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BRINCADEIRA DE MAU GOSTO

Sumiço dos orelhões faz cair número de trotes

Com menos telefones públicos, as chamadas fakes caíram. Mas muita gente ainda pratica a "brincadeira": serviços de emergência atendem, em média, a cinco chamados falsos por hora


    • São José do Rio Preto
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Rio Preto

O sumiço dos orelhões em Rio Preto fez com que caísse o número de trotes aplicados contra os serviços de emergência da cidade. Entre 2018 e 2019, diminuiu em 20,2% o número de trotes aplicados nas linhas da Polícia Militar, do Corpo de Bombeiros e do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). Notícia positiva, mas esse tipo de "brincadeira" continua a prejudicar o atendimento de quem realmente necessita de socorro. Apenas no ano passado, foram contabilizados 40.191 trotes, média de 110 registros de ligação falsa por dia. Em contrapartida, em 2018, foram 50.384 registros.

O paralelo entre a queda do número de trotes e o sumiço dos orelhões pode ser feito por meio da observação dos dados estatísticos e da constatação feita pelos profissionais que atuam nos serviços de emergência. De acordo com dados da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), em 2005 havia 3.895 telefones públicos em Rio Preto. Em 2020, são apenas 526, sendo que 26 estão em manutenção. A explicação da diminuição dos orelhões não está apenas no desuso dos aparelhos com o advento dos smartphones, mas também em decreto assinado em 2018, que permitiu às concessionárias desativarem a maioria dos aparelhos.

"Hoje, o pessoal sabe que conseguimos rastrear o número e fica gravado. Antigamente, com o orelhão, as pessoas ficavam meio que blindadas disso", lembra o coordenador do Samu, Clemente Pezarini Junior. Ele diz que com o passar dos anos houve queda no número de trotes com histórias falsas, onde o interlocutor dizia que havia sofrido um acidente e, quando o resgate chegava ao local, não tinha nada. "O que existe é o mesmo número ligando cinco vezes e o solicitante não fala nada. Não tem muito hoje esse trote de inventar uma história da pessoa passando mal."

Outros fatores, contudo, podem ser elencados para explicar a queda. "O fato de, hoje em dia, as crianças e adolescentes terem outras distrações. Percebemos que ainda tem um ligeiro aumento dos trotes nas férias, mas hoje as crianças têm outras diversões no celular, como joguinhos e os vídeos da internet", diz o capitão Rafael Henrique Helena, do Comando de Policiamento do Interior (CPI-5).

O campeão do número de chamados atendidos e, consequentemente, de trotes recebidos na região é o Centro de Operação da Polícia Militar (Copom), que atende Rio Preto e outras 95 cidades do Noroeste paulista. De acordo com dados fornecidos pela corporação, foram pelo menos 800 mil chamados atendidos no ano passado, com uma estimativa de 37,2 mil trotes recebidos. A Polícia Militar informou ao Diário que não pode fornecer o número exato de ligações desse tipo recebidas, mas que 5% são trotes.

"Lembro que tivemos um caso curioso alguns anos atrás, de uma pessoa que ligou dizendo que estava acidentada no meio da pista. Foi bombeiro e a polícia no local, inclusive com o grupamento aéreo para achar ele no meio da mata. Mas era falso. A pessoa foi identificada e levada para delegacia", conta o capitão Rafael. "Ressaltamos a importância de usar de forma racional o 190", reforça o policial.

Punição

Quem for identificado ou flagrado passando trote para números de emergência pode ser investigado pela polícia e responder criminalmente. Uma infração penal de falsa comunicação, prevista no Código Penal Brasileiro, pode ser aplicada e o autor pegar até seis meses de detenção. As corporações, no entanto, revelam dificuldades na investigação dos infratores.

Em Rio Preto, uma lei municipal de setembro de 2017 prevê multa de R$ 288,75 ao proprietário de linha telefônica ou ao responsável pelo acionamento indevido dos serviços telefônicos de atendimentos a emergência. Em caso reincidência, o valor passa para R$ 577,50. E ainda há o risco de detenção.

O tenente do Corpo de Bombeiros Diego Moraes Silva Machado ressalta que a brincadeira de mau gosto pode chegar a custar uma vida. "O trote causa uma série de prejuízos, todos com reflexos diretamente à população, sendo que o pior deles é quando uma pessoa realmente necessita de um atendimento e a equipe que deveria socorrê-la foi deslocada para a verificação de um trote; sem contar que a linha de emergência 193 fica sobrecarregada, prejudicando o atendimento imediato a outros solicitantes", afirma.

Samu Rio Preto

Em 2018

  • 132.512 chamados
  • 6.036 trotes

Em 2019

  • 131.845 chamados
  • 1.800 trotes

Polícia Militar - Copom do Comando de Policiamento do Interior 5 (96 cidades)

Em 2017

  • 1.014.968 chamados
  • 50.748 trotes (estimativa)

Em 2018

  • 852.709 chamados
  • 42.635 trotes (estimativa)

Em 2019

  • 745.260 chamados
  • 37.263 trotes (estimativa)

Corpo de Bombeiros - 13° Grupamento de Bombeiros

Em 2018

  • 342.627 chamados
  • 1.713 trotes (estimativa)

Em 2019 (janeiro a novembro)

  • 225.664 chamados
  • 1.128 trotes (estimativa)

Prejuízos causados pelos trotes

  • O trote telefônico aos serviços de emergência pode gerar diversos prejuízos, sendo o maior deles a mobilização desnecessária do aparato policial e de resgate em detrimento da necessidade de outras pessoas que de fato precisam do atendimento emergencial. Por isso, os pais devem estar atentos, evitando que crianças e jovens usem o telefone para a prática do trote.

Uma vítima em estado grave com parada cardíaca precisa de socorro em um bairro de Rio Preto, mas quando a viatura chega ao local ninguém é localizado. O pedido de resgate não passava de um trote. Em outro caso, um incêndio em uma residência na região rural de Talhado provocou uma correria para chegar a tempo para apagar o fogo e até salvar possíveis vítimas; o esforço foi em vão, no entanto, já que esse chamado também era falso.

Com o intuito de prevenir esses casos, os serviços de emergência da cidade têm desenvolvido projetos nas escolas. O Samu, por exemplo, desenvolve palestras em instituições de ensino da cidade, com o objetivo de conscientizar os pequenos. "Temos o Samuzinho nas escolas, onde as enfermeiras orientam as crianças para não aplicarem trotes e sobre quando utilizar o telefone do Samu", diz o coordenador do serviço de emergência, Clemente Pezarini Junior.

Apenas o Samu de Rio Preto, que atende a cidade e mais 31 municípios da região, recebeu 1,8 mil trotes em 2019. Um dos casos que chamaram a atenção dos socorristas aconteceu em 2018, quando um mesmo número realizou pelo menos mil chamadas em três dias. Em todas as ligações, o autor do outro lado da linha não falava nada, apenas ficava em silêncio. Assim que a equipe desligava, a pessoa retornava a chamada. Após o autor ser identificado, foi aberto um boletim de ocorrência.

Para o capitão Rafael Henrique Helena, do comando de Policiamento do Interior (CPI-5), o mais importante é que os pais orientem os filhos a respeito dos telefones emergenciais para que façam o uso correto. "No caso de crianças que passam trote, em boa parte das vezes é sem o consentimento do pai. Mas que nos preocupa mesmo é o trote feito pelo adulto de forma dolosa, onde é feito o emprego da viatura, isso é um prejuízo enorme, porque pode custar uma vida. Essa viatura que foi no trote poderia evitar um crime", pontua. (RC)