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ENTREVISTA

Domingo Marcolino Braile: um coração pulsante

Um dos mais importantes cardiologistas do Brasil, o rio-pretense de 81 anos fala sobre a sua vida e obra

Aos 81 anos de idade, o cirurgião Domingo Marcolino Braile é um símbolo para Rio Preto; sua figura remete ao coração. Não só pela especialidade que ele ajudou a desenvolver na cidade, no Brasil e no mundo. Não só pela indústria de produtos para cirurgia cardiovascular que ele fundou e que leva produtos com sua marca, Braile, de Rio Preto para mais de 50 países. Domingo é a personificação do escarlate, da pulsação. É feito a poesia do russo Vladimir Maiakovski, "o poeta da Revolução":

Nos demais,

todo mundo sabe,

o coração tem moradia certa,

fica bem aqui no meio do peito,

mas comigo a anatomia ficou louca,

sou todo coração.

Para essa entrevista, encomenda especial da revista Vida & Arte, tivemos uma nova e boa conversa. Aliás, um dedo de prosa com Domingo Braile apura e aperfeiçoa o nível de conteúdo de quem gosta de bons conhecimentos. É experiência das mais ricas. A seguir, um pouco mais do seu jeito e do seu coração.

V&A - Vamos começar pela sua biografia, "A Céu Aberto", a história de Domingo Braile, o consertador de corações. A noite de lançamento está sendo considerada a de maior público, a mais prestigiada da história de Rio Preto. Como o Sr. recebeu essa informação?

Domingo Marcolino Braile - Com enorme alegria. Assisti a muitos vídeos, acompanhei as publicações, vi muitas fotos, me emocionei em reconhecer tantos e bons amigos e familiares no restaurante Varanda do Quinta do Golfe naquela noite do dia 22 de novembro. Eu não tinha condições de ir. Sigo acamado, ainda em recuperação. E, bem naquela semana, passei por uma pneumonia da qual já me livrei. Mas havia um totem meu lá, de papelão, uma ideia divertida, original. As pessoas me abraçavam, falavam comigo, faziam fotos. Senti a energia, o carinho e o amor de todos. Além disso, você, a autora estava lá autografando e as minhas filhas, genros e netos recebendo a todos com muito afeto. Maria Cecília (esposa) quis ficar comigo. Acompanhamos de longe. Mas, na verdade, meu coração esteve lá o tempo todo e pulsou ainda mais forte aquela noite. A generosidade das pessoas comigo é enorme, só tenho gratidão.

V&A - A que o Sr. atribui esse sentimento das pessoas, esse afeto que se percebe genuíno, principalmente da população de Rio Preto pela sua vida?

Braile - Me dediquei de coração a Rio Preto. Sem intenções políticas, sem interesses particulares. Apenas pus meu coração aqui e lutei forte para que coisas boas acontecessem em nossa cidade. Sempre afirmei que as pessoas vão gostar de morar onde há bons empregos, desenvolvimento e consequentemente, boa qualidade de vida. Por isso decidi fazer cirurgia do coração em Rio Preto. Por isso lutei tanto para que a cidade tivesse sinal de televisão, uma excelente escola de pilotos, conquistasse uma faculdade de medicina e um curso de pós-graduação, e também uma fábrica de tecnologia a serviço do coração. Trabalhei muito. Tentei inventar o futuro. Antecipar a realidade do que Rio Preto se tornou hoje, e que me orgulha sobremaneira. Tive sempre a parceria e o esforço de pessoas maravilhosas, que sonharam meus sonhos. Esposa, filhas, genros e netos. Amigos do começo, da criação do IMC. Profissionais espetaculares que se juntaram a nós nessa empreita para fazer Rio Preto uma das melhores cidades para se viver hoje no Brasil. Exercício de futuro é isso: você começa e tudo vai acontecendo, cada movimento que você faz gera uma necessidade que vai te levando para frente, para outras situações. Assim acontece o progresso e se dá a evolução. Tem que começar, não postergar, não ter preguiça. Ter sonhos e fé.

V&A - Fé eu sei que o senhor tem. E muita. E sonhos, tem algum que ainda não aconteceu?

Braile - Meus sonhos hoje não são mais os da juventude ou os do começo da carreira. Esses, com muito trabalho e luta, penso que realizei. Só havia cirurgia cardíaca em São Paulo e, incipiente, no Rio de Janeiro, quando comecei em Rio Preto em 1963. Hoje existem centros de cirurgia cardíaca em todo o País com atendimento de excelência, equiparados aos dos grandes serviços de todo o mundo. O Brasil hoje é autossuficiente em produtos para cirurgias do coração e a população atendida pelo SUS tem acesso a eles. Penso que dei minha contribuição, com muito trabalho e exemplo, para que esses meus dois maiores sonhos se tornassem verdade.

Hoje tenho um único sonho: o de ter uma melhor condição de saúde. Poder voltar a guiar carro, pilotar um avião. Ter mobilidade independente. Poder me deslocar, ir aos lugares, estar nos ambientes acadêmicos, nos congressos médicos. Voltar à vida que eu tinha antes das doenças mais graves. Esse é o meu sonho. As doenças foram cruéis, debilitantes. Está no livro, você escreveu tudo lá.

V&A - É... Mas mesmo em casa, convalescente, eu sei que o senhor trabalha muito. Como é isso?

Braile - Trabalho no computador quase o dia inteiro, todos os dias. Atendo a solicitações de profissionais de dentro e fora do Brasil. Há mais de 15 anos sou editor chefe da Brazilian Journal of Cardiovascular Surgery (BJCVS), única revista da especialidade no Hemisfério Sul e Caribe. Trabalhei muito para que a revista fosse indexada em bases de dados internacionais, o que já aconteceu e tornou-a global, expandindo sua visibilidade e importância. E isso aumentou em muito meu trabalho nessa função. Eu analiso o material enviado por especialistas do mundo todo, avalio a possibilidade de serem aceitos e os encaminho para os editores associados que acompanharão o processo de publicação. Recebo e avalio material do Chile, China, Turquia, Tailândia, Cazaquistão, enfim, a nossa revista é espelho de excelência em todo o mundo. Além disso, sou presidente do Conselho da Braile Biomédica, tenho reuniões semanais aqui em casa com a diretoria e com grupos de diversas lideranças da empresa. Isso me mantém bastante ocupado.

V&A - Seu coração sempre esteve ligado a três importantes mulheres, a esposa Maria Cecília e as filhas Valéria e Patrícia. Fale um pouco desse universo cor-de-rosa na vida de um cientista.

Braile - Pedi a Maria Cecília em namoro e em casamento logo que eu passei no vestibular para a Faculdade de Medicina da USP. Disse a ela que nos casaríamos assim que eu me formasse. Minha formatura foi 14 de dezembro de 1962 em São Paulo e, no dia seguinte, 15, nos casamos na antiga Catedral São José em Rio Preto. Há 57 anos ela tem sido parceira de sonhos, trabalho, alegrias e de muitas, muitas lutas e dificuldades. Ela tem um amor enorme e paciência idem. Nossa filha mais velha, a Patrícia, casada com o matemático Luis Verdi, é advogada e a presidente da Braile Biomédica. Abdicou de uma carreira promissora em São Paulo para vir nos ajudar (a mim e à Maria Cecília) a formar a fábrica logo depois que eu me desliguei da sociedade do IMC. Patrícia é uma super profissional ligada a muitas atividades corporativas do nosso segmento dentro e fora do Brasil e a empresa está em ótimas mãos aos seus cuidados. Valéria, mais nova, casada com o engenheiro agrônomo Walter Sternieri, é cardiologista muito querida em toda a cidade e região. Ela conduz a Braile Cardio, clínica médica da família, e é diretora clínica da Beneficência Portuguesa, função que eu ocupei por mais de 30 anos. As duas me orgulham, me honram com dedicação e muito cuidado. Tenho muita sorte e gratidão em tê-las como filhas.

V&A - Eu sei que está no livro, mas os leitores da Vida&Arte querem saber sobre suas comidas prediletas e sobre seus hobbies.

Braile - Nunca tive pendor para música, dança e menos ainda para os esportes. Meus hobbies sempre foram ler, montar e desmontar máquinas, construir aparelhos. E, lógico, pilotar. Aviões e planadores. Quanto à comida, numa família de italianos como a minha, ela tem uma importância sagrada. É em torno da comida que a gente se reúne, conversa, planeja e vive. Gosto de massas, de fazer e comer macarrão. Mas hoje, infelizmente, minha dieta é muito regrada, espartana mesmo.

V&A - O senhor tem quatro netos. Consegue fazer um exercício de futuro na vida deles também?

Braile - Os dois mais velhos já estão formados. Rafael, engenheiro mecânico, é diretor executivo na Braile Biomédica, a presença vibrante e competente da terceira geração na empresa. A Sofia formou-se médica recentemente e se prepara para residência em cirurgia. Giovanni também concluirá o curso de Medicina no meio do próximo ano e tem muita afinidade com o futuro da cirurgia cardíaca, que será minimamente invasiva. E, finalmente, Luiza, a neta mais nova, que também é estudante de Medicina e em poucos anos será a mais nova doutora da família. Tenho toda confiança que serão excelentes profissionais, que vão continuar a cuidar de gente, a amar ao próximo e a ter compaixão pelos doentes.

V&A - E o Brasil, o que tem achado do governo do presidente Jair Bolsonaro?

Braile - Não tenho qualquer dúvida em afirmar que o Brasil nunca teve presidente melhor do que Jair Bolsonaro. Ele é o melhor que já tivemos até aqui. O que o destaca é ser honesto. Ser uma pessoa do bem, de hábitos simples e de bom coração, bons propósitos. De não coadunar com o errado, de lutar pela família. Ele não é truculento ou ditatorial como querem (des)construir sua imagem. Bolsonaro tem a humildade de voltar atrás, reconhecer erros, é afetuoso e bem humorado. Gosta de uma boa conversa. Alma de matuto, do brasileiro de caráter. Essa é a minha impressão sobre o ser humano Jair Bolsonaro. Sinto nele um desejo real de ser bom, decente e honrar a vida dos brasileiros. A equipe dele é de técnicos, pessoas preparadas. Gosto dele mesmo, é isso aí.

V&A - Voltando ao livro, muita gente que ainda não leu quer saber por que o título da sua biografia é: "A Céu Aberto", a História de Domingo Braile, o consertador de corações. O Sr. pode explicar para os leitores?

Braile - A sugestão do nome foi sua, Elma, e eu gostei muito: foi uma associação perfeita de sentidos e significados. A cirurgia cardíaca com circulação extracorpórea, onde o tórax do paciente é aberto e o coração fica nas mãos do cirurgião para ser consertado, tem o nome de "a céu aberto". Foi essa a cirurgia que eu consegui iniciar em Rio Preto ainda em 1963. Então, uniu-se a céu aberto dessa cirurgia com o fato de eu ter passado grande parte da vida nos céus, pilotando, em deslocamentos entre um compromisso e outro. E, consertador, porque não há melhor nome para o cirurgião que arruma o coração, a mais genial das máquinas.

V&A - De tudo o que viveu, o que lhe traz mais saudade?

Braile - De voar. Vontade imensa de estar a céu aberto.

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