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CORONAVÍRUS

Lutador de Guapiaçu decide permanecer na China e 'enfrentar' o vírus

Estudante e lutador da arte marcial, Miguel Manacero, 19 anos, de Guapiaçu, decidiu permanecer na China e "enfrentar" o vírus para realizar o sonho de cursar faculdade no país e aprender o mandarim


    • São José do Rio Preto
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Enquanto os 34 brasileiros se preparavam para deixar Wuhan, cidade chinesa considerada o epicentro do novo coronavírus, o estudante Miguel Manacero, 19 anos, natural de Guapiaçu, prestava auxílio à embaixada brasileira para ajudar no repatriamento do grupo. Ele seria o 35º da lista, mas decidiu permanecer na China.

"O que me motivou a ficar aqui foi a vontade de seguir com meus planos pro futuro que já estavam definidos, mas não são realidade ainda", disse Miguel ao Diário da Região. Apaixonado pela China e sua cultura milenar desde a infância, o jovem acredita que voltar ao Brasil nesse momento seria desistir de um sonho - mesmo em meio à epidemia do vírus, que até o fechamento desta edição tinha matado 1.114 pessoas e contaminado outras 44.730. No Brasil, não há casos da doença confirmados.

Os planos a que Miguel se refere são conseguir bolsa de estudos na Universidade de Hubei, em relações internacionais ou educação física, e conseguir atingir o nível cinco de fluência em mandarim. Não sabia se a família o deixaria voltar para a China, caso viesse ao Brasil com o grupo que agora está em quarentena em Goiás.

Para isso, diante das limitações em sair de casa, tem se dedicado aos estudos. Dedica-se também à Dança do Leão - tradicional manifestação chinesa - e ensaia os passos para uma apresentação. "O pessoal continua tentando ficar o máximo de tempo dentro das casas para evitar contaminação. Mas imagino que daqui uma ou duas semanas vão diminuir bastante os números", diz. Miguel mora no dormitório estudantil da faculdade, onde faz curso do idioma local. "Temos um supermercado dentro da universidade, então eu estou fazendo compras nele. Temor não sinto tanto, eu tenho cautela quanto ao que vou fazer. Entrar em pânico não ajuda nessa situação."

Voltaria ao Brasil no início deste ano, mas, antes da epidemia, conversou com os pais e decidiu ficar por mais seis meses para passar na faculdade. Após o coronavírus, nova conversa com os pais e a decisão de ficar na Ásia. "No começo fiquei bastante preocupada, a intenção era que ele voltasse. Mas conversando com ele, vendo a assistência da faculdade e a estrutura do país, fiquei mais tranquila. Ele chegou a ficar em dúvida, mas a vontade dele de ficar foi maior", diz a mãe de Miguel, Maria Cecília de Oliveira, que mora em Guapiaçu. "A faculdade dá suporte, até com compras. Entregaram aos estudantes kits com produtos de limpeza e alimentos."

Quando estudantes em Wuhan gravaram vídeo e pediram que o governo buscasse os brasileiros, Miguel participou da mobilização. Quando veio a notícia do transporte por aviões da Força Aérea Brasileira (FAB), Miguel ficou balançado, mas decidiu ficar na China. "Ele ajudou os brasileiros que queriam voltar. Foi contratado pra ajudar no repatriamento, pra fazer esse meio campo entre os brasileiros que não falavam o mandarim. Me disse: 'me sinto feliz de participar e ajudar os brasileiros'", diz a mãe.

Miguel dividia o quarto com outros dois estudantes estrangeiros. Ambos saíram diante da epidemia e ainda não retornaram. "Não se pode sair da cidade, mas dentro dá para andar. Cortaram transporte público e transporte em geral, para o pessoal não se locomover tanto e para evitar de espalhar de um lugar para o outro", disse o estudante.

Para tranquilizar os familiares, ele sempre manda mensagens e faz chamadas por vídeo. Ver o filho, nem que seja pela tela do celular ou computador, é exigência da mãe. "Preciso ver o rosto, a fisionomia, pra ver se está tudo bem ou se está abatido", diz Maria Cecília. "Meu filho é muito maduro, competitivo, inteligente e estudioso. Disse: 'se é isso que você quer, a gente te apoia'".

A mãe compreende a paixão do filho pela China. Vem desde os 9 anos do jovem, quando conheceu o kung-fu, esporte que pratica e no qual é campeão - além da passagem atual no país asiático, já havia ido outras vezes para participar de competições da arte marcial e trouxe ao Brasil medalhas de bronze e de ouro na bagagem.

Maria Cecília só fica chateada ao ver e ouvir comentários sobre a doença e sobre a China baseados em fake news. Fez um desabafo nas redes sociais. "Muita gente falando sobre coisas que não sabem", diz. Algumas pessoas questionam por que ela não faz o filho voltar. "Criei meus filhos para o mundo, não para ficar debaixo da minha saia", diz a professora, que também é mãe do Gustavo, 23 anos, estudante de engenharia agronômica.

 

A Organização Mundial da Saúde (OMS) afirmou que, embora o número de casos de coronavírus na China tenha caído nos últimos dias, ainda não há informações suficientes para prever quando o avanço da doença será completamente contido. "O surto ainda pode ir para qualquer direção", declarou o diretor-geral da entidade, Tedros Adhanom Ghebreyesus, em entrevista coletiva concedida na tarde desta quarta-feira, 12, em Genebra, na Suíça.

Segundo a OMS, foram identificados 44.730 casos da doença no país asiático, com 1.114 mortes. No resto do mundo, 441 pacientes foram diagnosticados com o vírus em 24 países, e uma pessoa morreu.

O órgão internacional destaca que a exportação da enfermidade de Wuhan para outros países diminuiu, por conta da quarentena e que apenas 22% dos infectados não estiveram em território chinês. Para a organização, esse quadro mostra que o ritmo de contágio não parece ser agressivo fora da China, mas é preciso agir com urgência para evitar consequências globais.

A cientista-chefe da organização, Soumya Swaminathan, revelou que, atualmente, há quatro vacinas contra o coronavírus em processo de desenvolvimento, sendo que uma ou duas devem ser testadas em humanos em "cerca de três ou quatro meses". No entanto, ela explica que a imunização só deve ficar pronta em 18 meses.

(Agências Estado)

As 58 pessoas que voltaram ao Brasil da China na Operação Regresso, no último domingo, 9, das quais 34 são brasileiras que moravam em Wuhan e 24 membros da equipe que embarcou para a operação, voltarão a ser testadas no próximo domingo, 16.

Todos passaram por exames de saúde ao chegar no país, e os resultados, divulgados nesta terça, deram negativo. De acordo com o secretário de Vigilância em Saúde, Wanderson de Oliveira, o protocolo prevê testes a cada sete dias, até completar 14 dias. Portanto, todos farão um terceiro e último teste para Covid-19 no domingo, 23.

Sobre o período de quarentena do grupo, que está na base aérea de Anápolis, em Goiás, a expectativa se mantém em 18 dias.

O Ministério da Saúde atualizou nesta quarta, 12, as informações sobre os casos suspeitos de infecção pelo novo coronavírus, o Covid-19, no Brasil. De acordo com os dados do Centro de Operação de Emergência em Saúde Pública, o número de casos suspeitos passou de oito para 11, com três novos casos no estado de São Paulo. Assim, no momento, os casos suspeitos estão distribuídos entre: São Paulo (6), Rio de Janeiro (2), Rio Grande do Sul (1), Minas Gerais (1) e Paraná (1). Até agora, o ministério já descartou 33 casos.

Segundo o secretário, das 11 notificações em avaliação no País, seis são homens, cinco são mulheres. A média de idade é 24,6 anos e todas as pessoas estiveram na China, porém nenhuma passou pela cidade de Wuhan.

(Agência Brasil)