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12/02/2020 - 00h30min

'MÁFIA'

Figura do gangster inspira espetáculo de Rio Preto

Cia. Para Pessoas Solitárias faz a estreia do espetáculo "Máfia", nesta quinta, 13, em que apresenta uma releitura da figura do gangster hollywoodiano transportado para o atual cenário brasileiro

Divulgação Alexandre Machini Jr., Ronaldo Celeguini e Luís Fernando Lopes formam o elenco de 'Máfia'
Alexandre Machini Jr., Ronaldo Celeguini e Luís Fernando Lopes formam o elenco de 'Máfia'

O personagem fictício Don Corleone, um dos principais representantes da máfia siciliana dos Estados Unidos, é alvo de grande fascínio. A criação de Mario Puzo, presente na obra "O Poderoso Chefão", de 1969, foi eternizada nos cinemas pelos atores Marlon Brando (mais velho) e Robert De Niro (mais jovem), nos filmes da trilogia dirigida por Ford Coppola, que está disponível nos canais da SKY TV.

Apesar da imagem do mafioso estar claramente associada à criminalidade e à violência, o personagem de Puzo conquistou uma boa legião de admiradores devido à maneira com a qual conduzia sua família, se relacionava com estrangeiros e administrava seus negócios, entre as décadas de 40 e 50. Mas, como seria a figura de um 'Poderoso Chefão' brasileiro nos dias atuais, em um cenário repleto de Fake News e em que os valores sociais foram alterados?

Essa é a reflexão proposta pela Cia. Para Pessoas Solitárias com o espetáculo "Máfia", que estreia nesta quinta-feira, dia 13 de fevereiro, na sede da Cia Cênica, em Rio Preto. A peça foi criada a partir do atrito entre a realidade nacional e a indústria hollywoodiana, com a intenção de atualizar o conceito clássico de Máfia.

Segundo o dramaturgista e ator Alexandre Manchini Jr., que divide a cena com Ronaldo Celeguini e Fernando Lopes, o público assiste à construção de um novo Poderoso Chefão, mas que não segue os moldes clássicos de Don Corleone. Ele ressalta que o mecanismo que gera essas 'máfias' é o mesmo de gerações anteriores e possui raízes na corrupção do poder político e na exploração dos mercados criminalizados, bem como pela fachada do empresário, do homem de bem, pai de família e cristão.

"Porém, nos últimos anos uma mudança desse cenário ficou, e fica cada vez mais, evidente", sinaliza Manchini. "Pode-se dizer que é uma transformação estética. Se antes era a estética do terno italiano, hoje temos a estética da farda. Se antes a fachada era o empreendedor, hoje o engodo se dá com a figura do político, não mais por baixo dos panos, mas como a estampa do 'Poderoso Chefão'. Claro que estas esferas sempre estiveram presentes na corrupção que suplementou a máfia clássica, mas agora eles saltaram à frente", explica.

Com elementos satíricos, a montagem faz um comparativo entre a Cosa Nostra e a milícia brasileira, frequentemente presente no noticiário nacional e que possui ramificação nas mais diferentes esferas do poder político. E, segundo o dramaturgista, a estrutura dramatúrgica da peça possui fissuras propositais que podem ser preenchidas com atualizações do tema, a partir de novas denúncias.

Essa não é a primeira vez que o grupo teatral explora o universo hollywoodiano. Em sua montagem de estreia na cena teatral, em 2016, a Cia. rio-pretense apresentou o espetáculo "War", peça fruto de uma pesquisa sobre o processo de glamorizarão da violência desencadeado pelos filmes de guerra de Hollywood.

A peça evidencia a guerra enquanto mercadoria de entretenimento, a violência enquanto fetiche e o teatro enquanto ferramenta para refletir sobre esses e outros aspectos ligados aos conflitos armados que marcaram com sangue e mortes inúmeros capítulos da história da humanidade.

"A Companhia busca estabelecer premissas de criação e diálogos populares. Desta forma, o público pode perceber, entre "Máfia" e "War", várias semelhanças, como a presença da TV como elemento de dramaturgia; a referência ao cinema norte-americano, que é massivamente consumido no Brasil; e referências diretas à atualidade política e social", pontua o dramaturgo.

Ele destaca que o uso desses elementos é capaz de estabelecer uma comunicação mais afetiva com os mais variados públicos. No caso de "Máfia", há ainda a mistura do espaço cênico com o espaço da plateia. O ambiente da peça é um bar. Os espectadores sentam-se ao redor de várias mesas espalhadas como em um estabelecimento comum. "Acreditamos que trazer à tona temas como os propostos, misturando o cotidiano televisivo e cinematográfico da população com o ritual presencial do teatro é essencial para sensibilizar, humanizar e conscientizar as plateias", diz Manchini.

O artista lamenta o atual declínio de público nos teatros e acredita que esse fenômeno se deve a vários fatores, como um movimento criado para deslegitimar a necessidade da arte para uma sociedade saudável. Por isso a Cia. aposta nesse tipo de linguagem para conseguir alcançar o público contemporâneo.

"Máfia" foi contemplada pelo edital de apoio à cultura Prêmio Nelson Seixas 2019. A montagem tem a direção de Fábio Valério, diretor do Protótipo Tópico, de Bauru. Além do trio de atores, conta com as participações especiais de Bruno Cavalcanti e Juliana Ramos.

Provocadora, a peça explora com boas doses de ironia a comicidade dos ambientes 'pateticamente masculinos'. Em cena, três personagens típicas dos filmes hollywoodianos de gangsters narram uma história na qual é difícil distinguir realidade de ficção.

"Dentre as muitas possibilidades de abordagem sobre o tema, partimos de um pressuposto do poder que há em inventar uma história. E como inventar uma história, no caso da peça, em nada a ver com fatos e provas, mas sim com 'convicção' e polêmica. Existe um mercado da notícia que tem propagado muito as histórias pela polêmica. Neste mercado o lucro dessas 'fake news' vai desde manchar a imagem da concorrência até eleger um presidente", finaliza.

Além da apresentação desta quinta-feira, dia 13, a peça ganhará mais duas sessões, nos dias 14 e 15 de fevereiro, no Centro Cultural Vasco, também às 20h.

Serviço

  • Espetáculo "Máfia", da Cia. Para Pessoas Solitárias. Estreia: dia 13 de fevereiro, às 20h, na sede da Cia. Cênica. Grátis. Classificação indicativa 16 anos. Duração 70 minutos. 50 lugares

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