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DIÁRIO DA AMAZÔNIA

Solidariedade brilha na cidade às escuras

Falta de atendimento médico tem uma carência maior do que a de alimentos


    • São José do Rio Preto
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Na comunidade de Ipanema, em Prainha (PA), onde o Barco Hospital Papa Francisco está ancorado, quase não há energia elétrica - são apenas três horas de luz, das 19h às 22h, movida a gerador -, mas o que não falta neste local é o brilho da solidariedade. Todos que participam da expedição se desdobram para suprir um pouco da carência dos moradores ribeirinhos, que vivem na margem direita do rio Amazonas.

A miséria encontrada, entre os cerca de 300 moradores da comunidade, não ocorre da falta completa de alimento. A carência naquela região é de outra ordem. A gente quase não encontra quem não tem o que comer, mas todos falam da falta de médico. A assistência mais próxima fica muito distante, a até seis horas de viagem de barco, caso de Santarém, uma das principais cidades paraenses.

Esta é a dificuldade, por exemplo, de Benedito Marques Ibiaspino. Com problemas de visão, ele nunca passou por atendimento com oftalmologista. "É difícil, poque a gente não tem médico fácil por aqui, não. Também precisava passar por ortopedista, por causa de dor na coluna", diz o trabalhador de serviços gerais.

Ibiaspino relata que o cotidiano em Ipanema é de muitos desafios. "Falta de tudo um pouco. Pra energia elétrica, só temos um motor que é da prefeitura e a gente paga uma taxa pra seguir funcionando. São só três horas por noite. Água do rio que a gente puxa é só usada pra banho, lavar roupa; pra beber não serve. E muitos nem têm geladeira, usam sal pra conservar a comida."

Também feliz por receber a visita do barco hospital, a professora Marlivan Corrêa da Silva tem esperança de acabar com as dores de cabeça que a perseguem há três anos. "Tomo remédio direto e não passa. Fui em neurologista tem muito tempo, em Santarém. É complicado, por isso é muito bom o barco vir e por isso estou feliz."

É essa alegria que dona Marlivan estava sentindo que move e dá sentido aos voluntários da expedição. "Quando tomei conhecimento do trabalho do barco hospital, fiquei maravilhado. Tenho 36 anos de formação e me dedico ao voluntariado pela satisfação de trabalhar na raiz do problema, na prevenção, e isso me dá muita alegria", relata o cirurgião-dentista Francisco Carlos Uchôa do Amaral, de Caucaia, no Ceará.

"Aqui nós trabalhamos com as crianças a prevenção da cárie dental e periodontal. Também fazemos palestras com os pequenos e com os pais. Ainda complementamos fazendo aplicação de flúor e escovação supervisionada. Já fizemos mais de 40 atendimentos desse tipo, com distribuição de escova dental. A prevenção é o caminho ideal porque previve problema futuro e custa bem menos. Essa é minha missão", declara.

A repórter Millena Grigoleti viajou ao Pará a convite da Associação e Fraternidade Lar São Francisco de Assis na Providência de Deus.