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A alma das empresas: gestão eficiente de caixa e atenção aos custos. A tradicional e bem-sucedida receita de Waldemar Verdi Junior

Ele é daqueles que fazem a pauta virar gigante de boa. Suas respostas encantam pela fluidez, conhecimento absurdo e sagacidade. Essa agudeza de espírito fez o rio-pretense Waldemar Verdi Junior afirmar algumas vezes durante esta entrevista especial, que durou 42 minutos por telefone, que todas as empresas têm alma. “Eita, empresas têm alma?”, pacientemente ele me explicou que sim. A alma é o caixa da organização, um relicário de extremo significado, que sela a vida, a longevidade ou a morte do negócio, conforme ele for tratado. Uma gestão eficiente da empresa através da sua alma, o caixa, portanto, é o primeiro fundamento, uma espécie de mantra repetido à exaustão por Verdi. O outro é a atenção permanente e diligente dos custos. Eles são sorrateiros, traiçoeiros até. Fique de olho neles, sempre e o tempo todo! E disse mais o presidente do Conselho de Acionistas das Empresas Rodobens, um dos maiores grupos empresariais do Brasil, com atuação nos segmentos de serviços financeiros e varejo automotivo, que pelo segundo ano consecutivo está entre as 150 Melhores Empresas Para Trabalhar no Brasil, segundo ranking da revista Você S/A em parceria com a Fundação Instituto Administração (FIA). Ele disse que empresas feitas para durar, feito o grupo empresarial criado pelo seu pai, Waldemar de Oliveira Verdi há 70 anos, são aquelas que mantêm intactos e incorruptíveis os valores de seus fundadores. São também as que conseguem, porque precisam, ser flexíveis nas operações. E fazem isso sem se desviar das boas virtudes e dos conceitos de quando tudo começou. É o tal “viver no mundo, mas não se contaminar com o mundo”! É pra poucos. É pra quem tem lastro. É para o “seo” Waldemar de Oliveira Verdi, que começou toda essa história. É para o seu filho, Waldemar Verdi Junior e para a organização já centenária que de Rio Preto virou referência de excelência em negócios no Brasil e no exterior. Orgulho para essa cidade do interior, que por determinação do coração caipira de seus dirigentes, desde sempre abriga a sua matriz. A seguir, um pouco da conversa com um dos mais respeitados empresários do País na atualidade. Gruda no que ele diz sobre a evolução do Brasil em 2020! Embarque no seu pensamento aguçado sobre o novo ambiente da economia. Confira a sua análise e conheça o impecável desejo de estar no futuro deste ilustre filho de Rio Preto!

V&A - O que podemos esperar deste ano, numa economia que esboça vontade de crescer e num cenário tão incomum ao empresário brasileiro, o de queda de juros?

Waldemar Verdi Junior - Aqui no nosso grupo - e a maioria dos empresários brasileiros está trabalhando com esse pensamento - temos uma perspectiva muito positiva para 2020. Alguns pontos explicam o nosso otimismo. Depois de uma crise extremamente longa e profunda, o processo começou a se reverter com o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff e quando o ex-presidente Michel Temer assumiu e deu os primeiros passos para um ordenamento na atividade econômica. Vale lembrar que o ex-presidente Temer fez a reforma trabalhista que já teve muitos efeitos positivos, embora careça aperfeiçoamento. Ele também levou em frente a medida de contenção de gastos, e esses foram dois passos importantes. Com a entrada do governo do presidente Jair Bolsonaro, o grande mérito foi a constituição de uma equipe econômica de atuação liberal, comandada pelo ministro Paulo Guedes, formado pela Academia de Chicago, nos Estados Unidos, de uma linha totalmente liberal. Guedes começou a implantar essa linha liberal na governança das finanças do Brasil e se fez acompanhar de uma equipe de profissionais alinhados a essa postura. Isso foi extremamente positivo e nós já começamos a ver os efeitos. Além disso, a reforma da Previdência foi um passo da maior importância em 2019. Era a reforma das reformas. A mais emblemática, totalmente necessária para a contenção dos gastos públicos, para o equilíbrio fiscal tão almejado para Brasil voltar a se desenvolver. Percebo também que o Congresso brasileiro incorporou o espírito da necessidade das reformas, desse processo vital de mudanças. Eu acredito que até meados deste ano nós vamos ter a implementação da reforma tributária, que embora não vá trazer redução de alíquotas de impostos, irá ocasionar uma simplificação muito grande nos processos, o que muda completamente o ambiente de negócios. As empresas brasileiras estão muito carregadas de custos de administração tributária. Se gasta muito tempo e muito dinheiro nisso. Então, do ponto de vista arrecadatório e de fiscalização, o governo vai ganhar muito. A reforma tributária será um avanço muito importante. E a outra que nós esperamos, e que também embasa a nossa visão otimista, é a reforma administrativa, para redução do tamanho do Estado, que ainda depende da aprovação do Congresso. O Brasil precisa diminuir a participação do Estado na atividade econômica, e oferecer maior liberdade de atuação para os segmentos que compõem a economia. Com isso o País caminha a passos grandes e fortes para uma mudança na situação. Eu normalmente sou otimista. Mas agora estou mais fortemente otimista do que em tempos passados. A confiança com relação a 2020 é muito grande.

V&A - Como o Brasil pode garantir o aumento do otimismo internacional?

Waldemar - Já fizemos a reforma da Previdência. Com a consolidação das reformas tributária e administrativa, além das demonstrações muitos claras do governo na linha liberal, a confiança dos investidores internacionais vai aumentar. E um detalhe: a nossa bolsa está batendo recorde atrás de recorde. Toda a vez que eu tenho a oportunidade de conversar com alguém relacionado ao ambiente internacional, percebo que sob o ponto de vista da economia, a repercussão dos avanços está muito forte. Você comentou sobre a queda dos juros. Eu não me lembro de ter vivido uma época como essa, em que trabalhamos com inflação baixa e juros consequentemente baixos. É outro ambiente, e nós precisamos nos reciclar, não estamos acostumados a isso. A forma de trabalhar é diferente. É lógico que trabalhar com juros baixos se traduz num ambiente econômico muito melhor, mas é diferente. É diferente de trabalhar com inflação alta sem mecanismos de defesa, como vivemos por muito tempo. Agora não. No atual cenário, nós empresários, estamos sendo induzidos a usar os nossos recursos para novos investimentos. Assim como as pessoas físicas, que viviam de rendimentos proporcionados por títulos do governo e que agora estão procurando investimentos, porque já não se remunera mais como se remunerava sem trabalhar. Eu penso que o otimismo internacional com o Brasil vai ser crescente e as oportunidades são claras.

Outro fator importante para o aumento da credibilidade no Brasil foi o fato do governo ter colocado o Ministro Sérgio Moro na Justiça. Porém, o mais importante é a continuidade do combate à corrupção. Num ambiente de corrupção tão forte como o que estávamos vivendo, é impossível progredir. A sociedade fica dilacerada e não há avanço. Por outro lado, em 12 meses de governo do presidente Jair Bolsonaro, não houve um escândalo de corrupção em ministérios. Nenhum. Aí podem falar: mas teve o escândalo do Flávio, filho do presidente. Isso foi antes, não foi durante o governo do pai. O fato é que não houve casos de corrupção, o que até um tempo atrás, era uma situação sistêmica que abalava fortemente a sociedade. A continuação da Lava Jato ajuda muito no reconhecimento externo do Brasil e gera um ambiente interno de confiança no futuro.

Diante disso, já notamos um aumento do número de empregos formal, ainda tênue, mas importante. Segundo dados da associação que representa os construtores, o Brasil tem capacidade de produzir em 2020 mais de um milhão de unidades residenciais, seja no programa Minha Casa Minha Vida, seja em unidades de maior valor, e esse numero representaria uma geração imediata de três milhões e 100 mil empregos. Isso é um terço do nosso desemprego. A construção civil reage muito forte na questão da geração de empregos, principalmente na faixa de renda de salários menos qualificados, que é quem sofre mais em momentos de escassez vagas de trabalho.

V&A - Quais são nossos gargalos para o desenvolvimento e como enfrentá-los de vez?

Waldemar - A infraestrutura no Brasil ainda é um enorme gargalo. Porém, podemos avaliar de uma forma muito positiva essa questão, entendo-a como uma oportunidade extraordinária. A infraestrutura será uma das pilastras do desenvolvimento que vamos ter nos anos futuros, a partir de 2020. Países como China, por exemplo, que mais recentemente investiu em infraestrutura, em pouco tempo, cinco anos apenas, conseguiu mudar seu patamar de desenvolvimento focando neste setor. Não é só o recurso que entra para investir, para fazer a infraestrutura, é a eficiência que aumenta. Isso é o mais importante. Um bom exemplo é o nosso espetacular agronegócio, que tem garantido o Brasil nos últimos anos. Mesmo sem uma infraestrutura adequada, carente, o pessoal do agronegócio consegue feitos incríveis, com safras recordes. Imagine a hora que o Brasil tiver rodovias e ferrovias melhores, portos modernos e equipados para transportar, escoar a sua produção? Vem muita eficiência com o desenvolvimento da infraestrutura.

Outra questão: pela primeira vez na minha vida, eu vejo um governo federal falar de maneira séria sobre infraestrutura básica, porque o fato é que 50% da população brasileira não têm água e esgoto. O governo está aprovando junto ao Congresso o Marco Regulatório e vai abrir espaço para companhias internacionais participarem não só de privatizações de empresas que atuam no setor de infraestrutura básica, mas também em novos investimentos. Será um benefício fantástico para a Nação, tanto no acesso ao conforto mínimo que é o serviço de água e esgoto, como na garantia da saúde e na prevenção de doenças.

V&A - Qual é o maior desafio de 2020 para o governo?

Waldemar - Na economia é a continuidade de medidas dentro do plano liberal. Uma delas visa conceder independência total ao Banco Central, como ocorre nos Estados Unidos. Sabemos que o Banco Central do Brasil já tem uma certa independência, mas se isso melhorar, será muito bom e vai aumentar a nossa credibilidade externa. Além disso, o ano de 2020 será caracterizado muito fortemente pela atuação do governo nas privatizações. Já em abril, aguarda-se a abertura de capital da Caixa Seguradora, da Caixa Econômica Federal, que deverá ser a primeira do banco público e da equipe econômica do governo Bolsonaro. A expectativa é que a empresa chegue valendo entre R$ 50 bilhões e R$ 60 bilhões na Bolsa. Também haverá privatizações de mais poços de petróleos e o aproveitamento dos imóveis da União. Medidas que reforçam a linha liberal do governo. Tudo isso aumenta o entusiasmo e o Brasil passa a ser outro País, economicamente promissor.

V&A - Quais são os planos para as Empresas Rodobens diante deste cenário promissor? Há algum projeto especial para Rio Preto?

Waldemar - Alguns fatos vão interferir positivamente no nosso negócio. O Banco Central tem dado muitas oportunidades de desenvolvimento aos bancos menores, como é o caso da instituição financeira do nosso grupo. Teremos mais oportunidades de oferecer financiamentos de veículos e imóveis, além de oferta de cartão de crédito. Na área de seguros ainda temos um grande potencial de crescimento. Para o consórcio, queremos que seja moderno e possa conjugar a parte da poupança da modalidade com o financiamento complementar, otimizando soluções para os clientes. Outra coisa é a dinamização da plataforma digital. Não há mais como imaginar uma empresa crescendo sem uma plataforma digital eficiente, e isso não significa dizer, e não significa mesmo, que se vai abandonar os canais naturais de comercialização. A combinação ideal, a mais moderna, é o chamado Omnichannel (que integra lojas físicas, virtuais e compradores). E não provocará desemprego: a eficiência aumenta tanto que o número de empregos aumenta, assim como a qualificação. É irreversível e é por esse caminho que as empresas brasileiras terão que trilhar. Todas essas ações, claro, trarão reflexos positivos para a economia de Rio Preto, que abriga a nossa sede.

V&A - Quais as razões do sucesso de empresas feitas para durar, como as Empresas Rodobens?

Waldemar - As empresas que continuam sobrevivendo são rígidas na preservação dos valores instituídos pelos seus fundadores, mas, ao mesmo tempo, são muito flexíveis nas operações. São organizações que mantém sua ideologia central e buscam o progresso na estrutura fundamental da organização. Seus valores são cultuados e estão presentes em qualquer transação com o mercado, com a sociedade e com o governo. É o que mostra o resultado de uma pesquisa com 18 empresas centenárias que resultou no livro “Empresas Feitas Para Durar”, de James Collins e Jerry Porras.

V&A - O Sr. tem alguma recomendação para o empresário e o empreendedor para este ano?

Waldemar - No meu ponto de vista, cada empresário, cada grupo de empresas deve manter o seu core business. Não é porque o Brasil será um País de oportunidades que a empresa vai abandonar o desenvolvimento das habilidades que já domina para entrar em outras atividades que não domina. Pode até fazer, mas particularmente, eu não gosto. Dentro daquilo que a empresa já atua, procurar uma evolução. Como eu já disse, haverá uma grande oportunidade na área de infraestrutura. Mas quem não tem know-how não deve entrar, porque é um setor de capacitação técnica muito alta, investimento de longo prazo, um negócio complexo. E, no mais, em qualquer tempo, cenário, crise ou governo, meu lema é sempre o mesmo: zelo na gestão de caixa, que é a alma da organização, e cuidado com a evolução dos custos. São dois fundamentos perenes, que se deve preservar também neste novo ambiente de juros baixos. No mais, os empresários brasileiros, aqueles que conseguiram sobreviver às crises, principalmente a esta última, eles estão bastante amadurecidos para evoluir com a melhoria das condições de mercado.

V&A - O lema difundido pelo seu pai, o querido Sr. Waldemar de Oliveira Verdi, o famoso “TBC” (Tirar a Bunda da Cadeira) continua valendo?

Waldemar - Sim, claro. O “TBC” continua válido e sempre será. Meu pai foi um homem que trabalhou dos 14 até aos 97 anos ininterruptamente. Trabalhou até duas semanas antes de falecer. Mantenho intacta a sala dele em nosso escritório em São Paulo. Nos nossos momentos de crise, ele sempre nos lembrava da importância do TBC, dos nossos valores, do poder do trabalho e da capacidade de cada um em transformar situações e vencer dificuldades.

V&A - Num exercício de futuro, como o Sr. vê o Brasil dos seus netos e das próximas gerações?

Waldemar - Estamos numa trajetória de crescimento e de confiança que dificilmente será interrompida. Meus netos vão encontrar um Brasil muito melhor e mais forte, livre dos desmandos do governo que esteve no poder nos últimos anos.

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