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ARTIGO

Jornalismo e literatura

As experiências que estão em pleno curso nos melhores jornais brasileiros e de fora


    • São José do Rio Preto
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Embora o termo jornalismo literário tenha sido sistematizado, por assim dizer, a partir dos anos 1960 pelo movimento conhecido por New Journalism, quando jornais e revistas de prestígio nos Estados Unidos passaram a abrir ou ampliar o espaço a profissionais que recorriam a técnica de ficção para tornar mais prazeroso, provocante e atraente o texto jornalístico, costumeiramente marcado pela fria objetividade no relato dos fatos, o jornalismo literário sempre existiu e praticamente se confunde com o início da própria imprensa.

Tom Wolf, Truman Capote, Norman Mailer e Gay Talese para citar quatro estrelas desse movimento não fizeram nada muito diferente nem melhor do que Euclides da Cunha fizera mais de 60 anos antes nas páginas de "O Estado de S. Paulo", como correspondente na Guerra de Canudos, no sertão baiano. Relatos que deram origem a "Os Sertões", um dos maiores clássicos da literatura brasileira. Mais um exemplo da grande reportagem que transcendeu as páginas de jornal.

Entre nós, na mesma época em que a patota do New Journalism sacudia a imprensa americana, a tentativa mais arrojada das grandes reportagens com pegada literária se deu com a revista "Realidade", publicação lançada em 1966 pela editora Abril. Fez parte dela, um dos jornalistas mais premiados do País, que ganhou um desses prêmios, o Esso, então o mais importante da categoria, com reportagem produzida aqui em Rio Preto, sobre a milésima cirurgia cardíaca do Instituto de Moléstias Cardiovasculares (IMC). Refiro-me ao veterano José Hamilton Ribeiro, até hoje na ativa, que buscou reproduzir em Rio Preto, nos anos 1970, um pouco do espírito dessas reportagens no inovador "Dia e Noite", jornal que ajudou a criar à época na cidade.

O certo é que com raríssimas exceções, depois do auge dos anos 1960-1970, o jornalismo literário ou a reportagem de fôlego foi perdendo espaço nos grandes jornais e revistas, acuados pela concorrência cada vez mais acirrada de outros meios, durante décadas encarnada pela televisão e coberturas ao vivo de qualquer lugar do mundo a partir dos mesmos anos 1960, e nestas últimas duas décadas com a concorrência ainda mais intensa das plataformas digitais, como a internet e suas redes sociais.

Os jornais, que nasceram impressos, estão tentando se adaptar a essa realidade, mesmo a maioria deles tendo criado o próprio site, páginas no Facebook e contas no Instagram e no Twitter.

Como se dará a fiscalização e a crítica do poder e dos poderosos, dentro e fora dos governos, sem as empresas que ainda conseguem manter jornalismo minimamente independente de grupos e partidos e que buscam nas páginas de suas publicações abranger a diversidade de opiniões de políticos, intelectuais, artistas, leitores etc?

É neste contexto que também se abre uma avenida gigantesca para a retomada do jornalismo literário e analítico, finalmente livres das amarras como tempo exíguo e espaço limitado das edições impressas e seus deadlines. As experiências já estão em pleno curso nos melhores jornais brasileiros e de fora. O grande desafio é as empresas que os editam concluir a difícil travessia e transformar toda essa produção em negócio atraente e rentável.

ROGÉRIO CASTRO, Jornalista, com atuação nos principais jornais impressos de Rio Preto