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Editorial

Inundação e negligência


    • São José do Rio Preto
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Levantamento do Projeto de Mapeamento Anual da Cobertura e Uso do Solo no Brasil, o MapBiomas, mantido em parceria por ONGs, universidades e empresas de tecnologia, revela que em todo o Estado de São Paulo as manchas urbanas quase dobraram ao longo das últimas três décadas, crescendo 86% entre 1985 e 2018. Na cidade de São Paulo, passou de 793 para 878 quilômetros quadrados, 57% do território. O reflexo avassalador pode ser medido pelas inundações e a onda de destruição na Capital e cidades do Interior.

Está em franca expansão a quantidade de superfícies não vegetadas ou ocupadas indiscriminadamente pelos mais diversos tipos de construções e exploração desordenada. Em geral, são atividades ilegais e muitas vezes até executadas sob as bênçãos de mobilização política de legisladores desprovidos de qualquer preocupação com respaldo técnico e científico.

Embora o cenário tenha se modificado, principalmente em razão de milionárias intervenções urbanas nos últimos anos, com canais antienchente, abertura de galerias pluviais e construção estratégica de piscinões de contenção, Rio Preto não está imune. Os alagamentos das principais avenidas podem até ter se transformado em enxurradas, com escoamento mais rápido, mas basta uma chuva um pouco mais intensa para se instalar o caos, como aconteceu na semana passada. Apesar de todo o investimento feito, Rio Preto continua sendo uma cidade amplamente impermeabilizada.

Quando se fala em transtorno causado pela chuva, a propósito, nunca se deve esquecer que o problema vai muito além das importantes avenidas. É preciso um olhar muito mais atento da Defesa Civil, e das autoridades públicas, nos bairros periféricos, nas ruas intransitáveis, nos imóveis erguidos em locais de extrema vulnerabilidade. Nesse contexto também entram as consequências resultantes das dezenas de loteamentos irregulares que se instalaram no município nos últimos 30 anos. Nesse cenário, não se pode descartar a importância de campanhas de conscientização. Nas correntezas da última semana, foi possível identificar, por exemplo, o inacreditável volume de lixo acumulado nas caixas coletoras de água, as "bocas de lobo".

No mais, resta torcer pela calibragem de discursos de autoridades que insistem em negligenciar as questões ambientais. Afinal, conforme a apropriada definição de Marcos Rosa, coordenador técnico do projeto MapBiomas, em reportagem da Folha de S.Paulo, "estamos vivendo uma época em que se combate o conhecimento e se tem orgulho da ignorância".