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SER DOUTOR (3)

Série mostra o que a cidade tem para atrair tantos médicos

Não apenas quem é natural da região migra para Rio Preto para exercer a medicina; local é atrativo para doutores de outros estados, que se mudam para cá, formam família e criam raízes


    • São José do Rio Preto
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O cirurgião torácico Henrique Nietmann chegou a Rio Preto, vindo do Rio de Janeiro, há 15 anos. Por aqui, junto com a equipe, buscou por anos o credenciamento do Hospital de Base como centro de transplantes de pulmão. Hoje é um dos responsáveis pelo serviço, o único localizado no interior do Brasil - o restante está em São Paulo, Porto Alegre (Rio Grande do Sul) e Fortaleza (Ceará). Já foram feitas 16 cirurgias do tipo e em 2019 foram listados 14 pacientes na fila, mais que o dobro dos seis de 2018.

Nietmann é exemplo do que a terceira reportagem da série Ser Doutor traz: o que Rio Preto e região têm que atrai tantos médicos? Além dos profissionais que são daqui - quer tenham se formado fora ou nas faculdades de medicina locais - a área é um ímã para doutores de outras regiões. Isso faz com que por aqui aconteçam inovações em tratamentos e descobertas de terapias, não só para a área privada, mas também no SUS. 

Rio Preto é a região do Estado que registrou maior crescimento no número de médicos em 18 anos. De 2.591 profissionais em 2000, foi para 5.195 em 2018, segundo dados da Fundação Seade. Proporcionalmente, a região tem 3,3 médicos por mil habitantes, ocupando a terceira posição estadual nesse quesito - atrás de Ribeirão Preto e São Paulo. O número é mais do que o triplo do recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS), de um doutor a cada mil pessoa.

O cirurgião Nietmann veio para cá porque a esposa, a endocrinologista pediátrica Priscila Fusco Costa Nietmann, é da região. Ambos estudaram medicina na Fundação Educacional Serra dos Órgãos, em Teresópolis, no Rio de Janeiro. "Na hora que a gente foi fazer as provas de residência, sabia do potencial que era Rio Preto, pelo nome que o Hospital de Base já fazia. Resolvemos prestar e juntamos as duas coisas: a proximidade com a família dela e a capacidade do HB absorver essas pessoas", conta.

Para ele, Rio Preto possui uma capacidade natural de crescimento na área médica. Os pacientes procuram a região por seus hospitais e serviços. Ele cita o local onde trabalha. "Dá para a gente condições boas, você consegue fazer uma medicina pública de alta qualidade, isso faz com que a gente tenha vontade de desenvolver novos trabalhos. Muitas vezes a pessoa até procura outros lugares para ganhar melhor, mas nem sempre melhor salário significa trabalhar em condições melhores", considera. "No meu caso a gente conseguiu montar um programa de transplante de pulmão aqui em Rio Preto, que é uma coisa que não existe mais em nenhuma outra cidade do interior do Brasil, são situações que só acontecem quando você tem uma estrutura para trabalhar."

O cirurgião defende que não há limites para o desenvolvimento de Rio Preto. "Tem local para trabalhar, tem coisa para aprimorar. Se você estiver disposto a se dedicar e fazer um trabalho diferenciado tem espaço. Não tem espaço para fazer a mesma coisa que todo mundo. Quem quer fazer algo realmente diferenciado, que exija uma formação diferenciada, eu acho que vale a pena", considera.

Nivaldo Fernandes de Almeida, morador de Catanduva de 57 anos, foi um dos beneficiados pelas inovações na área médica em Rio Preto. Em setembro do ano passado, passou por um transplante bilateral de pulmão e no último mês pôde brincar de bola pela primeira vez com o filho Artur, de 11 anos, além de ter matado a saudade de dar voltas de bicicleta.

O enfisema pulmonar que levou à cirurgia foi diagnosticado em 2002, provocado pelo cigarro, que fumou até 2005, quando ficou 60 dias internado na UTI do Hospital de Base, com sonda, e precisou de uma traqueostomia. "Foi um longo período para recuperação", lembra. Depois, foram anos longe dos corredores de um hospital, até 2016, pois um ano antes a doença começou a se manifestar de forma mais agressiva. "Constantemente estava tomando antibiótico, com baixa imunidade, pegava gripe com facilidade. Em 2018 comecei a usar oxigênio de dia e à noite, foi quando a minha médica aqui de Catanduva conversou comigo a respeito do agravamento da doença, perguntou se eu não queria entrar na fila do transplante."

Nivaldo foi então encaminhado ao HB e passou por uma bateria de exames. Em 1º de março de 2019 assinou o documento em que concordava em começar oficialmente a espera. "Graças a Deus, com a bênção do Senhor, no dia 7 de setembro por volta das 14h eu recebi uma ligação que tinha um órgão disponível", recorda.

Ele hoje é pura gratidão a toda a equipe que o atendeu desde o começo, que permitiu um recomeço. A cirurgia correu tão bem que ficou cinco dias na UTI, quando o esperado era que permanecesse pelo menos dez; os pacientes costumam acordar no mínimo no terceiro dia após a operação, na mesma tarde Nivaldo já havia despertado. "Eu praticamente vivia no oxigênio, tinha que tomar banho sentado e precisava de auxílio da minha esposa e do meu filho para enxugar as penas e para trocar de roupa. Não estava mais dirigindo. É um milagre. Só quem realmente passa ali pode dizer, o atendimento é maravilhoso desde o início, em nenhum momento deixei de ser acompanhado pelos cirurgiões, não tem palavras para descrever o tamanho do empenho, o comprometimento, a parte humana."

 

Guilherme Baffi

Não são só os hospitais que atraem mão de obra médica em Rio Preto, que conta com grandes clínicas e empresas que trazem pesquisas e inovações na área. O cardiologista Victor Rodrigues é de Juiz de Fora (Minas Gerais), fez faculdade em Petrópolis (Rio de Janeiro) e aterrissou em Rio Preto em janeiro de 2007 para fazer residência na Braile Biomédica. "O meu chefe conhecia o doutor Braile (Domingo Braile, médico fundador da empresa), conhecia a cidade e o serviço. Ele recomendou que eu viesse fazer a residência e voltasse para o Rio para trabalhar. Pesquisei sobre o serviço e percebi que em Rio Preto poderia aprender cardiologia com a mesma capacitação técnica que as grandes capitais oferecem, mesmo morando no interior", conta Rodrigues.

O cardiologista dispensou a residência da Santa Casa de Belo Horizonte, do Instituto de Cardiologia de Laranjeiras, no Rio de Janeiro, e na Beneficência Portuguesa de São Paulo para vir para Rio Preto. Acontece que nunca mais voltou para a capital fluminense - a mulher, Priscila, chegou um mês depois ao interior Paulista, e os dois tiveram uma filha, Isabela. Por aqui, Rodrigues encontrou o que buscava quando entrou na faculdade: praticar a melhor medicina possível. "Percebi que o meu serviço e a cidade me possibilitavam praticar uma medicina de ponta, em algumas situações até melhor do que nas grandes capitais. Não vi motivos para sair daqui para ir a lugar nenhum."

Atualmente atendendo na Braile e na Beneficência Portuguesa, ele lembra que os pacientes buscam os médicos sempre em busca do melhor tratamento. "E a cidade pode oferecer. E além disso: tratamentos pioneiros e inovadores, que muitas vezes não estão disponíveis na maior parte dos hospitais do Brasil e a gente tem à disposição aqui na nossa cidade."

Rodrigues diz que já teve propostas para ir embora para outros lugares mas declinou. "Não me possibilitariam exercer a minha profissão com tudo que ela pode oferecer em avanços médicos. a medicina avança na parte de biotecnologia de forma muito rápida e a cidade consegue acompanhar esses avanços e possibilitar para os médicos e pacientes algo que é difícil encontrar na maior parte dos serviços: estudos científicos, novas propostas de tratamento não só na minha área, mas em todas. Isso é muito atraente."

Ricardo Medeiros Filho, 39 anos, chegou a Rio Preto em 2001, um pouco mais cedo na carreira, ainda para cursar medicina na Famerp. Ele veio de Batatais, cidade próxima a Ribeirão Preto. Depois de se formar, ficou por aqui para a residência em ginecologia e obstetrícia e hoje atende em seu consultório particular e na Santa Casa. "Durante a residência comecei a trabalhar como plantonista em alguns lugares, inclusive na Santa Casa de Rio Preto, fui contratado para trabalhar na Prefeitura e como o hospital foi me dando oportunidades e a vida foi se desenvolvendo, acabei ficando por aqui. É uma cidade que dá muita oportunidade para os médicos, principalmente para quem atende SUS. Você consegue dar um atendimento de qualidade para esses pacientes." (MG)

 

Além de referência regional e nacional para atendimento, Rio Preto é um polo de estudos científicos. O Centro Integrado de Pesquisas (CIP) do Hospital de Base atua na busca de terapias nas áreas de, por exemplo, cardiologia, cirurgia vascular, dermatologia, fisiatria, infectologia, reumatologia e urologia. 

João Daniel Guedes, de 41 anos, nasceu em Macapá, no Amapá, e se tornou médico na Universidade Federal do Pará. Depois, atuou no Exército e no Rio de Janeiro. Veio para Rio Preto porque a esposa, a psicóloga Lara, escolheu a cidade para uma segunda especialização - ela participou da residência multiprofissional da Famerp. "Pesquisei um pouco sobre a universidade, já havia conhecido uma médica que tinha me falado da faculdade. achei que seria também uma boa opção fazer minha residência aqui. Fiz oncologia", relata o médico.

Atualmente, Guedes atua com pesquisa clínica em oncologia. "Apesar de ser um hospital escola e predominantemente público, a estrutura é diferenciada comparada a outros hospitais públicos universitários."

O médico, que está fazendo mestrado, avalia que existe um grande potencial de carreira em Rio Preto. "Tem uma oferta de serviços muito grande, é um polo regional, então outras cidades acabam vindo para cá." Por enquanto, não há nenhuma pretensão de ir embora - a família se formou aqui, com o nascimento da filha, Odívia.

Guedes também vislumbra possibilidade de avanço. "Há bastante campo em determinadas áreas para desenvolvimento, criação de centros grandes, aqui há pessoal capacitado e know how que não deixam a desejar para outros centros. A oncologia só tem avançado", pontua.

Prova disso é Marcos, aposentado de 59 anos e morador de Rio Preto, que teve um câncer de pele do tipo melanoma, o mais agressivo, diagnosticado em fevereiro de 2018. O tumor estava na axila. "Foi feita uma cirurgia e depois fiz 13 infusões no Centro Integrado de Pesquisas", conta.

O medicamento permitiu que não fosse necessário realizar as quimioterapias nem radioterapias tradicionais, mais agressivas. "Os médicos são excelentes. Foi tudo tranquilo, sem reação nenhuma. Faço exame a cada três meses e pelo diagnóstico não tenho mais nada", conta. (MG)

Os hospitais de Rio Preto

  • Austa
  • Beneficência Portuguesa
  • Hospital da Criança e Maternidade (HCM)
  • Hospital de Base
  • Hospital de Olhos Redentora
  • Hospital de Olhos Rio Preto
  • Hospital Psiquiátrico Adolfo Bezerra de Menezes
  • Santa Casa de Misericórdia
  • Santa Helena

A rede de saúde municipal (básica e especialidades)

  • 27 unidades básicas de saúde
  • 5 unidades de pronto atendimento
  • Centro Médico de Especialidades
  • Hospital Dia
  • Laboratório Municipal

Pesquisa e inovação (além dos hospitais)

  • Braile Biomédica
  • Centro Integrado de Pesquisas (CIP), ligado à Funfarme
  • Faceres
  • Faculdade de Medicina de Rio Preto (Famerp)
  • Unilago

Médicos por mil habitantes (por cidade, em 2010)

  • Santos - 6,35
  • Botucatu - 6,19
  • Ribeirão Preto - 6,04
  • Presidente Prudente - 4,44
  • Rio Preto - 5,04

Aumento do número de médicos por região (entre 2000 e 2018)

  • Ribeirão Preto - 66,4%
  • São Paulo - 70%
  • Rio Preto - 100%
  • Estado - 75%

Fonte: Fundação Seade