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ARTIGO

Feridas abertas

Pelo menos 60 mil pessoas morreram entre os muros do hospício de Barbacena


    • São José do Rio Preto
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Hipócrates é considerado até hoje o pai da Medicina, pois foi ele, de fato, que começou a criar parâmetros científicos (racionais) para entender sinais e sintomas de uma doença, até então vista de uma forma obscura, obra do sobrenatural que deveria ser debelada por meios mágicos, absolutamente empíricos.

Observador incansável à beira do Klinus (leito), de onde derivou a etimologia de clínica, criou os seus famosos aforismas, conceitos curtos e sintéticos sobre a doença, o paciente e o meio ambiente. Um deles dizia que "o surgimento de uma dor maior fazia esquecer uma dor menor" e isto, é claro, é o que observamos em nós mesmos quando acometidos.

Lembrei-me deste aforisma hipocrático, por alguns fatos do passado recente e de outros mais antigos que se entrelaçam, mas que caíram na vala do esquecimento, ofuscados pela "dor" maior e sua maior divulgação.

Falo de holocausto, mas emendo com holocaustos que dizimaram, ceifaram vidas fragilizadas, indefesas, em nome de uma eugenia fantasiosamente idealizada, ou de uma limpeza social para a pretensa salvaguarda da sociedade de um modo geral ou, enfim, para obtenção de um lucro fácil à custa da opressão a camadas indefesas.

A dor maior, porque é dela que nos lembramos facilmente, é aquela gerada pelo nazismo de Hitler que dizimou milhões de judeus, negros, homossexuais, todos aqueles, enfim, que pudessem conspurcar a pureza da raça ariana, conforme os ditames do ditador. E disso deveríamos nos lembrar sempre, para entendermos o passado negro e não repeti-lo no futuro. Passados mais de setenta anos da humilhação dos campos de concentração, a ferida continua aberta e talvez nunca cicatrize.

Mas esta dor maior, justamente sentida, nem sei por qual razão colocou no ostracismo dores de holocaustos brasileiros, que boa parte dos que me leem, talvez nem se deem conta. Um deles, mais recente que o martírio dos judeus, deu-se até quase o final do século vinte, em Barbacena, no maior hospício do Brasil, conhecido pelo nome de Colônia, onde eram internados bêbados de rua, mendigos andarilhos, moças de famílias desvirginadas antes do casamento, doentes mentais de nenhuma importância para a sociedade preservada em seu bem estar. Conforme Daniela Arbex, em seu livro Holocausto Brasileiro, ali se comiam ratos, fezes, tudo o que havia de mais promíscuo em ambiente fétido e de alta contaminação.

Pelo menos 60 mil pessoas morreram entre os muros da Colônia; o psiquiatra italiano Franco Basaglia, pioneiro da luta antimanicomial, visitando a Colônia em 1979, declarou: "Estive hoje em um campo de concentração nazista. Em nenhum lugar do mundo presenciei uma tragédia como essa".

Quantos de nós, brasileiros, somos conhecedores desta tragédia? O espaço não me permite avançar sobre outro holocausto brasileiro: a escravidão. Mas se ninguém ousa adentrar pelos meandros da história, por indiferença ou preguiça, sugiro a reflexão sobre Castro Alves no poema Navio Negreiro. Ali nos defrontaremos com o estigma de outro holocausto que começava insidiosamente nos porões infectos das naves escravocratas.

Wilson Daher, Psiquiatra, escritor. Acadêmico da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura (Arlec)