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HISTÓRIA DE VIDA

A alma voadora de frei Francisco

Aos 60 anos, frei Francisco Belotti, de Jaci, não sabe explicar com certeza o que o levou a gerenciar dezenas de obras de assistência social e saúde, mas que também levam conforto a quem precisa

Millena Grigoleti - 01/02/2020 00:15

É difícil fazer frei Francisco Belotti, de 60 anos, parar por alguns minutos. “Eu sou livre. Minha alma voa e minha cabeça vai na frente do meu corpo. Eu tenho que correr atrás”, ele mesmo diz. Fundador da Associação e Fraternidade Lar São Francisco de Assis na Providência de Deus, que começou em Jaci em 1985 e se espalhou pelo Brasil e chegou ao Haiti, ele mostra que ter fé e seguir os chamados de Deus é muito mais do que dobrar os joelhos no chão. Muito mais até do que trabalhar em prol de uma religião ou igreja. “Ser cristão é responder aos apelos de sua época, como tantas personalidades responderam, não só os santos, mas descobrindo medicamentos, tantas coisas que foram úteis à humanidade.”

Frei Francisco nasceu Nélio Joel Angeli Belotti em 5 de julho de 1959, em Catanduva, de uma família espírita. A mãe, Dina, falecida há dez anos, porém, acreditava que o filho caçula teria uma boa formação em um colégio de padres. Ainda adolescente, ele conheceu a história de São Francisco por meio de do filme "Irmão Sol Irmã Lua". “Minha vida virou do avesso. O que mais me marcou foi ele cuidar dos leprosos, ele tirava pedaço da roupa para por o curativo. Não tive dúvidas.”

Dona Dina ficou apreensiva com a ideia no começo – a ordem era rígida, era preciso abandonar tudo, e Nélio era o filho mais novo. Um padre amigo da família pediu que ela deixasse que o rapaz entrasse no Seminário Diocesano de Rio Preto, que ele nunca mais iria sair da região. A mãe deixou, mas não foi bem assim que aconteceu – frei Francisco passa poucos dias da semana em Jaci. O resto do tempo é dividido entre as dezenas de obras espalhadas pelo Brasil e também entre visitas às outras que as instituições tentam convencê-lo a assumir. “É oferecida quase uma por dia, mas as dívidas são muito grandes. Quando você casa com a viúva herda os filhos bem educados, que é o patrimônio, e os mal educados, que são as dívidas”, diz.

Ordenado padre em 1984, Nélio foi enviado a Jaci, uma cidadezinha com na época apenas três ruas, que a Associação ajudou a aumentar ao longo do anos, já com o intuito de se dedicar a tratar a dependência química – desde então, ele era procurado por doentes desesperados que queriam se livrar do vício, em uma época em que eles se chamavam de drogados, maconheiros, bêbados - assim mesmo, perojativamente, por não haver a compreensão de que se tratava de uma doença. Belotti respondia que não sabia o que a pessoa poderia fazer e se questionava se só benzer bastaria, chegando à conclusão que não. "Precisa das bênçãos de Deus, mas precisa de tratamento."

A primeira casa para tratar essas pessoas, em Rio Preto, foi fundada em um terreno que antes só presenciava morte: uso de entorpecentes, aborto, assassinato. Um médico doou a construção de uma casa pré moldada e assim nasceu a primeira obra. “Passa a ser a casa da recuperação. Todas as vezes que eu entro lá, depois de 35 anos, sinto um negócio fisicamente, porque foi a casa da morte que veio para a vida.”

Belotti foi ordenado frei em 1987 por Dom José de Aquino Pereira, que trocou a batina de padre pelo hábito marrom e lhe deu o nome de Francisco. Aos 60 anos, não sabe explicar muito bem como terminou com tantas coisas na mão – dentre elas, o Barco Hospital Papa Francisco, que atende comunidades ribeirinhas no Amazonas; dois hospitais no Norte, um pedido do próprio Papa Francisco; além de hospitais gerais e psiquiátricos e casas para atender pessoas que não têm quem as cuide. “Esse é um grande questionamento da divina providência”, afirma. Depois da primeira casa para dependentes químicos, veio o hospital de Jaci, do mesmo jeito que todo o resto: algo precisava ser feito. “A gente entendeu que vinha gente machucada, depressiva, com problemas mentais e físicos. O Hospital de Base vivia uma crise, a Santa Casa de Mirassol acolhia tudo. Era difícil. Falei ‘vou fazer um hospital em Jaci’. Desse começaram a nascer outros”, conta.

A ideia é não fazer apenas assistência, mas levar conforto espiritual – tanto que sempre há uma capela, uma missa, uma cruz e sorrisos de quem trabalha na missão. “A gente procura dar um testemunho de vida administrativa sem corrupção e vaidades e fazer uma assistência igualitária. Se você chegar no Hospital João Paulo II hoje e fizer os exames, em menos de 20 dias você está com a cirurgia de catarata feita.”

Frei Francisco encontrou o santo que inspirou sua caminhada até mesmo dentro do centro espírita, como espírito de luz. A mãe praticava a caridade, fazendo sopa e enxoval para bebês. “Só que eu queria um compromisso de vida maior. Não que isso não seja bom, mas eu queria um negócio mais entregue. Mais de 800 anos se passaram e o maior milagre de São Francisco é esse: nos dias de hoje ele ainda continua chamando” afirma. A Fraternidade tem um trabalho religioso, que forma jovens para a vida cristã. “Só agora vão entrar mais de 30. Eles deixam tudo. Se fumam e bebem têm que parar. É tudo na contramão de uma vida hoje sensualizada, que o filho não obedece nem pai, nem mãe, nem autoridade.” O objetivo é repetir o abraço franciscano no leproso. “Temos a missão de repetir esse abraço no excluído. Não estamos recuperando só a casa de tijolo, mas o ser humano que vai morar aqui dentro.”

O que fica de todo o trabalho é a gratidão – e o estresse emocional positivo de lidar com tanta coisa. “Meu coração começou a acelerar demais ou de menos. Fiz os exames e não tinha nada. Vivo intensamente cada momento, a gente sofre e torce, briga com o governo para as coisas acontecerem”, diz o frei. “Até penso que Deus deveria ter escolhido alguém mais capacitado que eu. Sou muito falho, humano, descendente de italiano, sangue quente, essas coisas mexem com a gente. Mas o sentimento é de eterna gratidão.”

O primeiro agradecimento é para Deus, o segundo é para a equipe – quando o religioso mostra mais uma vez seu bom humor. “Às vezes não é fácil conviver com a gente. Eu gosto de ler nas estradas as placas dos caminhões. Tem uma que diz ‘vivo arranhado, mas não largo da minha gata’. É um time que não se desfaz.”

Frei Francisco se diz satisfeito com o que a obra já alcançou. “Mas estou aberto ao que Deus desperta. Antes de ser um projeto da associação, da fraternidade, se você ler os sinais do desenrolar da história, é um projeto divino. Estamos sempre abertos para responder.”

Diário da Amazônia

Do dia 10 ao dia 19 de fevereiro, a convite da Associação e Fraternidade Lar São Francisco de Assis na Providência de Deus, o Diário da Região acompanhará a 9ª expedição do Barco Hospital Papa Francisco, que vai começar no município de Faro, no Pará, e vai percorrer comunidades ribeirinhas do rio Amazonas. Serão feitas matérias durante a viagem, uma espécie de diário de bordo, e também um conteúdo especial ao final da jornada. 

O Barco Hospital Papa Francisco, que surgiu após um pedido do Papa para que a Associação fosse para a Amazônia, começou a atender no ano passado, alcançando milhares de pessoas que, muitas vezes, sequer conheciam um médico. Com 32 metros de comprimento, ele conta com consultórios médicos e odontológicos e centros cirúrgicos. "Meu coração exulta em prece de louvor a Deus pai... que eu e todos os que aqui dedicam suas vidas glorifiquemos o Pai que está nos céus a serviço da vida", disse o frei Francisco na véspera da inauguração.

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