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PROJETO

Programa educa envolvidos em casos de violência contra a mulher

Projeto da Justiça Restaurativa em Rio Preto acolhe homens envolvidos em casos de violência contra a mulher, na tentativa de alterar o comportamento agressivo e interromper a sequência de crimes;


    • São José do Rio Preto
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"Chegamos destruídos, sem crédito nenhum e fomos acolhidos não para apontar nossos defeitos, mas para clarear nossas qualidades e restaurar". As palavras são de Edvaldo (nome fictício), acolhido pelo projeto MAN (Masculinidades: Ampliando a Natureza) criado pelo Judiciário de Rio Preto, em agosto de 2019, com a participação inicial de 40 homens, para restaurar autores de violência contra a mulher e a família. Segundo a Delegacia de Defesa da Mulher (DDM), de janeiro de 2019 até o dia 10 deste mês, foram 1.229 medidas protetivas emitidas para proteger mulheres da violência física e psicológica.

Edvaldo faz parte dessas estatísticas de agressores por violência doméstica e chegou ao projeto por determinação do juiz da Vara da Infância e Juventude, Evandro Pelarin - a Infância é um dos três caminhos de acesso ao projeto. Dependente de álcool e cocaína e com uma ficha extensa de conflitos familiares e violência psicológica contra a esposa e a família, ele chegou a ser preso pela polícia depois de agredir uma das filhas adolescentes.

No primeiro encontro do MAN foi o momento da liberação de angústias e desabafo em um processo chamado pela neurociência de descompressão. Nesse dia, Edvaldo conta que percebeu que não era o único que precisava de ajuda. "Comecei a participar, vi os outros homens, ouvi os relatos também de brigas com as esposas, com as famílias, com os filhos e, como eu, a maioria brigava porque não sabia conviver com o próximo", conta.

A partir da segunda roda de conversa foi a vez das dinâmicas, brincadeiras, questões provocativas sobre gênero e autorreflexão. Todo esse trabalho coordenado pela Justiça Restaurativa, ligada à Infância e Juventude, acompanhado pelo Anexo da Violência Doméstica e Familiar e executado por quatro homens: os psicólogos Marcus Vinicius Gabriel e Guilherme Rocateli, o diretor do cartório da Infância, César Fucassaw, e o estudante de Direito, Emanuel Oliveira.

Em dois meses e meio, com encontros semanais, sempre focados na questão da masculinidade, foram nove rodas de conversas e um processo circular no último encontro. "Ajudou a conhecer melhor o mundo da mulher e a gente mesmo também para saber comunicar melhor com o próximo", disse Edvaldo. "O ser humano cria o costume de machucar o mais próximo e lá a gente aprendeu a tratar todos iguais."

O aprendizado de Edvaldo é compartilhado também por Hugo (nome fictício). Ele passou três meses preso e hoje enfrenta uma medida protetiva por conta de agressões contra a ex-mulher. Encaminhado ao MAN pelo Anexo, Hugo conta que o grupo o transformou. "Hoje me vejo uma pessoa bem melhor. Se eu tiver um relacionamento será livre, sem ciúmes, sem pressão, sem discussão e sem briga. O grupo foi nota mil", disse.

Estratégias

A estratégia do grupo é acolher o homem agressor e, mediante um "papo reto", fazer com que eles se atualizem sobre a importância da igualdade de gênero para uma sociedade mais justa. Para isso a estratégia foi criar o grupo com apenas voluntários homens, no sentido de deixar os acolhidos à vontade. "É uma conversa de bar, mas sem cerveja. A estratégia é deixar ele mais abertos", diz o estudante Emanuel Oliveira.

O resultado esperado é de homens desconstruídos e atualizados. "Eu acho que os homens têm de procurar se atualizar, porque são meio ogros, têm que mudar a cabeça, o pensamento, e ver que a mulher é sua companheira e não seu objeto", afirma Hugo, um dos acolhidos pelo projeto.

Para ele, o homem atual, em sua maioria, está atrasado. "Precisa ver que estamos agindo errado. Até 2000 vivia de um jeito e não se atualizou. Não aceitam a independência da mulher", afirma. "E eu falo para todos os homens aproveitar esse momento, que tenham essa consciência e bola para frente", disse.

O MAN é uma parceria entre a Vara da Infância e Juventude e o Anexo da Violência Doméstica e Familiar. Segundo dados de 2016, 68% das denúncias de violência contra mulher envolvia vítimas com filhos. O levantamento da Justiça Restaurativa ainda mostra que 83% desses filhos presenciaram ou sofreram violência junto com a mãe. Daí a importância da integração dos departamentos.

"Para nós (Infância) é importante que esse homem seja atendido e conscientizado", afirma o juiz da Infância e coordenador do núcleo da Justiça Restaurativa, Evandro Pelarin. "Essa parte de recuperar o ser humano tem tudo a ver com a Infância, é uma decorrência da lei", ressalta.

Diferentemente do Anexo, que lida com crimes de agressão, a Infância lida com negligência. E é uma porta de entrada de denúncias da violência contra a mulher. "Às vezes chegam casos que a mulher não tinha levado para a polícia", completou o juiz.

A Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) também atua nas duas frentes. Para a delegada Dálice Ceron, o projeto vem como uma forma de tratar o outro lado da violência. "O trabalho sempre foi voltado para a mulher, mas entendo que todos têm que ser tratados", afirma. "O homem que tem que ser desconstruído nessa ideia machista e retrógrada que ele recebeu", finalizou. (FP)

 

Medidas Protetivas

  • 1.189 medidas protetivas expedidas entre janeiro e dezembro de 2019
  • 40 do dia 1º de janeiro de 2020 até as 12h de sexta-feira, dia 10

O MAN

  • O Masculinidades - Ampliando a Natureza (MAN) é um programa voltado para homens investigados ou sentenciados por violência doméstica contra mulher e familiar
  • Objetivo - trabalhar na causa do comportamento violento para transformar e restaurar o homem para o diálogo e melhor convivência social. Desconstruir a cultura conservadora e machista sobre a posição da mulher na sociedade, atualizar esse homem para melhor compreensão sobre a independência e empoderamento da mulher.
  • Contato - os homens são encaminhados pela Vara da Infância e Juventude, pelo Anexo da Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, e também por meio de convite da equipe voluntária do projeto
  • Atendimentos - o projeto prevê dez encontros - nove rodas de conversas e um processo circular. Os encontros começam com momento de desabafo, continuam com perguntas provocativas e reflexivas até um balanço dos trabalhos realizados

Fonte: DDM e Justiça Restaurativa

O Masculinidades: Ampliando a Natureza (MAN) atende ao artigo 30 da Lei Maria da Penha e ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), a partir da premissa da Justiça Restaurativa: trabalhar o transgressor e restaurá-lo enquanto ser humano. "Homens que relatam que os pais agiam assim, que foram criados dessa forma, um modelo (de educação e cultura) dos anos 70 e 80 que não cabe mais aos tempos de hoje", afirma César Fucassawa, diretor do cartório da Infância.

Segundo Marcus Vinicius, psicólogo voluntário do projeto, os homens chegam ao grupo em um emaranhado de pertubações. "Conflitos individuais, sociais, de relacionamento conjugais e familiares. Nem sempre (o agressor) é mau caratismo, muitas vezes são pertubações e usam a violência como linguagem para expressar", explicou.

O perfil, segundo a assistente social da Justiça Restaurativa Sueli Aparecida Lopes, é bem variado. "De trabalhadores, a empresários até um morador de rua", disse. Embora sejam de camadas sociais diferentes têm em comum uma visão de mundo retrógrada, segundo Fukassawa. "Homens que 'vivem' no século 20", disse. "Mas aqui eles podem se atualizar para que possam se relacionar com a independência da mulher, com o feminismo e tomar essa consciência", disse.

O estudante de Direito Emanuel Oliveira pondera ainda sobre a importância da restauração da autoestima desses homens. "O empoderamento feminino deixou o homem confuso e inseguro. Daqui eles saem com a autoestima melhorada", observou. (FP)