SÃO JOSÉ DO RIO PRETO | TERÇA-FEIRA, 17 DE MAIO DE 2022
CORONAVÍRUS

Rio Preto monitora saúde de paciente vindo da Itália com resfriado suspeito

Por conta de ter vindo de um país onde há cadeia de transmissão de coronavírus, a Saúde considera que há epidemiologia para a doença

Cesar Belisario
Publicado em 27/02/2020 às 00:30Atualizado em 07/06/2021 às 06:39
 Aldenis Borim, secretário de Saúde de Rio Preto (Johnny Torres/Arquivo)

Aldenis Borim, secretário de Saúde de Rio Preto (Johnny Torres/Arquivo)

A Secretaria de Saúde de Rio Preto está monitorando um paciente - homem na casa dos 30 anos - que chegou ao Brasil vindo do norte da Itália no último dia 23. Ele passou por atendimento no Hospital de Base na madrugada desta quarta-feira, dia 26, com sintomas de resfriado. Por conta de ter vindo de um país onde há cadeia de transmissão de coronavírus, a Saúde considera que há epidemiologia para a doença.

A princípio, não se fala a palavra "suspeito" porque o paciente estaria sem febre, que é um dos critérios definidos pelo Ministério da Saúde para enquadrar uma ocorrência como suspeita de coronavírus. De acordo com Jorge Fares, diretor-executivo do HB, inicialmente a orientação do Grupo de Vigilância Epidemiológica da Secretaria de Estado da Saúde foi de não realizar exames no paciente. Ele foi liberado para ficar em casa, em isolamento. "Ele veio da Itália com o resfriado, por isso que ele procurou o hospital, porque ficou com medo", fala Amália Tieco, diretora do HB.

Fares e Aldenis Borim, secretário municipal de Saúde, porém, decidiram fazer exames no paciente. Primeiramente uma equipe da Vigilância Epidemiológica iria até a casa dele e, com sua autorização, colheria amostras de sangue que serão testadas para vírus respiratórios. Caso esses resultados sejam negativos, será colhido material respiratório para testar o coronavírus. A previsão é que a coleta do sangue acontecesse entre o final da tarde de quarta e esta quinta-feira.

"Pode ser só um resfriado mesmo. O fato de não ter febre diminui a possibilidade, mas não exclui coronavírus", pontua Fares. "Ele tinha uma epidemiologia que fica em dúvida, veio da Itália, é um negócio que tem que ser considerado."

Nesta quarta, houve um desencontro de informações por parte do poder público. A primeira nota emitida pela Prefeitura dizia que a Saúde não havia sido comunicada por nenhum órgão estadual ou municipal de saúde sobre caso suspeito ou confirmado de coronavírus na cidade e que qualquer informação contrária ao que fosse divulgado pela pasta seria "boato e fake news".

Ao tomar conhecimento deste texto, depois de já ter informado ao Diário que a Saúde monitoraria o paciente, o secretário Borim afirmou que não sabia da nota, ou seja, seu teor não havia passado por sua aprovação. Ele então pediu que a assessoria de imprensa enviasse novo comunicado, que confirmou o monitoramento.

Maurício Lacerda Nogueira, do Laboratório de Virologia da Famerp, explica que, por enquanto, os critérios para definição de casos suspeitos incluem febre, o que o paciente não apresentou. "Podem ser criticados os critérios, mas é o que tem para hoje, é a forma como o sistema de vigilância funciona", diz.

Nesta quarta, o governo do Estado divulgou a criação de um Centro de Contingência do Coronavírus, do qual o HB faz parte. O primeiro caso de COVID-19 confirmado no Brasil é de um morador da Capital que esteve em fevereiro na Itália. Retornou ao Brasil em 21 de fevereiro e apresentou sintomas suspeitos, como tosse, coriza e febre. Procurou o Hospital Israelita Albert Einstein, que deu a confirmação oficial para a doença na terça-feira, 25. O exame foi enviado para contraprova no Instituto Adolfo Lutz, laboratório de referência nacional, que confirmou a doença. O homem está em isolamento domiciliar, estável.

Segundo Lacerda, a confirmação do primeiro caso da doença em São Paulo muda a dinâmica do que é feito pelos governos. "Não dá para saber o que vai acontecer em Rio Preto nem no Brasil. Ter um caso confirmado em São Paulo mostra que tem risco do vírus chegar e nós temos que nos preparar, ter os planos de contingência para isso."

Coronavírus

O coronavírus Coronavírus é uma família de vírus que causam infecções respiratórias. O novo agente do coronavírus (SARS-CoV-2) foi descoberto em 31/12/19 após casos registrados na China. Provoca a doença chamada de novo coronavírus (COVID-19) Os primeiros coronavírus humanos foram isolados pela primeira vez em 1937. No entanto, foi em 1965 que o vírus foi descrito como coronavírus, em decorrência do perfil na microscopia, parecendo uma coroa

O que é o novo coronavírus?

O novo agente do coronavírus, chamado de novo coronavírus (SARS-CoV-2), foi descoberto no fim de dezembro de 2019 após ter casos registrados na China. Alguns coronavírus podem causar doenças graves com impacto importante em termos de saúde pública, como a Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS), identificada em 2002, e a Síndrome Respiratória do Oriente Médio (MERS), identificada em 2012

Transmissão As investigações sobre as formas de transmissão do novo coronavírus ainda estão em andamento, mas a disseminação de pessoa para pessoa, ou seja, a contaminação por gotículas respiratórias ou contato, está ocorrendo. Qualquer pessoa que tenha contato próximo (cerca de 1m) com alguém com sintomas respiratórios está em risco de ser exposta à infecção É importante observar que a disseminação de pessoa para pessoa pode ocorrer de forma continuada Alguns vírus são altamente contagiosos (como sarampo), enquanto outros são menos. Ainda não está claro com que facilidade o novo coronavírus se espalha de pessoa para pessoa

Apesar disso, a transmissão dos coronavírus costuma ocorrer pelo ar ou por contato pessoal com secreções contaminadas, como: gotículas de saliva espirro tosse catarro contato pessoal próximo, como toque ou aperto de mão contato com objetos ou superfícies contaminadas, seguido de contato com a boca, nariz ou olhos

Diagnóstico O diagnóstico do novo coronavírus é feito com a coleta de materiais respiratórios (aspiração de vias aéreas ou indução de escarro). É necessária a coleta de duas amostras na suspeita do coronavírus

Tratamento Não existe tratamento específico para infecções causadas por coronavírus humano. No caso do novo coronavírus é indicado repouso e consumo de bastante água, além de algumas medidas adotadas para aliviar os sintomas, conforme cada caso, como, por exemplo: Uso de medicamento para dor e febre (antitérmicos e analgésicos) Uso de umidificador no quarto ou tomar banho quente para auxiliar no alívio da dor de garanta e tosse Assim que os primeiros sintomas surgirem, é fundamental procurar ajuda médica imediata para confirmar diagnóstico e iniciar o tratamento

Sintomas

Os sinais e sintomas do coronavírus são principalmente respiratórios, semelhantes a um resfriado. Podem, também, causar infecção do trato respiratório inferior, como as pneumonias. No entanto, o novo coronavírus (SARS-CoV-2) ainda precisa de mais estudos e investigações para caracterizar melhor os sinais e sintomas da doença

Os principais são sintomas conhecidos até o momento são: Febre Tosse Dificuldade para respirar

Prevenção: Lave as mãos frequentemente com água e sabão por pelo menos 20 segundos. Se não houver água e sabão, use um desinfetante para as mãos à base de álcool Evite tocar nos olhos, nariz e boca com as mãos não lavadas Evite contato próximo com pessoas doentes Fique em casa quando estiver doente Cubra boca e nariz ao tossir ou espirrar com um lenço de papel e jogue-o no lixo Limpe e desinfete objetos e superfícies tocados com frequência

Questão de tempo para epidemia chegar

Na terça, 25, tivemos a confirmação do primeiro caso do novo coronavírus no País (o chamado Sars-CoV-2) pelas autoridades sanitárias. O que isso muda para o Brasil?

Na verdade, a situação tem mudado rapidamente e de forma dinâmica, e este é apenas mais um detalhe de uma situação cada vez mais preocupante. Outras notícias também nos causam preocupação. O número de casos na Itália, na Coreia do Sul e no Irã parecem sugerir que temos uma transmissão sustentada, e não apenas casos esporádicos fora de Wuhan.

Até alguns dias atrás, a maioria dos casos fora da China eram de pessoas que viajaram para a região ou que tiveram contatos próximos com elas. Agora temos uma outra situação epidemiológica na qual mais países estão mantendo uma transmissão local. O fato de a Itália ter transmissão comprovada pode ser o primeiro sinal de uma pandemia, já que no caso do vírus Influenza o critério da OMS de pandemia é "transmissão sustentada de um novo vírus em duas regiões diferentes".

Outra notícia preocupante foi a constatação do Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos de que a epidemia do novo coronavírus CoV-2 lá será apenas uma questão de quando vai acontecer e com qual gravidade.

E aqui? Com o primeiro caso e neste contexto mundial, sou tentado a seguir as palavras do CDC e também acreditar que agora é questão de tempo para a epidemia chegar e sabermos com qual gravidade.

Qual o caminho agora? A preparação intensiva para o surto. Algumas boas medidas, porém, já têm sido tomadas há alguns anos. Na verdade, desde a epidemia do H1N1 em 2009, os hospitais brasileiros criaram mecanismos muito positivos para controle de doenças respiratórias. Máscaras são distribuídas logo na emergência, protocolos de isolamento são seguidos e métodos de diagnóstico de vírus respiratórios foram incluídos nas rotinas.

Novos hábitos contra gripe, popularizados em 2009, como lavar as mãos regularmente (de preferência com água e sabão, mas álcool também ajuda), cobrir tosse e espirro com as mãos, evitar lugares cheios durante a epidemia e procurar imediatamente o sistema de saúde quando surgirem sintomas sugestivos, são extremamente válidos e efetivos para o CoV-2.

Outro agente importante nesta mudança é o Estado brasileiro. Em todas as suas esferas (municipal, estadual e federal), os planos de contingência devem estar preparados. A confirmação do caso deve elevar a prontidão de todos esses programas. A vigilância epidemiológica deve estar bastante sensível para detectar precocemente os casos, e medidas de contenção (nem sempre simpáticas) devem ser tomadas rapidamente. O Estado deve estar pronto e preparado para usar o código sanitário para o bem da população e evitar o populismo individualista, caso sejam necessárias medidas como as tomadas na Itália (cancelar missas, jogo de futebol e mesmo aulas em escolas).

Dois pontos importantes:

1) O governo (e em especial o do Estado de São Paulo) precisa investir fortemente na sua rede de laboratório. É sintomático que duas doenças emergentes tenham sido detectadas na rede privada (O sabiá e o CoV-2). A rede pública de São Paulo (que inclui Pasteur, Instituto Biológico e Adolfo Lutz) tem uma grande experiência e pessoal altamente qualificado para agir nestas situações, mas foram sucateados nos últimos governos. São Paulo e o Brasil precisam destes órgãos funcionando na sua plenitude.

2) Para controlar a epidemia de CoV-2 vamos precisar também controlar a epidemia de fake news no assunto. Não existem tratamentos milagrosos, não existem vacinas homeopáticas, não existem conspirações por trás disso tudo. Existe a emergência de um novo vírus, fenômeno esperado e explicado pela biologia, e cabe à ciência procurar e entregar as saídas.

Maurício Nogueira, Virologista, professor da Famerp e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Virologia

Protocolo próprio no HB

O Hospital de Base divulgou no fim da tarde desta quarta-feira, 26, que vai instituir um protocolo próprio para realização de testes de coronavírus. Mesmo que os sintomas não sigam todos os critérios do Ministério da Saúde, poderão ser realizados testes - nesse caso, os exames do Adolfo Lutz serão custeados pela instituição rio-pretense e o custo estimado para cada um é de R$ 200.

"Os vírus mudam muito, a pessoa pode ter febre, pode não ter", diz Amália Tieco, diretora-administrativa da Funfarme. O HB analisará todos os casos com base nos sintomas e local para onde a pessoa viajou e fazer os exames quando a equipe julgar necessário. "Vamos fazer nosso protocolo. Vai ser bom porque o HB vai além, fazer um protocolo preventivo, que é importante porque se tiver uma epidemia em Rio Preto a gente vai estar preparado, e não só ver o que vai acontecer com os pacientes", afirma.

Antes de testar coronavírus, cujos exames são feitos por aspiração de vias aéreas ou indução de escarro, serão descartados outros vírus respiratórios. As análises de Influenza A e B, H1N1 e outros são feitos no próprio HB. (MG)

 
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