidade de quase staccato (...) que usualmente se comunica muito grandiosamente"


    • São José do Rio Preto
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Em uma das seções de "The Penguin Jazz Guide: The History of the Music in the 1001 Best Albums" que Brian Morton e Richard Cook dedicam a McCoy Tyner, os autores dizem que ele "(...) é o pianista-compositor mais influente no jazz moderno ()". De fato, para defender essa tese, seria suficiente dizer, como fazem Morton e Cook, que "Tyner (...) forneceu a armadura harmônica para o quarteto "clássico" de Coltrane". Mas os feitos musicais desse pianista vão muito além disso.

Para dar suporte a essa afirmação, Morton e Cook utilizam um argumento bastante técnico, explicando que "Tyner é a principal fonte de harmonias quartais, escalas pentatônicas e outras vozes exóticas que agora aparecem no jazz moderno rotineiramente e de modo não creditado". Em outros termos, portanto, o que os autores afirmam, no limite, é que, ouvidas em retrospecto, as gravações de Tyner são uma vasta coleção das convenções que, ao longo do tempo, passaram a formar o cerne da linguagem pianística do gênero que ficou conhecido como jazz contemporâneo.

Ainda sobre os aspectos técnicos do estilo de Tyner, os dois críticos chamam a atenção para uma idiossincrasia que foi definidora para a sonoridade do pianista. Segundo Morton e Cook, Tyner era "canhoto", e suas "figuras rítmicas graves têm uma profundidade e peso característicos enquanto que seu modo de solar tem uma qualidade de quase staccato (...) que usualmente se comunica muito grandiosamente". Além disso, Morton e Cook também apontam para o fato de que "seus grandiosos acordes pedais e linhas de mão direita agitadas estabelecem os padrões clássicos de pergunta e resposta que dominam seu estilo () e o som que ele consegue é peculiarmente translúcido (...)". O resultado prático disso tudo nós ouvimos em gravações como "Speak Low", "Sunset", "Inception", "Mes Trois Fils", "Parody", "Departure". Em cada uma dessas faixas ouvimos um músico técnico, sensível e, sobretudo, disposto a correr riscos em nome da inventividade e da liberdade criadora.

Embora a proficiência ao piano de Tyner seja inquestionável, o que mais impressiona em sua música não são seus aspectos meramente técnicos ou mecânicos. De fato, embora esses sejam elementos intrínsecos ao estilo de todo músico virtuose, não é a prestidigitação que torna o artista relevante, e esse pianista sabia disso. Como diz o próprio Tyner, citado por Morton e Cook em "The Penguin Jazz Guide: The History of the Music in the 1001 Best Albums", "a música é uma expressão de amor pelos outros e de comunicação com eles". Ideia importante de circular em tempos proto-fascistas e imbecilizantes como o nosso.

A música de Tyner é permeada por um forte éthos anticonservador e antirreacionário. Por isso mesmo, sua discografia possui um grande potencial emancipador do espírito. Nesse sentido, Tyner criou uma obra que rechaça a intolerância em nome de uma alteridade franca e libertadora.

FERNANDO APARECIDO POIANA, Professor de língua inglesa e músico em Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço às quintas-feiras.