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ARTIGO

Destinos iguais

Uma antiga antena de televisão serve de ponto de parada para várias espécies de pássaros


    • São José do Rio Preto
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A dupla Coração do Brasil, Tonico e Tinoco, gravou em 1947, em disco de 78 rotações, a música "Destinos Iguais". Composição de Ariovaldo Pires, mais conhecido como Capitão Furtado, e Laureano. A letra musical conta a história de um casal de canarinhos que trocavam juras de eternamente se amar. "Quando surge do meio da gaiada um gavião marvado, passa seu bico encurvado na canarinha e a levou. O canário, coitado, avuô desesperado, perseguindo a marfeitô. Dos zóio do canarinho eu vi moiado os cantinhos de chorar pelo seu bem. Uma dor foi me apertando, sem querer chorei tamém".

Na roça, à tardinha, meu pai sintonizava a rádio Bandeirantes de São Paulo para ouvir o programa "Na bêra da tuia", apresentado pela dupla e, toda vez que cantavam essa moda, meu pai cantava junto. Nunca lhe perguntei, mas penso que quando solteiro, a exemplo do canarinho, "argum gavião marvadu lhe robou um antigu amô". O velho ficava com os olhos marejados pelas lembranças.

Tenho em frente da minha casa um pé de ipê que plantei há quase 40 anos. Em seus galhos, pássaros fazem ninhos. De manhã, antes de o sol nascer, ouço verdadeira sinfonia vinda lá de fora. Nessa mesma árvore, um casal de sabiás fez seu ninho. Nesses tempos, ele passa quase que o dia todo cantando uma música melodiosa para seu amor. O coitado parece não ter um repertório formado. Fica horas a fio repetindo a melodia. Embora seu cantar seja maravilhoso, a esposa sabiá parece que se cansa do "disco furado" e, mais de uma vez, a vi deixar o ninho e voltar bem mais tarde, quase à noitinha. Penso que ela fica de longe esperando que ele cesse o gorjeio. Quando cessa, volta de mansinho, pousa no ninho e ali fica imóvel até no outro dia.

O Alcino, meu vizinho, fica extasiado com o cantar do bicho. Interessante é que o casal já tem filhos. Ano passado, vimos saírem do ninho filhotes que logo alçaram voos e, vez ou outra, apareciam para visita rápida e depois partiam. Os encontros foram raleando, até que nunca mais voltaram.

Num dos sobrados da rua, uma antiga antena de televisão no topo do telhado serve de ponto de parada para várias espécies de pássaros, inclusive de alguns gaviões carcarás.

Não ouvi o sabiá cantar pela manhã, como fazia há tempos. Antes de sair para o trabalho, ouço tocar o interfone. Era o Alcino. Saio pra atendê-lo. Abre uma das mãos, me mostra um punhado de penas. Pergunto o que é aquilo e, com voz embargada, me diz que assistiu aterrorizado e se sentiu impotente ao ver um dos gaviões atacar o sabiá na galhada do ipê. A sabiazinha tentou a todo custo salvar o amado das garras do malfeitor, mas de nada adiantou. E parecia que, de tanta dor, chorava, disse meu amigo. A exemplo da música, uma dor foi me apertando, sem querer chorei também.

Contei ao meu amigo a história do casal de canarinhos contada na canção da antiga dupla. Por sinal, sabiás e canários tiveram destinos iguais. Ainda triste pelo ocorrido, me perguntou: a vida imita a arte ou a arte imita a vida?

Jocelino Soares, Artista Plástico; diretor da Casa de Cultura Dinorath do Valle; membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura (Arlec)