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SÉRIE

Na 'meca' dos médicos, falta de especialistas na rede pública

Rio Preto tem mais que seis vezes o número de médicos recomendado pela OMS; Apesar do grande número, no entanto, ainda faltam especialistas para atender a população na rede municipal


    • São José do Rio Preto
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A região de Rio Preto é a que mais atraiu médicos nos últimos 18 anos, conforme dados da Fundação Seade. É reconhecida pela sua medicina de alta qualidade, inclusive no SUS - aqui acontecem pesquisas pioneiras de que participam pacientes da rede pública, grande número de transplantes e as pessoas têm acesso a tratamentos de alta complexidade, como a câmara hiperbárica. Apenas a maior cidade do Noroeste paulista conta com 2.911 doutores, 6,6 a cada grupo de mil habitantes - a recomendação da Organização Mundial da Saúde é que haja um médico a cada mil pessoas.

Desse total, pelo menos 1.661 atendem pelo SUS pela rede municipal, nas unidades básicas e de pronto atendimento; no Ambulatório Médico de Especialidades e no Hospital João Paulo II; nos hospitais da Funfarme (incluindo o Hospital de Base e o Hospital da Criança e Maternidade) e na Santa Casa, para onde vão não apenas pacientes de Rio Preto, mas também da região inteira - são 1,2 milhão de pessoas.

A segunda reportagem da série "Ser Doutor", sobre a atratividade que a região exerce sobre os médicos, mostra que, apesar do grande número de profissionais, a cidade ainda enfrenta a falta de especialistas - e geralmente essa deficiência está nas especialidades mais bem remuneradas pela iniciativa privada e com quem é difícil conseguir consulta até pelo convênio. 

Eliane Mara de Lima, dona de casa de 50 anos, conta que demorou três meses para acontecer a consulta da mãe Izaura Mechi de Lima, de 74 anos, com um ortopedista. Para a família, o tempo até que foi curto, diante de outras situações. "Oftalmologista demorou oito meses, mais ou menos. Ela tem muita dor, já fez cirurgia de fêmur, fraturou a bacia, então a gente quer agilizar, fazer esses exames para ver o que o médico pode fazer por ela, para melhorar a vida dela", diz Eliane. "Não tem condição de pagar, é muito caro."

Gargalos

A Secretaria de Saúde admite a falta de especialistas e diz que os maiores gargalos estão em oftalmologia, cardiologia, otorrinolaringologia, dermatologia e neurologia. De acordo com o secretário Aldenis Borim, o tempo de espera varia de 30 dias a três meses, mas os pacientes prioritários - com suspeita de tumores, por exemplo - são agendados para consultas na mesma semana no Centro Médico de Especialidades (CME), no Plaza Avenida Shopping. 

Dos 568 médicos que atendem pela prefeitura - sendo 149 contratados pelo próprio município e 419 por meio de convênio com a Funfarme, do Hospital de Base -, 125 são plantonistas clínicos e 54 são clínicos gerais. A rede conta com 12 oftalmologistas, 17 cardiologistas, três otorrinos, nove dermatos e 13 neurologistas. Outras especialidades, com menor demanda, contam com menos doutores ainda: há apenas um acupunturista, um alergista e um cardiologista pediátrico, por exemplo. 

Nair Modenes Martins, de 78 anos, passou pelo otorrino nesta sexta-feira, 3, após dois meses de espera pela consulta. "Eu tive dor de ouvido faz quase 20 anos, agora tempos atrás voltou, tenho um barulhão na cabeça. Dia 7 de fevereiro tenho consulta com ortopedista, que tenho osteoporose, esse está demorando mais, porque fiz os exames antes."

Joaquim José de Matos passaria nesta sexta-feira, 3, pelo otorrinolaringologista, cuja consulta foi agendada em setembro. "Tenho problema no ouvido, dá aflição, a pessoa fala e a gente escuta, mas não entende. Não é fácil essa demora. Se tiver que morrer, morre."

Alaí Soares Barbosa, aposentada de 69 anos, estava no Centro Médico para passar com um vascular. "Demorou dois, três meses para marcar. Faço acompanhamento no postinho do Jaguaré e preciso de neurologista porque estava andando e caindo na rua, minha irmã me levou ao postinho e depois me trouxe aqui. Vim no retorno, cheguei e ele não me atendeu, tive que voltar. Parei de cair porque ele me passou um remédio e eu continuo bebendo", relata.

O secretário Aldenis Borim acredita que o que leva grande parte dos médicos para a rede privada em detrimento do SUS são os rendimentos. "O que atrai muitos médicos para Rio Preto é a qualidade da medicina especializada e o sistema público de saúde é mais generalista, é a porta de entrada", afirma. Os concursos realizados pelo poder público apresentam concorrência pequena e um dos principais motivos para isso são os salários, considerados baixos pela categoria.

Quem foi aprovado no último vai ganhar R$ 4,1 mil mais gratificação de produtividade que pode chegar a R$ 3,8 mil mais auxílios saúde e alimentação por 20 horas de trabalho. Por 40 horas são R$ 8,2 mil mais gratificação e benefícios. "Nossa maior dificuldade na especializada é onde as especialidades são mais bem remuneradas. Neuro, por exemplo, é uma dificuldade porque é muito bem remunerada no mercado externo. Nossos gargalos refletem essa parte financeira."

Médicos em Rio Preto

  • 2000 - 1.572
  • 2010 - 2.054
  • 2018 - 2.911

Médicos por cada grupo de mil habitantes

  • 2000 - 4,39
  • 2010 - 5,04
  • 2018 - 6,6

Rede municipal

  • Contratados pela Prefeitura - 149
  • Contratados via convênio com a Funfarme - 419

Hospitais gerais públicos

  • Ambulatório Médico de Especialidades e Hospital João Paulo II - 220 médicos - Todos atendem apenas SUS
  • Funfarme (que inclui Hospital de Base e Hospital da Criança e Maternidade) - 587 residentes e 526 contratados - 70% desse montante atendem SUS 
  • Santa Casa - 220 contratados - Todos atendem SUS e pacientes da rede particular

Fontes: Fundação Seade, Hospital de Base, Secretaria Municipal de Saúde e Santa Casa