Tecnologia para construir imóveis rapidamente está disponível na região de Rio PretoÍcone de fechar Fechar

CONSTRUÇÃO CIVIL

Tecnologia para construir imóveis rapidamente está disponível na região de Rio Preto

Construção de hospital na China em dez dias deixou o mundo impressionado; empresas da região têm o mesmo sistema construtivo, mas existem barreiras que freiam a velocidade de conclusão da obra


    • São José do Rio Preto
    • máx 32 min 18

Num país infelizmente habituado a conviver com obras públicas paralisadas - são 14 mil em todo o Brasil, segundo levantamento do ano passado feito pelo Tribunal de Contas da União (TCU), de ferrovias a escolas - a construção de um hospital na China, em tempo recorde de dez dias, para atender os pacientes infectados pelo novo coronavírus chama atenção. As imagens e os números superlativos impressionam dos mais capacitados construtores aos "meros mortais". Para a construção na área de 25 mil metros quadrados, foram utilizadas estruturas pré-fabricadas, técnica que também pode ser encontrada em indústrias da construção civil da região de Rio Preto.

É o que se pode chamar de construções industrializadas, ou seja, em que os módulos são produzidos em fábricas e não diretamente nos canteiros de obras. A vantagem disso tudo é a maior velocidade na conclusão do empreendimento e o menor risco de acidentes de trabalho, já que os trabalhadores ficam menos tempo em campo.

O curto período que a obra demora para ficar pronta aqui só não é o mesmo da China por algumas razões bastante significativas. Uma delas é recurso financeiro, fundamental para dar andamento ao projeto e que lá se tem em abundância. O segundo ponto e realmente singular à China é a quantidade de pessoas envolvidas no processo. Segundo o governo chinês, para construir o hospital em Wuhan, epicentro do surto de coronavírus, foi necessária uma equipe de 7 mil pedreiros, eletricistas, carpinteiros e encanadores.

Só em Wuhan, vivem 11 milhões de habitantes, quase a mesma quantidade de moradores de São Paulo, a maior e mais desenvolvida cidade brasileira. Em Rio Preto, só para se ter ideia, a estimativa é de uma população de 460,6 mil habitantes, de acordo com os últimos dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

"Temos o mesmo nível de tecnologia de produção chinesa, mas nossa capacidade de produção é limitada", afirma Edison Tateishi, diretor de Operações do Grupo Lafaete, empresa mineira de locação de equipamentos e construções modulares, cuja fábrica fica em Mirassol.

Na indústria, que emprega 130 pessoas - o grupo todo reúne 750 em suas dez filiais - a capacidade de produção é de 400 módulos por mês, número que foi atingindo entre 2011 e 2014, período áureo da construção civil. "A diferença para a China é a quantidade de pessoas, o tamanho. Um bairro de Xangai, por exemplo, é todo voltado a fábrica de construções modulares", explica Tateishi.

Segundo ele, as construções modulares se diferem das convencionais, em que são comuns materiais como concreto e tijolo. Os módulos pré-fabricados da empresa, que lembram um contêiner marítimo - mas não o são - são feitos de metal em forma de caixote empilhável, com isolação térmica e acústica. A vantagem é a velocidade de finalização da obra, já que os valores são praticamente os mesmos. "Eles servem para construções fixas e também para eventos temporários", afirma o diretor.

O Grupo Lafaete, cuja indústria é a CMC Módulos Construtivos, foi o responsável, por exemplo, pela construção de 24 cozinhas durante as Olimpíadas do Rio de Janeiro, em 2016. A capacidade delas era para 3 mil refeições por turno. "Elas foram feitas durante 45 dias. Saíram cerca de 1,5 mil módulos de Mirassol para o Rio de Janeiro", conta.

O principal uso ainda é para empreendimentos comerciais. A empresa também monta estruturas em Votuporanga, durante o Carnaval, para alojamento e infraestrutura para eventos paralelos. Neste ano devem ser transportados 300 módulos para uso na festa. "A tecnologia vem sendo usada em residências e a novidade é construção em moradias verticais. São Paulo terá o primeiro edifício de 12 andares do mundo; hoje, o máximo são cinco andares", pontua.

Representante comercial da Eurobras em Rio Preto, Roberto Cardoso de Andrade, da RCA, conta que a empresa, cuja sede fica em Santo André, vende e aluga uma linha de módulos metálicos em chapa de aço galvanizada. "Os produtos podem ser usados para construir alojamentos, escritórios, hotéis", afirma ele. A empresa é responsável por obras temporárias em eventos como corrida de Fórmula 1 e a Copa do Mundo no Brasil, grandes feiras agropecuárias, entre outros.

Segundo Andrade, o trabalho de expansão das atividades na região de Rio Preto está em andamento. No Estado, foi construído um mini shopping em Presidente Prudente, com 18 salas comerciais, feito em 45 dias. "Nossa tecnologia é a mesma da China, mas no Brasil é diferente. O que atrasa muito as obras são as questões burocráticas, de aprovação dos projetos", considera.

Mesmo conceito

Ricardo Panhan, CEO da Protendit - empresa de concreto armado e protendido com unidades fabris em Rio Preto, São Paulo e Potirendaba - concorda que indústrias brasileiras também teriam condições de construir empreendimentos em tempo recorde como na China, mas destaca os mesmos aspectos, como quantidade de pessoas, investimentos e matéria-prima como impeditivos. "O conceito é exatamente o mesmo, com similaridade já que o produto é produzido em fábrica e montado na obra. A diferença é a quantidade de recursos. Lá, havia 50 guindastes em operação, algo extremamente caro", pontua sobre o alto investimento feito pelo governo chinês.

Ele reforça que a aplicação desse tipo de construção é principalmente para obras de cunho industrial e comercial, e que a alta velocidade de construção está intimamente relacionada à disposição dos recursos. "É possível construir em altíssima velocidade. Não temos grandes cases porque o fluxo de caixa é restrito."

Panhan destaca que o tempo de construção de uma obra com estruturas pré-moldadas de concreto protendido é, em média, 30% mais veloz do que no sistema tradicional. Ele conta que já viveu a experiência de acompanhar a construção de um hotel de oito pavimentos em 84 dias. "A questão do cálculo - que aponta ser até mais caro que o convencional - é um engano. Por ser mais aplicável a empresas, a antecipação do início da produção faz com que a rentabilização comece antes", compara.

Outra vantagem é o aspecto da sustentabilidade. Segundo o executivo, as perdas são baixíssimas e a geração de resíduos da construção é entre 20% e 30% menor. "Há um ganho do ponto de vista da sustentabilidade porque não gera passivo ambiental. O ambiente de fábrica é totalmente monitorado e ainda há redução de riscos de acidentes de trabalho."

Atualmente, a China é um dos líderes mundiais em smart factories (fábricas inteligentes), em que tecnologias como robótica, 5G e Internet das Coisas, entre outras, são utilizadas para aumentar eficiência da produção. Neste sentido, a indústria 4.0 torna-se complementar ao setor de construção e agiliza o processo em obras emergenciais, como é o caso do hospital Huoshenshan, em Wuhan.

A tecnologia para o setor de construção civil está transformando o setor não apenas na China, como em todos os polos de inovação do mundo. No entanto, muitas empresas deste mercado no Brasil ainda não utilizam tecnologias disruptivas em seus negócios.

Dentro da cadeia produtiva da construção civil, a chamada "Indústria 4.0" desponta como caminho natural para aumentar competitividade, produtividade, redução de custos. Sempre por meio das tecnologias digitais.

Esse movimento começa com tecnologias que já são realidade em alguns países. É o caso, por exemplo, de drones para monitoramento das obras, caminhões autônomos em áreas de mineração e robôs de demolição.

A também chamada "4ª Revolução Industrial" ainda confere maior protagonismo ao BIM (Building Information Modeling, ou Modelagem da Informação da Construção), à manufatura aditiva (impressoras 3D), à realidade aumentada e à análise de Big Data.

Para o Brasil entrar, de fato, na era da "construção 4.0", especialistas dizem que é necessário primeiro superar alguns desafios. Entre eles, melhorar o ambiente macroeconômico de modo a atrair investimentos; capacitação de mão de obra; desenvolvimento do mercado financeiro para viabilizar negócios;

formação de engenheiros compatível à "Indústria 4.0", que exige profissionais com alta capacidade de conhecimento sobre um determinado assunto e alta capacidade de congregar conhecimentos com parceiros de outros setores da produção para materializar a sinergia potencializada pelo universo digital.

(Marival Correa)

Divulgação

Não é de hoje que a velocidade da engenharia chinesa impressiona. Em 2003, durante a epidemia de Síndrome Aguda Respiratória Grave (SARS), o governo do país asiático surpreendeu a comunidade mundial ao construir um hospital em Pequim em apenas sete dias.

Um dos dois hospitais provisórios construídos agora foi entregue na última segunda-feira, 3, e já começou a receber pacientes. Ao todo, o Hospital Huoshenshan (Deus da montanha de fogo), instalado em Wuhan, tem 1,6 mil leitos. O outro hospital é o Leishenshan (Deus da montanha do trovão), também tem 1,6 mil leitos e está quase pronto.

O complexo Huoshenshan, entregue em dez dias, tem 30 Unidades de Tratamento Intensivo (UTIs), enfermarias, consultórios e almoxarifados, entre outras estruturas. De acordo com a TV estatal chinesa, existe também uma ala específica de quarentena destinada aos infectados pelo vírus, para evitar o aumento de novas infecções. A equipe médica será composta por 1,4 mil agentes de saúde.

Para o hospital ficar pronto a tempo, a construtora China State Construction Engineering Corp. empregou uma técnica de construção pré-fabricada, com base na planta de uma obra realizada no início do século. A estratégia foi utilizar uma planta do Xiaotangshan, um hospital construído em 2003 para tratar de pacientes do SARS, outro vírus epidêmico que causou centenas de mortes no país. Assim, toda a etapa de projeto foi dispensada.

O terreno onde a obra foi erguida, em Wuhan, primeiro foi nivelado para depois receber camadas de concreto e colunas, de modo que ficassem acima do chão. Feitas de placas planas que se encaixam umas nas outras, as unidades pré-fabricadas têm aproximadamente 30 metros quadrados, com quartos despressurizados e capacidade para até dois leitos cada.

Para erguer o Hospital Huoshenshan em apenas dez dias, os operários trabalharam em turnos nas 24 horas do dia. Estima-se que cada um deles recebeu US$ 173 por dia, valor que é três vezes acima do que os trabalhadores da categoria costumam receber no país.

O projeto é dividido em módulos, que são produzidos em uma fábrica para depois serem transportados ao local da obra. Com a planta do hospital já pronta, bastou levar o projeto para o sistema que integra todos os equipamentos da fábrica e iniciar a produção de alta velocidade. O resultado foi o hospital erguido em tão pouco tempo no país que abriga o epicentro do novo coronavírus.

Até o fechamento desta edição, a doença já havia causado 723 mortes e infectado 34.598.

(Com Agência Estado)