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ARTIGO

'Palindromia', arte milenar

O apelo ao raciocínio lógico e novas reflexões sobre esse tipo de "recreação linguística"


    • São José do Rio Preto
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"Entre as recreações úteis e interessantes que o professor pode apresentar aos alunos, na sala de aula, destaco a palindromia." Malba Tahan (1895-1974).

No ginásio e científico, tive mestres admiráveis de Língua Portuguesa. Dentre eles, Benedicto Silva, Leonilda Tonin e Antonio Oirmes, cujas aulas, entremeadas de atividades educativas apaixonantes, incluíam de jograis, anagramas, raciocínio lógico e "caça à palavra" (familiarização com o dicionário) até a iniciação a regras elementares do Esperanto. Daí, talvez, meu interesse (educacional) pelas palavras e frases "palíndromas", que, lidas da esquerda para a direita ou vice-versa, permanecem as mesmas, como "Ana", "mirim" e os superlativos "omissíssimo" e "amissíssimo" (dois dos mais longos em português) e "A mãe te ama" e "Oto come mocotó". Detalhe: na nossa língua, a maioria das palavras termina em vogais ou com as consonantes L, M, R ou S, tornando difícil a criação de palíndromos, ao contrário do inglês, em que há termos que terminam com todas as letras do alfabeto. ("Dad", "Madam, I'm Adam", "If I had a hi-fi".)

A verdade, porém, é que só após minha graduação despertei-me para o apelo ao raciocínio lógico desse tipo de "recreação linguística". Em especial, durante os minicursos e workshops de Educação Matemática que ministrava para docentes da educação básica, inclusive ampliando o conceito a números e datas, como 11811 e 9/10/2019. (Na China, acredita-se que datas palíndromas trazem sorte, daí vários casamentos terem sido agendados para o dia 02/02/2020, adiados, todavia, por causa do coronavírus.)

Existem registros de palíndromos desde o século 3 a.C., com extensões, simples ou complexas, encontradas em diferentes áreas em face do milenar fascínio que a ideia de simetria exerce sobre o ser humano. Exemplo disso são as frases "quase-palíndromas", em que as palavras são lidas em bloco: "Felizmente todos sobreviveram" e "Sobreviveram todos felizmente". Também são encontradas na geometria (vide as incríveis gravuras de M. Esher (1898-1972), como a litografia 'Drawing hands', em que duas mãos se desenham simultaneamente), na música (Beethoven, entre outros compositores, criou partituras que permanecem idênticas quando executadas ao contrário), na literatura (como no divertido "Poema de traz para a frente e vice-versa", atribuído a Cecília Meireles), nas "simetrias silábicas" de Malba Tahan ("fa-ro-fa") ou nas "escritas especulares" de Leonardo da Vinci (1452-1519), além das que se passam no universo das ciências (como na biologia molecular e na química orgânica), inclusive no domínio da ficção científica, como nos filmes "Palíndromo" (premiado no Festival de Gramado de 2001) e "A chegada" (Arrival, premiado no Oscar de 2017), ambos disponíveis na Internet.

Vale lembrar, por fim, que os palíndromos foram alvo do interesse de inúmeros personagens conhecidos, como Millôr Fernandes ("A mala nada na lama"; "A grama é amarga"), Laerte (cartunista), Otto Lara Resende e Julio Cortázar. Por último, deixo um desafio aos leitores familiarizados com a aritmética elementar: mostrar que os palíndromos de quatro dígitos são múltiplos de 11. (Nota: este artigo complementa o de título "02/02/2020, data palíndroma", de 04/02/2020.)

Eurípides A. Silva, Mestre e doutor em Matemática pela USP, aposentado pelo Ibilce, campus da Unesp de S. J. do Rio Preto.