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A CARA DO ENSINO SUPERIOR

Em oito anos, ensino a distância cresce 183% em Rio Preto

Entre 2010 e 2018, número de alunos matriculados no ensino a distância cresceu 11 vezes mais que o presencial em Rio Preto; polos da modalidade triplicaram na cidade


    • São José do Rio Preto
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Rio Preto

O sonho de cursar uma faculdade sempre esteve presente na vida de Alda Souza da Fonseca, 44 anos. O gosto por cuidar de crianças até fez com que a ex-doméstica começasse a trabalhar como babá em Rio Preto. Mas queria mesmo ser professora. E, 30 anos depois de ter abandonado os estudos, foi na educação a distância que reascendeu a expectativa de realizar o desejo. Agora cursa Pedagogia.

Na segunda reportagem da série "A cara do ensino superior", levantamento mostra que, enquanto o número de matriculados nos cursos presenciais de Rio Preto oscila, o ensino a distância (EaD) não para de crescer. São 183% de crescimento entre 2010 e 2018. Proporcionalmente, o EaD cresceu 11 vezes mais do que o presencial. Estudar sem sair de casa, em horários flexíveis, e evitar pegar trânsito diário para chegar à universidade são alguns dos motivos elencados pelos estudantes ao optar por cursos a distância. Os dados são do Censo da Educação Superior 2018, obtidos pelo Diário via Lei de Acesso à Informação.

Alda Souza é um exemplo do perfil universitário do EaD. Pessoas que nunca cursaram uma faculdade e que encontraram na modalidade a distância uma oportunidade. "Com 13 anos tive que sair da escola para trabalhar de doméstica. Na época, a vida era bem difícil. Depois passaram os anos, me casei nova, fiquei algum tempo sem condição e fui morar em São Paulo. Só consegui estudar agora."

Conciliando o trabalho de babá com o oitavo período no curso de Pedagogia do polo universitário da Universidade Metodista de Rio Preto, ela também ajuda a caçula nos estudos (tem dois filhos). "Eu morava em Lins, mudei para Rio Preto faz dois anos e meio, porque minha filha conseguiu uma bolsa pelo Prouni para o curso de Medicina Veterinária. Aí vim ajudar, porque não tinha condição de pagar um apartamento sozinha. No começo foi bem difícil, mas hoje estamos bem", contou a mãe, que não mediu esforços para os dois filhos iniciarem uma faculdade antes dela.

Lígia Mara Escobar, 52 anos, também optou pelo EaD. O curso de Pedagogia - mais procurado na região na modalidade - sempre fez parte do imaginário da dona de casa. "Era um sonho antigo cursar uma faculdade. Eu parei de estudar na adolescência para trabalhar. Depois de casada, com duas filhas, se tornou meio que impensável. Optei pela educação a distância, porque faço meu horário e criei uma rotina de estudos", destacou.

A aluna do quarto período do curso de Pedagogia da Unirp conta que no dia em que abriu o sistema pela primeira vez até se emocionou. "Comecei a chorar. Confesso que no início foi meio assustador, porque fazia muitos anos que eu estava sem estudar. Muita coisa mudou nesse tempo, mas peguei o ritmo. Agora me sinto inserida novamente", afirmou.

Segundo o diretor executivo da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (Abmes), Sólon Caldas, o crescimento da modalidade EaD não acontece apenas no Brasil. "As pessoas estão optando pelo ensino a distância para tentar conciliar com o seu dia. Isso porque o aluno tem mais flexibilidade para acessar o conteúdo de qualquer lugar", explicou.

A diferença do valor do curso também faz a diferença. Em Rio Preto, por exemplo, enquanto um curso presencial fica em aproximadamente R$ 500, na modalidade a distância esse valor chega a R$ 150. "A redução de custos é significativa, não só na mensalidade, mas na alimentação e estacionamento, por exemplo", pontuou a coordenadora do Censo EaD Brasil, da Associação Brasileira de Educação a Distância (Abed), Betina von Staa.

Ainda segundo Betina, o valor de um curso EaD também se torna mais rentável para a instituição de ensino. "Porque não têm de pagar aluguel e têm muito menos gasto com professor, pois o conteúdo é replicado digitalmente. E aí a interação fica por conta dos tutores", falou.

A coordenadora de educação a distância da Unirp, Isabel Cristina de Souza Bertoldo, destaca que na região, além de Pedagogia, os cursos de Administração, Ciências Contábeis e os tecnológicos também são bastante procurados. "A maioria dos estudantes de ensino a distância já são pessoas mais velhas, alguns estão em busca de uma segunda graduação", relatou.

Mulheres predominam

Mulheres são as que mais procuram cursos EaD em Rio Preto. Em 2018, 64% de alunos matriculados nesse tipo de ensino eram mulheres. No ensino presencial, há mais equilíbrio: 54% mulheres e 46% homens.

"É uma tendência que também se verifica em nível nacional. As mulheres assumem protagonismo cada vez maior na sociedade, nas diferentes funções que o mercado exige. De acordo com o censo populacional, as mulheres já são maioria no Brasil (51,7%), o que faz com que elas também estejam em maior número nos cursos de nível superior", opinou Sólon.

Esse fator reflete na predominância em Pedagogia. "A profissão de educador, tradicionalmente, atrai mais o público feminino, com isso há uma concentração maior de ingresso de estudantes nessa área", completou.

O "preconceito" em relação ao ensino a distância também tem diminuído nos últimos anos. É o que diz a coordenadora da Abed, Betina von Staa. "Ainda existe por hábito, porque eu sempre aprendi com o professor na frente", ressalta.

Segundo Betina, a procura por qualificações a distância até para quem faz ensino presencial mostra a importância da modalidade EaD. "O problema não é o curso a distância, mas que nem todos os cursos são bons. Claro, se você está num curso que só recebe um PDF na tela, é um curso fraco. Mas a maioria não é assim. Hoje, por exemplo, vemos muitos alunos de Medicina buscando conteúdos digitais para tirar dúvidas", ressaltou.

Para Sólon Caldas, diretor da Abmes, a tendência é que o ensino a distância cresça mais. "Quando você compara com um curso presencial, os dois foram avaliados pelo Ministério da Educação. O EaD tem se sobressaído, então a própria avaliação do MEC tem mostrado. Isso porque o aluno do EaD tem outras características, e uma dessas é a disciplina, o comprometimento, porque o bom desempenho depende muito do aluno", salientou.

Ainda segundo Sólon, a expectativa é que até 2023 o número de matriculados a distância ultrapasse o número de alunos presenciais no País. "Nós fizemos um estudo na Abmes e percebemos que, de acordo com a tendência dos números dos últimos anos do Censo, o EaD vai passar o presencial em 2023", afirmou. (RC)

Divulgação

Ellen Rosa de Jesus, 27 anos, tem baixa visão e é estudante de licenciatura na Universidade Virtual do Estado de São Paulo (Univesp), que é pública. A dificuldade para enxergar a lousa fez com que a bióloga optasse pelo ensino a distância para cursar a segunda graduação. "No computador, consigo aumentar as letras e fica mais fácil", falou. Ela pretende optar por matemática na continuação do curso de licenciatura.

"A educação a distância é inclusiva por natureza. Todo mundo que tem algum empecilho para estudar, na distância consegue, seja por preço menor, flexibilidade", disse a coordenadora da Abed, Betina von Staa.

E superação é o que não falta na história de Ellen. A perda da mãe, que trabalhava na roça e morreu após suicídio, foi um duro golpe para a aluna. "Lembro, que eu estava entrando no segundo semestre da faculdade. Fiquei em choque, mas lembrei do que ela sempre me disse, da importância dos estudos, para não parar."

Ellen conseguiu concluir o curso de biologia e, desde do ano passado, está na Univesp. "Eu tiro uma ou duas horas por dia para estudar. No início, eu estranhei muito quando troquei o presencial pelo a distância, mas foi melhor. No presencial a aula era em slide e na lousa, aí não conseguia escrever e ver. Tinha que trazer o caderno do colega para copiar. No EaD eu posso ampliar a tela do computador. Pelo portal na Univesp tem o zoom do programa, que facilita a leitura", contou.

Segundo o presidente da Univesp, Rodolfo Azevedo, cada vez mais alunos com deficiência têm procurado o ensino a distância pela maior facilidade, tanto de estudar em casa como pela acessibilidade oferecida por computadores especiais. "O aluno pode usar várias ferramentas de acessibilidade do computador. Ele pode pedir para que o programa leia a prova e fique mais fácil ao estudante. Sempre pensamos em cada tipo de aluno".

Quem também encontrou facilidade com o ensino a distância foi Sandro Aparecido Rodrigues, de 41 anos. No caso dele, que mora em uma fazenda de Tabapuã, a locomoção diária para Rio Preto seria inviável, o que fez com que optasse por fazer a faculdade em casa. "Estudo na minha fazenda mesmo, é incrível. Essa é a minha primeira faculdade e agora pretendo fazer uma pós-graduação", disse o aluno de gestão em agronegócio pelo polo da Unifram.

Ele vem a Rio Preto apenas uma vez por semestre para fazer a prova. "O curso foi muito bom. Estou conseguindo até aplicar os conhecimentos no meu trabalho", finalizou o aluno, que está no último período.

Para o vice-presidente de Operação Digital da Universidade Estácio, Aroldo Alves, o ensino a distância além de acessibilidade também propiciou que regiões sem oferta de ensino superior, pudessem começar a oferecer cursos de graduação. "No caso do interior ou campo, muitos municípios não contam com unidades presenciais e, por isso, o EaD cumpre um papel fundamental nessas regiões. (RC)

 

Guilherme Baffi 11/2/2020

As facilidades de poder estudar em casa e até na hora do almoço fizeram Daniela de Fátima Baptista Moreira, de 30 anos, buscar a qualificação via faculdade a distância. "Com o EaD eu tenho a opção de estudar em casa, à noite, no trabalho e até mesmo de final de semana", falou.

A aluna de Gestão Financeira conta que com o ensino a distância pode voltar a estudar e cursar a faculdade, que era um sonho antigo. "Fiquei um tempo sem estudar e com a correria resolvi voltar na modalidade a distância", destacou.

Quem também busca qualificação para um melhor posto no mercado de trabalho é Irineu Rosa Junior, 32 anos, que cursa Análise e Desenvolvimento de Sistemas. "Eu optei por conta de facilidade de manusear meu tempo e a questão de condição financeira também contou. Hoje trabalho como técnico em informática e estudo em casa."

Situação que se repete bastante: "O perfil é de um aluno que já está no mercado de trabalho. Ele termina o ensino médio e, por um motivo ou outro, não vai para faculdade e vai para o mercado de trabalho. E depois, lá na frente, ele tem a necessidade (da graduação) para ter um incremento no salário. Por conta dessa flexibilidade, ele opta pelo ensino a distância", explicou Sólon Caldas, da Abmes.

A correria diária também fez com que Gustavo Henrique Domingos Gutierre, de 27 anos, optasse por estudar em casa. "Eu sou ator, uma faculdade presencial ficaria difícil conciliar o tempo, mas com o EaD consegui", disse o aluno do terceiro ano do curso de Pedagogia da Unopar.

E quem pensa que são apenas os estudantes mais velhos que optam pelo ensino a distância. Está enganado. Bruna Fernanda de Paula se formou em Administração a distância na Unirp com 26 anos. "Um dos pontos relevantes de ter escolhido o curso na modalidade EaD foi a flexibilidade de conciliar os estudos com outras obrigações. Com a minha rotina do dia a dia, como o trabalho, academia e lazer."

A estudante que dedicava, em média, de 40min a 1h30 para às aulas destaca a dedicação, como fator essencial para um estudante se destacar na modalidade a distância. "Temos que nos dedicar tanto quanto no presencial. Além de ter disciplina termos autonomia, habilidade de planejamento, organização, e, no final todo o esforço será recompensado com o mesmo diploma igual ao presencial", finalizou Bruna. (RC)

A grande procura por EaD nos últimos anos fez com que o número de polos triplicasse em Rio Preto. Em 2010, a cidade concentrava dez unidades de educação a distância; em 2018, segundo dados do último Censo do Ensino Superior, Rio Preto tinha 37 polos. Até universidades tradicionais passaram a investir na modalidade.

"Atualmente, temos turmas em andamento em dez cursos. Normalmente, são pessoas mais velhas que estão procurando uma recolocação no mercado de trabalho", disse a coordenadora da educação a distância da Unirp, Isabel Cristina de Souza Bertoldo.

A coordenadora do curso de Engenharia Civil e professora no ensino a distância da Unorp, Ana Paula Sugii, afirma que as aulas estão mudando. "Hoje a metologia do ensino a distância não é mais aquela de ficar só assistindo aula, hoje o aluno interage com o vídeo. Nas minhas aulas, por exemplo, uso de perguntas e até pesquisas para o aluno realizar. Para o professor, é um desafio no começo, porque você não está diante do aluno", disse.

Universidades que até então não ofereciam cursos em Rio Preto nem tinham unidades na cidade também começaram a investir no município. "Na expansão são levadas em consideração muitas variáveis, como a taxa de penetração do ensino superior, o quanto há de espaço para trazer estudantes naquela região, o impacto que será causado naquela comunidade e a própria concorrência. A praça de Rio Preto é estratégica para a instituição, e acreditamos muito na possibilidade de crescimento do segmento", afirmou o vice-presente de operação digital da Estácio, Aroldo Alves.

Assim, como a Estácio, outras inúmeras instituições de ensino com sedes fora do estado de São Paulo também começaram a ofertar cursos na cidade a partir do crescimento do número de alunos procurando cursos a distância. E até faculdades tradicionais da cidade começaram a investir na modalidade de ensino. “Atualmente, temos turmas em andamento em dez cursos. Normalmente, nossos alunos na educação são pessoas mais velhas que estão procurando uma recolocação no mercado de trabalho”, disse a coordenadora da educação a distância da Unirp, Isabel Cristina de Souza Bertoldo.(RC)