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    • São José do Rio Preto
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07/02/2020 - 00h30min

Painel de Ideias

Comunismo

O cristianismo não adotou a versão platônica do comunismo, mas, aparentemente, a aristotélica. Jesus pregou a doação de bens para a salvação, não, necessariamente, doação para que os outros tivessem a mesma quantidade de bens

Divulgação Evandro Pelarin | epelarin@gmail.com
Evandro Pelarin | [email protected]

Estabelecido, na política, na década de 1840, refere-se, resumidamente, a três fenômenos: um ideal, um programa e um sistema instituído para realizar o ideal, conforme a lição do Professor Richard Pipes. Como ideal, que remonta à antiguidade clássica, o comunismo traduz a noção de igualdade social plena em sua forma mais extrema: inexistência de propriedade privada. Como programa, ou seja, a politização do ideal, ele vem do fim do século XVIII e, principalmente, de meados do século XIX, com Marx e Engels. E, como regime, o primeiro esforço efetivo, sistemático e de relevo ocorreu na Rússia na primeira metade do séc. XX, pela liderança de Lênin.

Limitando-se, neste texto, sobre o ideal, e dentre as principais ideias comunistas na história, aquela, de uma sociedade sem classes, surgiu na Grécia clássica, com Platão. Na obra 'República', ele aponta que a raiz da discórdia e das guerras estava nos bens materiais. Em 'Leis', onde descreve uma sociedade idealizada, as pessoas compartilhavam até esposas e filhos. Em oposição, de certo modo, para Aristóteles a discórdia não está nos bens em si, mas na vontade de possuí-los.

O cristianismo não adotou a versão platônica do comunismo, mas, aparentemente, a aristotélica. Jesus pregou a doação de bens para a salvação, não, necessariamente, doação para que os outros tivessem a mesma quantidade de bens. São Paulo não disse que o dinheiro é a origem do mal, mas sim o 'amor pelo dinheiro'. Na mesma linha, para Santo Agostinho 'o dinheiro é bom, mas o mal o usa para o mal', prosseguindo que o mundo sem propriedades só é possível no paraíso, não na terra. Para os fundadores do protestantismo, entre eles Calvino, a riqueza é até um sinal da graça divina.

Já no fim da Idade Média, o pensamento europeu estava impregnado pela imaginação do desconhecido. Exploradores marítimos carregavam a visão medieval da descoberta do paraíso na terra, não só o desejo de encontrar ouro. Ao desembarcar na América, de índios nus, sem preocupação com bens, muitos acreditaram estar diante do paraíso, que era comunista.

Essa ilusão e a primeira impressão da América, relatada de imediato por Colombo, inspiraram Thomas Moore para a famosa 'A Utopia'. Embora o caráter essencialmente imaginário e quimérico, a obra fica na história do socialismo como a primeira tentativa teórica da edificação de uma sociedade baseada na comunidade dos bens. Mas o livro, da ilha imaginária, onde as ovelhas devoram os homens, não é a descrição do éden. A comunidade é austera, controlada. Todas as pessoas se vestem da mesma maneira. Vivem em casas idênticas. Não se permitia a discussão privada das coisas públicas. O dinheiro, abolido. A obra não reflete um lugar feliz. Muito diferente da forma como hoje o livro é retratado e divulgado. 'A Utopia', em suma, significa submissão total do indivíduo à comunidade.

Segundo o professor Pipes, a ideia de uma sociedade sem propriedade é uma fantasia. Fruto mais do desejo do que da memória. Nunca houve tempo e lugar em que todos os bens de produção fossem coletivos. Egito e Mesopotâmia: terra dos palácios e templos. Israel: primeiro a evidenciar a propriedade privada. Grécia: o solo arável era privado.

Nos próximos textos, tentaremos discorrer sobre os programas comunistas mais relevantes, tais com o dos socialistas utópicos, o do filantropo Robert Owen, 'Virginia Company', e o marxista.

EVANDRO PELARIN, Juiz da Vara da Infância e Juventude de Rio Preto. Escreve quinzenalmente neste espaço às sextas-feiras

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