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Redescobrindo a narrativa de Machado de Assis pelo olhar do professor e tradutor inglês John Gledson

Patrícia Reis Buzzini - 01/02/2020 00:25

Poucos autores brasileiros alcançaram tanto reconhecimento internacional como Machado de Assis, refinado artesão das letras e dos enigmas da existência humana. No meio acadêmico, há inúmeras monografias, dissertações e teses que engrossam a fortuna crítica do ilustre escritor carioca, também conhecido como "bruxo zombeteiro do Cosme Velho". Apesar do interesse reduzido pela literatura brasileira no exterior, é possível encontrar exemplares traduzidos de Machado em bibliotecas e livrarias estrangeiras. Representando um dos principais estudiosos da obra machadiana na Inglaterra, o professor e crítico literário John Angus Gledson, aposentado da Universidade de Liverpool, já publicou diversos livros sobre o tema, dois volumes de crônicas e uma antologia de contos. Além de Machado de Assis, Gledson verteu para o inglês obras de outros escritores renomados como Milton Hatoum, Bernardo Carvalho e Eduardo Giannetti, entre outros.

Para compreender melhor a questão da tradução de autores brasileiros, resgatei a transcrição de uma entrevista exclusiva com John Gledson, que realizei em 2012. De acordo com Gledson, as oportunidades de tradução literária surgem em função do sucesso de vendas da obra no país de origem e de eventuais parcerias entre editoras. Contudo, Gledson explica que ainda é difícil convencer os falantes de língua inglesa a lerem romances brasileiros traduzidos, considerando que já possuem muitos autores nativos "interculturais". Além dos custos elevados de um projeto de tradução, muita gente ignora os desafios de se transportar um texto literário para outras culturas: "há palavras que simplesmente não se entendem", e por isso o tradutor necessita alterar certas coisas, ciente dos parâmetros do autor e dos leitores". Para Gledson, o tradutor literário precisa trabalhar com seriedade, negociando significados sem correr o risco de reproduzir estereótipos. Lidando há mais de trinta anos com Machado de Assis, o professor relata que ainda encontra falhas em traduções recentes de obras machadianas para a língua inglesa.

Em 2007, Gledson lançou a antologia "50 contos de Machado de Assis" pela Companhia das Letras, livro selecionado para esta edição da Revista Vida & Arte. Segundo Gledson, a coletânea demandou um esforço enorme de pesquisa e teve como intuito principal facilitar a compreensão de Machado dentro e fora do Brasil. Contudo, embora tenha recebido excelentes resenhas, o livro não obteve a repercussão esperada. Mas ainda dá tempo, não é verdade?! No papel de "curador literário", Gledson nos apresenta uma seleção minuciosa de cinquenta contos conhecidos e desconhecidos de Machado de Assis, escritos no período de 1878 a 1888. Como explica o professor, os contos de Machado "não são romances imperfeitos, ou até poemas em prosa - existem com seus direitos próprios", e, na época, ainda estavam conquistando espaço na sociedade. Além dos contos, a obra também inclui uma breve introdução elaborada por Gledson, elucidando traços e registros de linguagem característicos de Machado, assim como detalhes históricos relevantes para a compreensão dos textos. Dentre os contos destacados por Gledson, está "Na arca", uma espécie de paródia em estilo bíblico, cuja temática gira em torno da natureza instintiva e competitiva das pessoas. Situada em alto-mar, na arca de Noé, a história estabelece o contrato fictício com o leitor por meio de uma linguagem carregada de humor e ironia, na qual nada deve ser levado inteiramente a sério. Não inteiramente.

11. - E disse Cam: "Ora, pois, tenho uma ideia maravilhosa, que há de acomodar tudo;

12. - "A qual me é inspirada pelo amor, que tenho a meus irmãos. Sacrificarei pois a terra que me couber ao lado de meu pai, e ficarei com o rio e as duas margens, dando-me vós uns vinte côvados cada um."

13. - E Sem e Jafé riram com desprezo e sarcasmo, dizendo: "Vai plantar tâmaras! Guarda a tua ideia para os dias da velhice". E puxaram as orelhas e o nariz de Cam; e Jafé, metendo dois dedos na boca, imitou o silvo da serpente, em ar de surriada.

(Extrato de "Na arca")

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