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09/02/2020 - 00h30min

Painel de Ideias

Matar ou morrer

O filme aborda a ousadia dum homem sozinho a serviço da justiça e do bem comum. Revive o mito do herói que, desde as epopeias gregas, tem a função pedagógica de enfrentar obstáculos e inspirar condutas edificantes

Divulgação Romildo Sant'Anna
Romildo Sant'Anna

'Matar ou Morrer' (1952), de Fred Zinnermann, é um clássico do faroeste americano. Está na Netflix. Com roteiro adaptado de um conto de John W. Cunningham (1915-2002) e estrelado por Gary Cooper e Grace Kelly, é também um dos mais sutis filmes de mensagem política. A refletir tensões psicossociais num ambiente sufocado pela impunidade e intimidação, seu tema ultrapassa a época em que foi produzido e se atualiza em períodos e lugares onde a justiça se ergue contra indivíduos e instituições inatingíveis, inacusáveis.

O título original é 'High Noon' (meio-dia), metáfora do momento de passagem do antes à hipótese do depois. Está vindo à cidade um criminoso influente e, por surpresa, condenado à prisão. Mas, por "ordens de cima" foi libertado, tomou o trem e volta para se vingar do delegado e o juiz que o detiveram. Na estação o esperam três capangas contratados. A notícia se espalha e os habitantes se recolhem por medo, cumplicidade, adesão ou covardia. Sabem que os opressores agridem os desafetos e adversários moralmente ou os matando.

Um dos efeitos vibrantes da obra perpassa o miolo da ação. Ocorre em tempo real, nos sessenta minutos que faltam para o meio-dia e a chegada do ex-presidiário. (Em 'Festim Diabólico', de 1948, Hitchcock criou a "sequência em tempo real"). Alguns relógios mostrados intensificam o suspense e suscitam o anseio pelo porvir. O delegado busca aliados e eles se afastam; na igreja, o induzem a desistir. E o juiz do lugar arruma as malas: "Da outra vez, só escapei de ser morto graças a uma senhora de reputação duvidosa". Deu-lhe seu anel de propina. De que vale combater o crime se instâncias comparsas o absolvem? Este é o drama vivido pelo espectador e eixo dessa obra que é arte, despertar de consciência e entretenimento.

O filme aborda a ousadia dum homem sozinho a serviço da justiça e do bem comum. Revive o mito do herói que, desde as epopeias gregas, tem a função pedagógica de enfrentar obstáculos e inspirar condutas edificantes. Sendo radiografia da vida em sociedade, seu discurso não é um manual de ética, antropologia ou de ciências jurídicas, mas uma peça de ficção. E o diretor, roteirista, atores e toda a equipe criativa se atêm a isso como artistas. Engajado em questões civilizatórias, é quase uma aula de arte cinematográfica.

'Matar ou Morrer' despertou patrulhas à esquerda e à direita, recebeu prêmios e indicações como de Melhor Diretor e Melhor Filme. Mesmo assim, é raro um exibidor comum por streaming (a Netflix) pôr em tela uma obra em preto e branco realizada há quase 70 anos. O que o tornaria plausível? Nestes tempos em que cidadãos, facções ideológicas e judiciárias se rasgam ferozmente em público e se rebaixam em atos explícitos de infâmia, o filme parece fundamente atual, oportuno. Virtude inerente às artes e aos grandes artistas.

ROMILDO SANT'ANNA, Crítico de arte e jornalista. Livre-docente pela Unesp, é imortal da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura(Arlec). Escreve quinzenalmente neste espaço aos domingos

 

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