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ARTIGO

Lenda do rádio

O caboclo se identificava e se pegava sorrindo sozinho ouvindo o comunicador Zé Béttio


    • São José do Rio Preto
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Dia desses, o presidente Jair Bolsonaro recebeu no Palácio do Planalto comitiva erroneamente chamada de "sertanejos", encontro no qual fizeram algumas reivindicações para a classe. Na hora do discurso, o presidente fez questão de lembrar seu tempo de rapazinho, quando ia pescar. Além dos apetrechos, levava um radinho à pilha, capa de couro marrom da marca Mitsubishi. Gostava de ouvir modas caipiras nas rádios da capital, principalmente o programa "Na bêra da tuia", apresentado pelos irmãos Tonico e Tinoco. Ele não disse, mas, com certeza, ouvia também o grande comunicador Zé Béttio.

José Béttio nasceu na fazenda Santa Maria, bairro Cabeceira dos Patos, em 2 de janeiro de 1926, município de Promissão, São Paulo - por coincidência, a pouco mais de 50 quilômetros de Glicério, onde nasceu o presidente. Em promissão Zé Béttio viveu parte da infância. A família se mudou para Cornélio Procópio, no Paraná. Nessa cidade, fez sua primeira apresentação em público, num parque de diversões. Como prêmio, ganhou um litro de conhaque Palhinha. O padrinho pediu para segurar o litro e desapareceu. Quando o encontraram, tinha tomado toda a bebida, em companhia de amigos.

A família não se deu bem em terras paranaenses e voltou, agora, para Lins. No início, foi sapateiro. Como era bom de bola, chegou a jogar no Club Atlético Linense. Seu irmão Arlindo tinha aulas de sanfona com um conhecido. Zé Béttio o acompanhava nas aulas. Ao fim de três meses, os dois estavam tocando em bailinhos pelas colônias das redondezas no final dos anos 1950. O moço resolveu montar o trio "Sertanejos Alegres", para percorrer o interior de São Paulo.

Inquieto, desfez-se do trio e mudou-se para a capital. Queria tentar a vida de artista. Tornou-se radialista por acaso. Nas muitas apresentações na rádio Cometa de Guarulhos, mostrava-se desinibido diante dos microfones. Certa vez, faltou o locutor que lia os anúncios. O dono pediu a ele para cobrir a falta. O homem gostou tanto do seu jeito simples, do humor caipira que tinha, que resolveu contratá-lo.

No início de 1972, foi para a rádio Record. Na época, a emissora estava em 18º lugar em audiência no país. Em menos de dois anos, segundo Ibope, ele conseguiu elevá-la ao primeiro lugar. Juntando a audiência da segunda e terceira colocadas, não chegavam à metade da sua rádio.

Na roça, o locutor caiu no gosto da caipirada. Às 5h da manhã, quando ele iniciava a programação, era possível ouvir aquele locutor e suas brincadeiras com os ouvintes. O caboclo se identificava e se pegava sorrindo sozinho quando pedia para aumentar o volume do rádio. Ele dizia: "Acorda, seu preguiçoso! Dona Maria, joga água nesse gordo pra ele acordar!" O som do jorro d'água se fazia ouvir. Outras vezes pedia pra mocinhas ficarem bem próximo do rádio que ele ia mandar um beijo e assoprar seus cabelos. Assoprava o microfone.

Em companhia do apresentador José Russo, nos noites caipiras, lia os anúncios. Quando terminava, dizia, "Fala, Zé!". O outro Zé respondia: "Falo, falo sim!!" O bordão permaneceu durante anos.

Cansado da lida, se aposentou. No dia 27 de agosto de 2018, aos 92 anos, as rádios anunciavam o passamento daquele que foi, sem dúvidas, o maior representante da moda caipira.

Jocelino Soares, Artista Plástico, diretor da Casa de Cultura Dinorath do Valle; membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura (Arlec)