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ARTIGO

Doce e querida Fênix

Não faltam os que querem fazer o combalido Automóvel Clube ressurgir com todo o seu esplendor e glória


    • São José do Rio Preto
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Volta e meia vêm à tona voos ficcionais e discussões sobre o Automóvel Clube dos velhos carnavais. É comum, nessa época, espocarem deliciosas fotos que acendem lembranças da charmosa folia curtida nos salões da entidade, desde o soar do primeiro tamborim, fazendo cintilar na memória momentos que, apesar de despejar melancolia, edulcoram nosso cotidiano.

Não me refiro àquele Automóvel Clube da época da sede velha do centro da cidade, na esquina da Voluntários com Silva Jardim, que poucos dos frequentadores estão vivos para contar e rememorar. Mas o da sede nova na avenida Alberto Andaló, erigida a partir de 1956 por um grupo de abnegados, orquestrados pelos saudosos Luiz Duarte Silva, Milton Dias, Ivan Rollemberg, Lauro Cesar Ribeiro, Zaia Tarraf, Anisio Haddad, para citar apenas alguns.

Fundado em 13 de maio de 1920, o clube, que este ano comemora seu centenário, exerceu por algumas décadas um importante papel como personagem visceral na vida social e política na história do município. Teve inúmeros prefeitos e políticos como presidentes e membros da diretoria, como Coutinho Cavalcanti, Mário Valadão Furquim, Ernani Pires Domingues, Philadelpho Gouvêa Neto e Alberto Andaló, que empresta seu nome à avenida onde se instala, soberana, a sede social.

A história de um clube respeitável que seduzia aqueles que passavam em frente aos seus indevassáveis umbrais, epicentro do glamour, apesar dos artefatos históricos, hoje se curva aos problemas financeiros, debilitado e engolfado em dívidas e tenta se desfazer de um filho querido, o clube de campo, para enxugar as despesas e buscar sobrevivência. Não faltam os que querem fazer o combalido Automóvel Clube ressurgir com todo o seu esplendor e glória, pois a entidade traz em sua história uma aura envolvente que durante mais de 50 anos não tinha com quem competir.

A memória amplifica o prazer e a impressão que se tem é que se vivia intensamente. Não é bem assim. Esse Automóvel Clube que todos têm na memória, de textura envolvida numa atmosfera de elegância e beleza - versão tupiniquim de uma imaginária Hollywood -jamais voltará a existir. Tenta-se agarrar ao que resta, porque, convenhamos, os tempos são outros e os modos de socialização, também. Até o estilo de vida luxuoso tem outros parâmetros.

Hoje, a grande maioria daqueles que frequentavam o clube, seus filhos e netos, têm piscina em suas residências, academias em casa ou nos condomínios, ao contrário daquela época em que Rio Preto engatinhava como sociedade em formação, tentando despontar, apesar dos parcos recursos, como rincão exuberante em desenvolvimento na hinterlândia.

O epicentro era o clube, para o esporte, o encontro social, político, cultural e de negócios. A começar pelo viés histórico. O modus operandi dos relacionamentos trocou o lado pessoal e a presença física pelas ferramentas como whatsApp, Instagram e Facebook, e a História se instala ali, apenas na arquitetura. Mas o trabalho da diretoria Jesus Martin Neto está conseguindo resultados satisfatórios, caminhando devagar, porém de forma exemplar, saldando aos poucos as dívidas que herdou. Mas é preciso paciência para que os recursos sejam bem administrados.

Waldner Lui, Jornalista e colunista social; Rio Preto