Diário da Região

    • São José do Rio Preto
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08/02/2020 - 00h30min

Painel de Ideias

O banho

Histórias tantas de força, garra, superação, fé e resistência. Mães que vão ao calvário, escalam montanhas de problemas, navegam em mares bravios ou descem ao mais profundo inferno para resgatar um filho. Milagres que Deus só escreve na vida das mães

Divulgação Elma Eneida Bassan Mendes | elma@comecaocomeco.com.br
Elma Eneida Bassan Mendes | [email protected]

Não tinha pra ninguém. A "mina" da bola-queimada que a molecada jogava na rua em frente de casa era eu. Para quem não sabe, "mina" é a "pata" do time, alvo que o adversário acertava mais facilmente. Desatenta e lerda, a primeira a ser pega no esconde-esconde e a última a chegar nas corridas também era eu. E foi com esse desempenho atlético admirável que eu cresci (não muito, mas cresci), virei gente grande e me casei. E tive o primeiro filho.

Uma semana após o nascimento, minha mãe, que veio ficar em casa para me ajudar, se despediu e voltou para rotina dela. Antes, fez a última recomendação: "na hora do banho, presta atenção, não vá esquecer. Começa da cabecinha para os pés do bebê, cuidado com a água da banheira já cheia de sabão, ok? Claro, mãe, ok, obrigada!" Ela se foi e eu rumei para o banheiro com meu pequeno. Era nossa estreia, banho solo, ele e eu, eu e ele. Mãe de primeira viagem, fiz exatamente o contrário. Apaixonada e desatenta, comecei dos pés para cabeça. Quase no fim do banho, bolhas começaram a sair do nariz e da boquinha do meu anjo. Gotinhas de água com sabão do meu braço haviam caído bem dentro das narinas dele sem eu perceber.

Desesperada, envolvi o bebê na toalha, voei pelas escadas do prédio, ganhei a rua e desembestei a pé para o consultório do pediatra, o querido Dr. João Batista Salomão Junior. Por providência divina (Deus sabe tudo) morávamos apenas três quadras do consultório. E foram as mais sofridas de toda minha história. Estava de camisola, chinelinho de quarto (desses de tecido e que ficaram em algum ponto do trajeto porque atrapalhavam minha corrida), "penhoar" e todos os pontos da cesárea. A dor do amor era o que mais me doía; o medo de perder meu filho me fez voar. Quando alcancei a quadra do consultório, o médico já estava na rua e veio ao meu encontro (a moça que trabalhava em casa ligou avisando a situação e que eu estava correndo para lá).

Entreguei o pacote precioso em suas mãos e ele entrou para a sala de primeiros socorros. Aspirou as narinas cheias de água e sabão. Ele estava roxinho, mas já respirava bem. Eu não tinha cor, nem alma, nem chão. Eu era pranto, dor, pesadelo, culpa. Hoje, 33 anos após o susto, penso como consegui correr daquele jeito. A mina, a pata virou um raio. Quantas mães franzinas se agigantam.

Histórias tantas de força, garra, superação, fé e resistência. Mães que vão ao calvário, escalam montanhas de problemas, navegam em mares bravios ou descem ao mais profundo inferno para resgatar um filho. Milagres que Deus só escreve na vida das mães. Me lembrei da frase de Julie Otsuka que li, dia desses, no Facebook da Patrícia Reis Buzzini: "Mulheres são fracas, mas mães são fortes". Eu acrescentaria: "mulheres são fracas e imperfeitas, mas mães são fortes e velozes".

ELMA ENEIDA BASSAN MENDES, Jornalista e escritora em Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço aos sábados

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