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AMOR ESPECIA 'AU'

Animais com deficiência encontram amor e oportunidade de recomeçar

Animais maltratados, inclusive com graves lesões, e abandonados encontram no amor de cuidadores um recomeço em ambientes seguros; gestos anônimos mudam a vida de pets como Igui e Princesa


    • São José do Rio Preto
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"Toda manhã, ele chega à beira da cama com um sorriso lindo e 'saltinhos' de alegria por me ver acordar. É um verdadeiro anjo na minha vida. Ainda bem que nos encontramos. Aprendo muito com ele. Verdadeiro exemplo de superação e amor à vida. Minha vida mudou muito com a chegada dele. Hoje tenho a felicidade desse amor incondicional, dessa fidelidade e gratidão infinitas. Já ele, creio que encontrou em mim alguém em quem possa confiar". A declaração emocionada é de Danila Keuchguerian, tutora do Igui, cãozinho sem raça definida, que entrou na vida dela em 2017. Estima-se que hoje ele tenha entre 4 e 5 anos.

Antes de ir morar com ela, Igui chegou a ter um tutor, mas foi atropelado e abandonado à própria sorte. Uma pessoa o encontrou e o levou ao veterinário, que sugeriu a eutanásia. Ele foi levado ao Centro de Zoonoses de Rio Preto e acabou salvo por uma protetora de animais, que o transferiu ao hospital veterinário da Unirp, onde foi atendido, internado e se recuperou, mas acabou ficando deficiente devido à fratura compressiva na coluna.

"Ninguém se interessou por ele, mas quando soube de sua existência fui buscá-lo, inicialmente, com a intenção de oferecer 'lar temporário'. Mas foi amor à primeira vista. Seu olhar de gratidão me comoveu e não tive outra reação: o abracei e chamei de 'filho', prometendo o amor incondicional, o carinho, respeito e cuidados", relata Danila.

Igui precisa de alguns cuidados especiais, usa fraldas o tempo todo e precisa de estímulo para fazer suas necessidades fisiológicas. Tem cadeirinha de rodas para 'correr' com os outros cães pelo quintal e um carrinho de bebê para passeios.

"Nunca tive medo de assumir a responsabilidade de adotar um animal especial. O Igui não dá trabalho algum. É meu filho, meu anjo companheiro. Hoje entendo que não é o Igui que depende de mim, mas eu que dependo dele. É um amor imenso! O verdadeiro sentido da palavra gratidão conheci com ele", conclui Danila.

Descaso reiterado

O abandono de um animal doente ou deficiente ainda é bastante comum. A médica veterinária Francielly Arenazio Passarini, especialista em fisioterapia e acupuntura veterinária, vê essa história se repetir com frequência.

"Eu mesma adotei dois de meus animais de pessoas que não queriam mais eles devido as suas deficiências. Além do abandono, tem muitas pessoas que optam pela eutanásia, principalmente em casos de paralisia. Às vezes isso ocorre por falta de conhecimento de que existe tratamento para recuperar estes animais, e mesmo se for um caso irreversível eles podem ter uma qualidade de vida excelente. As pessoas ao comprar ou adotar um animal têm que se lembrar de que eles exigem muitos cuidados e por muito tempo."

Hoje existem vários tratamentos para os pets que passam por problemas. A fisioterapia engloba muitos aparelhos como laserterapia, ultrassom terapêutico, magnetoterapia, eletroterapia, exercícios terapêuticos e hidroterapia. Outras técnicas bastante utilizadas são a acupuntura, quiropraxia e massoterapia.

Essas práticas podem reabilitar ou mesmo proporcionar qualidade de vida aos que não possam se reabilitar completamente, aliviando dores, melhorando as funções motoras, treinando o uso de carrinhos de rodas e dando autonomia aos animais.

Francielly, que trabalha com reabilitação de animais há sete anos, explica que os animais são capazes de entender que possuem certas limitações, mas raramente se entregam a esta deficiência. "Eles se adaptam muito facilmente e rapidamente se superam, dia a dia. Não vejo sofrimento nestes animais, pois eles se sentem perfeitos. São muito gratos a quem cuida deles", disse.

A veterinária explica que surge uma ligação muito forte entre tutor e animal. "Esses animais, quando adotados, são mais gratos. E os cuidados especiais com eles acabam se encaixando perfeitamente em nossa rotina e acaba sendo gratificante cuidar deles. Eles têm muito o que nos ensinar, evoluímos bastante com estes animais mais que especiais."

Para Cinthia Piovani, quem deixa de adotar um animal por ele ser deficiente está perdendo um amor enorme e a oportunidade de se tornar mais responsável, além de desfrutar de toda a gratidão que eles costumam ter por quem os escolheu. Ela aprendeu tudo isso com o Fubá, um gato sem raça definida que entrou em sua vida em maio de 2019, quando tinha 6 meses. "Ele mudou tudo na minha rotina, mas não me arrependo."

Fubá foi encontrado na rua e levado para uma ONG de proteção animal em Catanduva. Como ele não movimentava nenhum dos membros, nem levantava a cabeça, foi levado para a avaliação de uma ortopedista, que identificou lesões: fratura de rádio e ulna do membro torácico direito e uma luxação de vértebra torácica. A ortopedista, então, chamou Cinthia, que faz estágio na área de veterinária.

"Ela me contou sobre o caso dele e recomendou sessões de fisioterapia e laser para ajudá-lo com os movimentos. No começo ele estava muito debilitado, mas já se apaixonou por mim. Como a reabilitação ia ser um processo de meses, decidimos devolvê-lo para a ONG e eu continuaria indo fazer as sessões", conta. O desafio foi convencer a mãe para levá-lo pra casa. "Ela não queria porque já temos quatro gatos, sendo uma diabética e outro com hidrocefalia", explica.

A melhora de Fubá foi gradativa e quando chegou o dia de devolvê-lo para a ONG, Fubá foi adotado definitivamente. Ela aprendeu mais exercícios para estimulá-lo, fez acupuntura e eletroacupuntura e ele melhorou muito. "De maio a agosto ele melhorou 80% e já dá passinhos, só não tem força pra ficar em pé e não faz xixi sozinho. Eu acho que ele tem chance de voltar a andar sozinho, mas isso ainda leva meses", diz Cinthia sobre o Fubá. "Agradeço muito a cada evolução que ele teve e a todos os anjos de veterinárias que me ajudaram", finaliza.

Princesa, de 3 anos, foi acolhida pela sua atual tutora, Nátaly Santile, no início de 2019. Por auxiliar a causa animal, ela foi solicitada para levar uma cachorra atropelada até o veterinário. Princesa já era castrada e usava cadeira de rodas após ficar paraplégica devido a um acidente. "Quando cheguei e a vi fiquei apaixonada e morrendo de dó, pois ela estava muito debilitada e suja. Levei até a veterinária, onde ela ficou internada por 15 dias. Depois ela ficou em um lar de passagem, mas logo a pessoa disse que não poderia mais abrigá-la", relembra.

A tutora conta que inicialmente não poderia ficar com a Princesa por ter outras cachorras que poderiam rejeitá-la. Também havia questões de tempo e dinheiro. "Mas depois de uma conversa com meu marido eu a acolhi. O começo foi difícil, uma de suas patas estava no osso. Além disso, a cadeira de rodas não era apropriada ao tamanho dela", conta.

O tempo passou e Princesa não está mais anêmica. Aprendeu a usar o 'banheiro', embora precise de fralda quando sai de casa e ganhou uma nova cadeira de rodas para passear. "A fisioterapia e acupuntura a auxiliam no fortalecimento dos músculos. O custo mensal é alto, mas é um amor sem explicação. A gratidão deles é inexplicável", ressalta Nátaly, que encontrou apoio em um grupo de pessoas de todo o País que têm animais deficientes e que se conectam via WhatsApp. É o 'Família de Rodinhas'. São mais de 150 tutores de animais com diferentes deficiências que trocam apoio emocional e experiências."