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ARTIGO

Uma questão de índole

Sobre imitar o modo de ser japonês para que, em uma década, nos rivalizemos com o Japão


    • São José do Rio Preto
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Com verbo candente, conhecido jornalista tem parte de uma palestra sua veiculada nas redes sociais. Tema colocado à plateia: os modos de ser do brasileiro e do japonês a explicarem porque o Brasil, território continental de terras férteis, biodiverso, pródigo em recursos naturais e sob a luz dos trópicos, não consegue ser o Japão, um arquipélago acanhado em meio à vastidão da Ásia e assolado por vulcões, terremotos, tsunamis e duas bombas atômicas, contudo, expoência no Mundo desenvolvido.

Positivamente, do ponto de vista do que chamaríamos de índole nacional, o Brasil não é o Japão. Vejamos. Da humilhante rendição em 1945 até agora, o PIB japonês, nominal ou em poder de compra, chegou aos três ou quatro PIBs ponteiros do Mundo. Em igual período, o nosso PIB se situa próximo do décimo degrau na escala mundial. Pior, em termos "per capita" descemos até sessenta ou mais degraus.

Nossas desigualdades nos afligem e nos diferenciam da invejável qualidade de vida do povo nipônico, país exposto à insanidade das guerras ou vítima dos desastres naturais. Tais comparações levaram o jornalista a sugerir, no final da sua palestra, o modo de ser japonês para que, em uma década, nos rivalizemos com o Japão.

Análises situacionais assim e proposições delas consequentes são próprias de um novo ano que começa. Ou emergimos da já longa crise em que vivemos ou mergulharemos em era de decadência e de inserção entre povos periféricos e sem peso crítico na geopolítica mundial.

O instigante dizer do jornalista, naturalmente, não tem a profundidade dos diagnósticos sobre um projeto nacional. Seria um presságio, uma expectativa. No presságio, o temor da manutenção do modo de ser brasileiro; na expectativa, a esperança de uma guinada atitudinal. Entre a intenção e a ação, a Realidade.

De real, podemos dizer que 2020 parece começar de fato. Retorno às aulas, ministros voltando das férias, o Judiciário e o Parlamento pós-sessões magnas. É que, no Brasil, o ano do calendário na realidade começa depois do janeiro, quando não, depois do Carnaval, terminando no frenesi pré-natalino.

Este janeiro trouxe as monções de verão fazendo mais precárias nossas cidades e, para variar, acrescentando ao terror da dengue a ameaça do coronavírus. Porém, trabalhar é preciso, mesmo que, ocidentais não afeitos à ética e ao espirito do capitalismo e não propensos à adoção do bushido. Mas... Precisaríamos mesmo de uma mudança tão drástica, tão dramática?

Legiões e legiões de gente humilde se entregaram e se entregam à labuta nos eitos, nas fábricas, nos escritórios, nos balcões do comércio e dos serviços para conservar o emprego, hoje uma conquista rara, ou manter-se precariamente na informalidade, marca cruel de uma crise que teima em durar.

Padecemos, desde os primórdios do século XVI, de uma visão distorcida do processo histórico de geração da riqueza e, com isso, optamos por modelos de baixa produtividade: a escravatura, as delações premiadas de 1720 e da Inconfidência, os favores fiscais, o rentismo, enfim, uma cesta perversa de práticas econômicas que atrasaram nossa progresso e, agora, barra o nosso ingresso no século XXI. Nosso povo já é frugal e determinado por um fatalismo histórico: o medievalismo, o positivismo e a ganância do andar de cima.

HELIO SILVA, Advogado; Rio Preto.