Livros antigos e raros são vendidos a peso de ouroÍcone de fechar Fechar

LIVROS

Livros antigos e raros são vendidos a peso de ouro

Livros antigos e raros são vendidos a peso de ouro em livrarias especializadas em obras usadas; além da quantidade de exemplares, valores interno e externo podem influenciar no preço


    • São José do Rio Preto
    • máx 32 min 18

Um álbum Ilustrado da Comarca de Rio Preto, datado de 1929, é considerado um dos maiores registros sobre a região no século 20, com fotos dos irmãos Demonte. É um exemplo de obra que poderia estar em exposição em um museu, ou disponível para consulta em uma universidade. No entanto, o livro está ao alcance das mãos de quem estiver disposto a desembolsar a quantia de R$ 2,5 mil. 

Nos sebos de Rio Preto, livrarias especializadas em obras usadas, é possível encontrar algumas preciosidades que despertam a curiosidade. Nessa busca, não é difícil se deparar com alguns livros antigos que são vendidos a peso de ouro. O álbum Ilustrado da Comarca de Rio Preto faz parte do acervo do sebo Refúgio Cultural. "Esse é uma obra importante, além de ser um exemplar difícil de ser encontrado na cidade. Quem tem guardado na coleção não quer vender, por isso acaba tendo esse preço", explica José Carlos, proprietário da livraria.

O estabelecimento também a primeira edição do "Diário da Morte", obra que relata o martírio de Milton Terra Verdi e o cunhado Antônio Augusto Gonçalves, após a aeronave em que eles estavam cair em território boliviano na década de 60. O interessado precisa desembolsar o valor de R$ 500. Essas são obras que se tornam cada vez mais raras, pois deixaram de ser publicadas.

Mas existem aquelas que conquistam valor agregado, mesmo com publicações novas disponíveis no mercado. É o caso do exemplar da terceira edição de "Grande Sertão: Veredas", de João Guimarães Rosa, publicado em 1963, pela editora José Olympio. Uma das obras mais importantes da literatura brasileira, publicado pela primeira vez em 1956.

Disponível no sebo Torre do Tombo, o exemplar com capa e páginas desgastadas pelo tempo está sendo vendido por R$ 100, preço que representa quase o dobro do valor de um livro novo, atualmente editado pela Companhia das Letras. Maurieli Prudencio, a proprietária do estabelecimento, explica que muitas vezes a diferença no preço se dá por conta do valor extrínseco à obra. No caso da terceira edição de O Grande Sertão: Veredas, a ilustração da capa foi feita pelo artista curitibano Poty Lazzarotto (1924 - 1998). O mesmo desenho não está presente em edições mais recentes.

"A José Olympio foi a primeira editora a publicar a obra do Guimarães Rosa. Depois da morte dele, a família do escritor passou os direitos autorais para a editora Nova Fronteira. Isso não muda a importância da obra, mas apresenta uma diferença no valor dos exemplares, ainda mais por se aproximar da primeira edição", destaca Maurieli. A livreira também guarda um exemplar da segunda edição de "Felicidade Clandestina", de Clarice Lispector, oferecido por R$ 50.

Outra preciosidade que pode ser encontrada em Rio Preto é a versão original do livro "Dom Quixote de La Mancha", do escritor Miguel de Cervantes (1547 - 1616). Com 1.066 páginas, divididas entre os dois volumes, está disponível pelo preço de R$ 500. O tesouro de capa dura, ilustrada pelo artista francês Daniel Urrabieta (1851 - 1904), foi publicado em 1930. A obra está à mostra no Sebo do João, sob a guarda da proprietária Simone Meloze que conseguiu a relíquia depois de uma troca, em 2017.

"Quando adquiri o livro, já sabia da importância dele. Então, fiz uma pesquisa para saber o valor de mercado e encontrei exemplares sendo vendido por até R$ 800. Decidi baixar um pouco o preço para tentar comercializar, mas até gora não tive proposta. Mesmo assim, deixo ele em exposição para os clientes conhecerem, poder pegar na mão e folhear", conta Simone.

Mas, nem sempre um livro mais velho é necessariamente mais caro. A precificação de livros pode ser determinada levando em consideração três diferentes critérios: raridade, valor artístico e conteúdo, aponta o historiador e editor de livros, Lelé Arantes. "Obras difíceis de serem encontradas possuem maior valor de mercado. O segundo ponto que influencia no preço é o valor artístico, pois o livro pode ter uma ilustração diferente ou uma capa feita por um artista de renome, o que era muito comum nas primeiras décadas do século passado e que agrega valor ao livro", explica o especialista. Atualmente, com os recursos gráficos disponíveis, as editoras optam por contratar profissionais para desenvolver as ilustrações. "Além disso, existem obras valiosas devido ao conteúdo que está escrito e expresso dentro do livro. Muitas vezes são obras com poucos exemplares, e que, depois de lançado, deixa de ser publicado", conta.

Até chegar nas estantes das livrarias, muitos desses livros atravessam caminhos tortuosos. Alguns acabam nas lixeiras, descartados como itens sem nenhuma importância, destaca Arantes. "São livros que fizeram parte da biblioteca pessoal de pesquisadores e estudiosos, mas acabam se perdendo depois da morte de seus donos. As famílias acabam se desfazendo desses livros, sem saber da real importância deles".

Não apenas por conta do valor que uma obra possa atingir no mercado, todos são unânimes em relação da importância de cuidar e preservar obras que fazem parte da história. "Nós devemos preservar as coisas de valor que o ser humano produziu. O autor morre, mas a obra dele fica e se ninguém cuidar ou guardar essa obra, ela também desaparece. Livros e jornais são importantes fontes de pesquisa para termos informação de como as coisas eram. Por isso, é preciso guardar o máximo possível". finaliza Arantes.