Tristes trópicosÍcone de fechar Fechar

Editorial

Tristes trópicos


    • São José do Rio Preto
    • máx 32 min 18

O vídeo com o flagrante de um policial militar de Rio Preto apertando brutalmente com o joelho a barriga de uma mulher indefesa, grávida e estatelada no chão, e a estapeando, não deixa margem para dúvidas. Sem eufemismos, houve ali um típico e inaceitável caso de abuso de autoridade. Com eufemismos, tratou-se de um caso de despreparo absoluto. De todo jeito, a atitude levou o comando da Polícia Militar, com recomendação do governador do Estado, a providenciar o afastamento imediato do policial, temporariamente direcionado para a execução de tarefas internas da corporação.

Publicada por este Diário e veículos de comunicação de todos os cantos do País, além de "viralizar" nas redes sociais, a filmagem provocou reações diversas. Sem surpresa, em tempos de extremismo e de intolerância, é claro que o equilíbrio e a sensatez não foram a tônica da maioria dos comentários, embora as imagens falem mais que mil palavras. Boa coisa ela não estava fazendo, concluíram na internet os apoiadores incondicionais da ação do policial.

Em depoimento na delegacia, a mulher disse ter sido agredida porque tentou filmar o policial, numa ocorrência de tráfico de drogas, obrigando um adolescente a engolir maconha. Em represália, mas alegando desacato, o policial teria procurado contê-la de um jeito peculiar - não parou mesmo alertado sobre o estado de gravidez da mulher, como se constata no áudio da filmagem que o flagrou, feita por outras pessoas presentes.

Trata-se de um caso que deve ser avaliado tecnicamente, de forma isenta, tanto nas esferas do Judiciário quanto nos âmbitos internos e tratado com a devida neutralidade da corregedoria. Não se deseja absolvição e tampouco condenação a priori, mas certamente é do interesse público que o caso não seja empurrado para debaixo do tapete.

Pelos mais diferentes motivos e circunstâncias, a polícia erra, assim como erram o governador, o presidente, o prefeito, o juiz, o médico, o advogado, o engenheiro, o jornalista. Mas também se acerta muito mais, e o grande desafio é cuidar para que os acertos se sobressaiam.

Sem eufemismo e sem hipocrisia, e sem que isso signifique pender para um dos lados, reconhecer que houve um erro grotesco de abordagem é o primeiro e elementar passo para se buscar a desejada correção de rotas. É natural esperar que a corporação tenha apreço por processos de aprimoramento e melhoria contínua e não compactue com ideias distorcidas de que autoridades policiais têm licença para exacerbar.