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Painel de Ideias

De formigões e mandíbulas

Tanta gente professa na vida o mesquinho lema de melancólicas formigas. Patéticas, devoram os próprios membros na ânsia zurra da avareza e acumulação. São algozes de si mesmas nas frestas do mundo


    • São José do Rio Preto
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No espaço angular com paredes de vidro do Museu de História Natural, a vida alarmada e industriosa das formigas. Vistas com lentes de aumento, pareciam tratores em jornadas escaldantes. As cabeças com antenas eriçadas e olhos convexos se ligavam às carcaças por dutos mecânicos. Nos órgãos bucais, assustadoras mandíbulas. Em lampejos por túneis labirínticos, eram robóticas, neuróticas, estrambóticas. Como em operações guerreiras, marchavam em pelotões e, ocasionalmente, as desgarradas, ao se encontrarem, futricavam.

Vivem afobadas em colônias obreiras, compulsivas, prevenidas, absurdas. Na maioria, as fêmeas são estéreis, só uma delas procria: é a rainha da sociedade. Divididas em milícias, dedicam-se às predações agrárias e urbanas. Legionárias, escavam, constroem galerias, atulham celeiros, cuidam das larvas e pupas, e adulam a soberana, uma tataravó bizarra, lambendo-lhe o ventre, as patas e enchendo-lhe a pança de comida. Os machos adultos têm asas de libertação. Mas, pelas leis da tropa, vivem para a imolação num dia chuvoso de pardais e curiangos, no voo fúnebre do acasalamento. Paradoxo: fecundar a existência é um rito de orfandade.

O fabulista La Fontaine, nos calcanhares de Esopo, nos canta esse fado: monarcas ladinos e peões servis. Instauram-se as regras sociais: dum lado, ambição e tirania; doutro, fatalismo e escravidão, como se o viver se resumisse à sina duns poucos que se valem da submissão e esforço do resto. Na historieta para os miúdos, o canto libertário e criativo, a glorificação da vida é apanágio das cigarras, tidas como criaturas levianas e inúteis num enredo tristemente doutrinário.

Há uma variedade enorme de formigas, das lava-pés a desengonçadas tanajuras. Nas 'Viagens à Província de S. Paulo', o botânico Auguste Saint-Hilaire constatou: "Ou o país acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o país". Tornou-se o brado de Macunaíma, o herói modernista a nos dizer nas entrelinhas: Ou o Brasil acaba com a incúria, ou a incúria acaba com o Brasil!

Tanta gente professa na vida o mesquinho lema de melancólicas formigas.

Patéticas, devoram os próprios membros na ânsia zurra da avareza e acumulação. São algozes de si mesmas nas frestas do mundo. Enfermas e subterrâneas, nem lhes dão a chance de admirar as artes, o canto em coro dos pássaros e delícias à deriva. Fenecem murchas atrás de vidros blindados em museus de ciências biológicas, de antropologia ou em quarteirões vigiados.

Pessoas e bichos, muitos definham nas covas que cavoucam. Formiguejam nos desvãos da usura, a conjugar o ter ao invés do ser, na punheta fetichista e estéril às suas lombrigas. Erigem totens tombados no corso silente e cabisbaixo das noites de inverno.

Prestamos pouca atenção àquele mundo dentro do mundo, o ganancioso formigueiro. Nele, um compêndio de episódios formidáveis.

ROMILDO SANT'ANNA, Escritor, professor, jornalista, pesquisador, diretor do Museu do Silva e imortal da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura (Arlec). Escreve quinzenalmente neste espaço aos domingos