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    • São José do Rio Preto
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05/01/2020 - 00h30min

Painel de Ideias

Nosso homem em Cuba

O rapaz se chamava Ernesto "Che" Guevara. O deputado era Joaquim Nunes Coutinho Cavalcanti, eleito deputado por Rio Preto para a Câmara Federal em duas legisladoras nos anos 50, secretário paulista da Saúde no governo Jânio Quadros e homem de participação ativa na política rio-pretense

Divulgação José Luís Rey | jlrey@paginaimpar.com.br
José Luís Rey | [email protected]

Apresentado ao deputado em 1952, o rapaz de bigodes ralos, barbicha fina, cabelos negros e olhos esbugalhados, cumprimentou-o cordialmente e iniciou uma amizade de consequências históricas. Os dois conversaram a respeito de um projeto diligentemente elaborado pelo parlamentar, Mas que possuía reduzidas possibilidades de aplicação no Brasil - a reforma agrária. Despediram-se e o rapaz levou consigo uma cópia do projeto, que tentou inicialmente implantá-lo na Guatemala, onde havia tomado o poder o governo revolucionário de Jacob Arbenz. Vã tentativa: dois anos depois, um golpe militar derrubou Arbenz e rapaz teve que fugir para o México. Em 1958, o rapaz reapareceu em Sierra Maestra, Cuba, ao lado de Fidel Castro e Camilo Cienfuegos. Derrubada a ditadura de Fulgêncio Batista, ali implantou a reforma agrária esboçada pelo deputado brasileiro.

O rapaz se chamava Ernesto "Che" Guevara. O deputado era Joaquim Nunes Coutinho Cavalcanti, eleito deputado por Rio Preto para a Câmara Federal em duas legisladoras nos anos 50, secretário paulista da Saúde no governo Jânio Quadros e homem de participação ativa na política rio-pretense, onde em 1956 candidatou-se à Prefeitura, perdendo para Alberto Andaló. O tal projeto de reforma agrária de Coutinho Cavalcanti - seu mais importante trabalho parlamentar - previa basicamente o condicionamento do direito de propriedade à atividade econômica dos imóveis, a distribuição das propriedades e a eliminação de processos rotineiros na atividade agrícola, além da estabilidade e segurança dos não proprietários. Era a segunda proposta de reforma agrária apresentada no Brasil (a primeira foi do biano Nestor Duarte) e, dizem, acabou despertando a atenção de outros países socialistas além de Cuba, como a Checoslováquia, o Chile e o Peru. O trabalho de Coutinho Cavalcanti chegou a ser publicado no Brasil em um livro da coleção "Nossos Problemas", da editora "Autores Reunidos Ltda", editado em 1961, um ano após sua morte. Foi traduzido para o espanhol e distribuído em Cuba com uma dedicatória de Nuñez Gimenes, diretor do Instituto Nacional de Reforma Agrária de Cuba: "Al Doctor Coutinho Cavalcanti, a quiem la patria cubana debe las ideas de su reforma agraria".

Em 1959, o deputado visitou Cuba e acompanhou de perto a aplicação de seu plano que, no Brasil, jamais chegou a ser sequer analisado pelas autoridades.

Na política municipal, mantinha com Alberto Andaló um relacionamento alternado entre rompimentos e alianças durante a trajetória política de ambos. Andaló venceu quando o enfrentou nas urnas em 1956 e depois, aliados, decidiram apoiar a candidatura do também deputado Maurício Goulart à Prefeitura, mas este foi derrotado por Philadelpho Gouveia Neto. Pelas mãos de Coutinho Cavalcanti, uma outra figura importante da política rio-pretense ingressou no cenário: o mais tarde prefeito Adail Vetorazzo.

Se Coutinho Cavalcanti era exaltado pelos amigos, não faltava quem o criticasse pela atuação política e até mesmo quem desencadeasse campanhas contra a sua pessoa. Suas ideias socializantes na área da saúde e o projeto da reforma agrária custaram-lhe o rótulo de "comunista". Detalhes de seu apego pelas pessoas humildes eram capazes de encolerizar os amigos preocupados com suas finanças. Único médico com consultório estabelecido em Engenheiro Schmidt - lugar que só deixou quando mudou-se para Rio Preto para associar-se ao grupo de médicos que fundou o hospital Santa Helena - tinha a estranha mania de isentar os pacientes pobres do pagamento da consulta. Como sua mulher, dona Nair, cobrasse antes do atendimento, em muitos casos, ele devolvia o valor durante a consulta.

O mundo mudou!

José Luís Rey, Jornalista em Rio Preto, escreve quinzenalmente neste espaço aos domingos

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