Diário da Região

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08/02/2020 - 23h14min

EXPEDIÇÃO

Fila de espera para missão na Amazônia tem 460 voluntários

Barco Hospital Papa Francisco está com todas as expedições fechadas neste ano e já tem profissionais voluntários para 2021

Arquivo Pessoal Equipe da expedição de outubro de 2019, da qual participou o médico Guilherme: voluntários percorrem as regiões ribeirinhas da Amazônia
Equipe da expedição de outubro de 2019, da qual participou o médico Guilherme: voluntários percorrem as regiões ribeirinhas da Amazônia

O ano mal começou e todas as expedições do Barco Hospital Papa Francisco pelo rio Amazonas já estão fechadas. Além dos 110 médicos e odontologistas voluntários contabilizados até a nona viagem, que começa no dia 11 e termina em 19 de fevereiro, mais 230 estão com embarque programado para as que acontecem entre março e dezembro e mais 120 para nove expedições do próximo ano. A previsão é que no primeiro semestre toda a programação do próximo ano esteja finalizada.

A primeira expedição oficial aconteceu em setembro de 2019. Desde então, já foram milhares de pacientes atendidos. Flávio Augusto Ataliba Caldas, médico radiologista de 41 anos, viajou na sétima expedição, em janeiro. Ele já atuava como voluntário antes, atendendo populações indígenas na divisa do Mato Grosso do Sul com o Paraguai. "As mãos que oferecem flores são sempre as primeiras a serem perfumadas, então eu acho que a gente precisa pensar no próximo, deixar de olhar só para o nosso microcosmo, o nosso pequeno mundo", considera.

Ele, que atende no Hospital Dia de Rio Preto e já se propôs a ser voluntário novamente, acredita que a mudança que a viagem traz à vida dos voluntários é definitiva. "O frei Joel (que atua no Pará) falou uma coisa muito bacana: nós não estamos promovendo saúde simplesmente para a população ribeirinha. Nós estamos promovendo justiça, porque essa população é muitas vezes esquecida pelo governo. Mais do que atender, fazer diagnóstico e tentar resolver o problema de saúde, a gente a enxerga, escuta suas queixas e acho que isso realmente faz a diferença, é muito bacana."

Com 32 metros de comprimento, 430 toneladas e base oficial instalada em Óbidos (PA), a unidade chega aos locais - anunciada antes pelas duas ambulanchas - com centros cirúrgicos, consultórios e trazendo especialistas que grande parte daquela população nunca viu, como oftalmologistas - na maior parte da região, a assistência médica é básica e precária. O público-alvo da embarcação são mil comunidades ribeirinhas do rio Amazonas. Por ano, são programadas 22 expedições - em fevereiro e dezembro há uma apenas, por causa das férias da tripulação fixa e manutenção do barco.

Segundo Anderson Flávio Peres, coordenador do voluntariado do Barco Hospital Papa Francisco, os profissionais costumam pedir para participar de outra expedição ainda durante a primeira. Se a equipe da Associação e Fraternidade Lar São Francisco de Assis na Providência de Deus achava que eram os profissionais de saúde que doariam seus dons e seu trabalho, o retorno tem sido em outro sentido. "Está sendo uma via de duas mãos. As pessoas estão se envolvendo demais, esposas contam que os maridos voltaram outra pessoa. A gente acredita que aí está o sucesso do Barco Hospital: o trabalho, o afeto que está chegando de lá está mudando o profissional também. O profissional volta e relata a seus próximos, seus amigos a experiência que teve e fomenta. De um profissional aparecem dois, três", diz Anderson.

Guilherme de Oliveira Cucolicchio, médico oncologista de 45 anos, viajou em outubro de 2019 e classifica a experiência como "única e transformadora". Ele destaca a troca de experiências com profissionais com os mesmos valores e de localidades diferentes - o Barco tem voluntários de todo o Brasil. "De encontro a uma população humilde, carente, que te acolhe sempre com carinho e um sorriso. Cria a possibilidade de doarmos o que temos de melhor, nossa vocação, em busca da melhoria da saúde e da qualidade de vida", considera. O médico também destaca o convívio com uma cultura diferente, com músicas, alimentação e hábitos de vida que encantam. "Nos enobrece como seres humanos, dignifica nosso caminho e nos dá forças para transformar o mundo. Um privilégio que marca nossas vidas."

O Barco Hospital começou a ser desenhado em 2013, durante a Jornada Mundial da Juventude, quando o papa visitou o Hospital São Francisco de Assis na Providência de Deus, no Rio de Janeiro. O papa Francisco perguntou a Francisco Belotti, superintendente da Associação, se eles "estavam" na Amazônia. O frei respondeu que não, e o pontífice rebateu: "Então devem ir". Pouco tempo depois, o Lar assumiu as Santas Casas de Óbidos e de Juruti. Logo surgiu a ideia de um barco.

Belotti conta que sua ideia seria de uma embarcação pequena, mas não foi o que aconteceu. "É chamado de barco carinhosamente, mas é um navio. A divina providência, que sempre acorda antes de nós e sempre antes do Sol nascer, fez com que nos encontrássemos com o Ministério do Trabalho. Uma situação de morte e egoísmo em Paulínia se transforma em vida para muitas pessoas", afirma. A verba de R$ 24,5 milhões para o barco, que foi construído em Fortaleza (Ceará), veio de um acordo do Ministério Público do Trabalho da 15ª região com uma empresa que cometeu infrações graves.

Diário embarca em expedição no Pará

Departamento de Artes Diário da Região Logotipo desenvolvido para a campanha
Logotipo desenvolvido para a campanha

Na próxima terça-feira, 11, começa a nona expedição do Barco Hospital Papa Francisco, que vai atender à cidade de Faro e comunidades do município. São 7.194 habitantes, segundo estimativa do IBGE. O Diário da Região vai acompanhar a viagem, que segue até o dia 19 de fevereiro. O convite foi feito pela Associação e Fraternidade Lar São Francisco de Assis na Providência de Deus e a campanha ganhou o nome de Diário da Amazônia.

Os internautas poderão acompanhar o passo a passo da expedição pelo site desenvolvido para a ação, o https://diariodaamazonia.diariodaregiao.com.br/. A repórter Millena Grigoleti também vai relatar os atendimentos à população e as ações desenvolvidas pelos profissionais por meio das redes sociais e do jornal impresso.

Para chegar a Óbidos, base do Barco Hospital, são quatro voos: de Rio Preto para Campinas; de lá para Brasília; outro voo até Belém e depois mais um para Santarém, de onde segue-se para Óbidos e depois para Faro, no Pará. O frei Francisco Belotti, superintendente da Associação e Fraternidade Lar São Francisco de Assis na Providência de Deus, fala sobre a importância de a viagem ter o acompanhamento do Diário. "Muitas vezes o bem fica escondido e o mal explode na mídia e acaba dando uma desesperança às pessoas. É o contrário do que o Diário vai fazer acompanhando essa expedição", afirma.

Famílias inteiras, desde os netos até os avós, vão buscar atendimento. Moradores levam peixes, galinhas caipiras e frutas para alimentar os profissionais do Barco Hospital Papa Francisco, em sinal de agradecimento pelo atendimento recebido, dividindo o pouco que têm. Filas de centenas de pessoas para chegar até os médicos e dentistas. "O Papa Francisco diz que nós só podemos ser escravos do amor, e sendo escravos do amor queremos atender cada vez mais pessoas", diz o frei Francisco.

O navio faz com que não seja mais necessário promover festas e bingos para arrecadar dinheiro para que um morador da comunidade chegue até a cidade grande (depois de pelo menos cinco horas de barco) para fazer um exame de ultrassonografia - o espírito de comunidade pode ser lindo e comprova que todos são uma família, mas mostra o quão difícil é a vida de quem precisa de um simples raio-X às margens do rio Amazonas. Mesmo na Santa Casa de Óbidos, por exemplo, foi um desafio instalar um aparelho do tipo, pois a rede elétrica não comportava. Somente na primeira expedição, em setembro do ano passado, foram 1.008 pacientes atendidos, que fizeram exames e cirurgias.

 

Que se leve sempre o amor

Uma das orações mais bonitas da Igreja Católica, para mim, é a de São Francisco, que começa com "Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz". É com ela em mente que embarco na 9ª Expedição do Barco Hospital Papa Francisco. Desde que comecei a acompanhar o passo a passo da construção da embarcação, como repórter do Diário, sonho com a oportunidade de viajar junto com os profissionais voluntários que vão levar mais saúde a uma população negligenciada.

O projeto da Associação e Fraternidade Lar São Francisco na Providência de Deus é a síntese do que São Francisco queria: levar amor, perdão, união, verdade e, mais do que isso, esperança aonde havia desespero, alegria aonde existia apenas tristeza e luz aonde era só trevas. É claro que não é possível abraçar o mundo - que cabe no rio Amazonas - e atender a todos de uma vez, mas o fato de um morador não precisar enfrentar cinco horas no rio para conseguir um atendimento básico é transformador. Um verdadeiro milagre. Deus agindo através dos homens.

Minhas expectativas não poderiam ser melhores. Sei que a experiência vai ser uma das mais incríveis não só no sentido profissional, mas sobretudo no pessoal. Vou deixar para falar muito mais durante a Expedição, que assunto não vai faltar. Obrigada à Associação pela oportunidade da viagem, aos médicos e odontologistas que verei trabalhando e a cada profissional do Diário que fez nossa ida para lá acontecer. Que Deus nos abençoe.

Millena Grigoleti, repórter

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