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Saúde emocional

Doce passado

Embora importante e responsável pelo que somos hoje, passado é passado


    • São José do Rio Preto
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Difícil encontrar quem de nós tenha olhado para trás e, ao se lembrar dos acontecimentos, tenha ficado indiferente, sem que um forte sentimento nos dominasse. Aparecem aí três categorias de lembranças: as boas, que gostamos de lembrar; as ruins e as mal resolvidas, que insistem em martelar nossa cabeça (entram aí as oportunidades perdidas ou amores que simplesmente foram deixados de lado antes mesmo do fim).

Na maioria das vezes, para as lembranças ruins e para as mal resolvidas que insistem em tirar nosso sono, temos o hábito de nos autoconsolar com a justificativa de que não adianta chorar sobre o leite derramado e que não podemos mudar o passado. A verdade é que todos temos um passado ruim ou bom, mas é impossível falar dele sem se lembrar das dores, angústias ou decepções.

"O passado não reconhece o seu lugar: está sempre presente", escreveu o poeta Mário Quintana (1906-1994). Se nossa mente fosse uma casa, o quarto de despejo certamente seria o local onde se abrigam as memórias. Um lugar cheio de objetos empoeirados, caixas, revistas velhas, álbuns de fotografia. Todos esses arquivos com armários velhos e pastas por todos os lados. Muitos deles apagados, esquecidos; gavetas que quase nunca abrimos. Outros, no entanto, novos e consultados com frequência.

Mas nesse "quarto de despejo" também existe a parte sombria, aquela pouco iluminada que nos dá frio na espinha só de pensar em entrar e remexer em alguma coisa, mesmo que rapidamente. Nestes lugares mais escondidos estão coisas que nem nos lembramos direito, nunca vamos lá e preferimos fingir que nunca existiram. Mas por ali, enquanto isso, a poeira vai se acumulando.

"Temos de aceitar as coisas e que sempre fazemos o melhor que podíamos fazer e essa é a verdade", diz a terapeuta holística Vânia Medeiros. Não aceitar que uma coisa saiu da nossa vida nos deixa presos ao passado. Se essa coisa terminou, é porque tinha de terminar. Não temos controle sobre tudo", ressalta. Temos de aceitar que as coisas passam, deixam de existir em algum momento da nossa vida, tudo é temporário. "Se não nos libertarmos desse passado, não permitiremos que algo novo aconteça na nossa vida, não conseguiremos nos abrir para o novo, para o diferente, e não conseguimos nos abrir para as novas possibilidades e aceitar como algo bom", explica.

 

Há algumas pessoas com outros quartos de despejo desorganizados, onde não há nada catalogado e o dono não permite que as memórias sejam guardadas. Esse lugar, diferente do primeiro, está sempre claro e a bagunça sempre visível. "Às vezes temos tanta necessidade de apagar as derrotas do passado que nos esquecemos que nesse momento passado também vivemos glórias, construímos castelos, expandimos nosso reino", disse alguém uma vez em um texto.

No entanto, quem pode garantir qual a melhor forma de organizar o que passou e seguir em frente? Colocar tudo em uma caixa e jogar em um canto escondido pode não ser uma saída. Só que deixar presentes as lembranças que muitas vezes nos sufocam também não. A melhor resposta é encontrar o equilíbrio porque, embora importante e responsável pelo que somos hoje, passado é passado.

Está na hora de fazer uma faxina na sua vida. "Eu hoje joguei tanta coisa fora, eu vi o meu passado passar por mim. Cartas e fotografias, gente que foi embora. A casa fica bem melhor assim", já ensinava a música da banda Paralamas do Sucesso.

A primeira coisa a fazer é rever os arquivos porque nem sempre para todo mundo o que passou, passou totalmente. Não tem outro jeito. Depois de aparadas todas as arestas, aí sim, poderemos seguir em frente e procurar novas e reais experiências e não viver um passado que nos faz prisioneiros.

As lembranças do passado desenham as nossas histórias. São elas que nos direcionam, seja para aproximar do estado de ser feliz ou fazer o movimento de expulsão do centro das alegrias e motivações para a vida. Como viver sem as lembranças? Sentir saudades, sentir melancolia, tantos são os sentimentos envolvidos em uma lembrança.

Depende do recurso interno de cada pessoa para lidar com cada passagem da vida. Muitas vezes passamos pelo mesmo problema, mas a capacidade de olhar, lidar com a situação e resolver é diferente para cada ser humano, é isso que nos torna únicos.

Diante do passado, as pessoas tendem a ficar paralisadas e atribuir a ele e pessoas que fizeram parte dele a culpa do seu insucesso, de sua incapacidade em lidar com fatos. Essa é uma forma muitas vezes de só trazer para o presente e arrastar esse peso dessa condição insatisfatória para o presente e não ver novas possibilidades. "Devemos sempre recordar o passado, sim, mas não no sentido de lamentar fatos ou responsabilizar pessoas pelo que nos aconteceu, mas como forma de aprendizado, de saber o que podemos fazer com aquilo", diz a psicóloga Vera Saldanha.

O passado, na verdade, deve servir de guia para que possamos viver no futuro com muito mais facilidades e muito menos riscos. A primeira coisa que devemos ter em mente é saber o que fazer a partir de tudo isso. "Essa pergunta nos dá uma condição de proatividade para tirar o melhor proveito e transformar a situação presente", explica Vera Saldanha. Existem duas armadilhas perigosas na forma de encarar o passado: uma é o sentimento de raiva que leva a culpá-lo por toda a dificuldade atual, e a segunda, fingir que algo não aconteceu. Você não precisa brincar de Pollyana, personagem da escritora americana Eleanor Porter (1868-1920) e fingir que tudo foi maravilhoso. O mais importante é olhar e saber que aconteceram coisas difíceis, sim, mas entender o que você pode fazer com aquilo. Isso te coloca numa condição de perdão e muitas vezes de gratidão com a vida que você recebeu e a compreensão de que, se não foi diferente, é porque as pessoas não sabiam fazer diferente. "Olhe para o passado, honre e agradeça mas com a certeza de que você pode seguir em frente", diz Vera Saldanha.

"Lembro-me do passado, não com melancolia ou saudade, mas com a sabedoria da maturidade que me faz projetar no presente aquilo que, sendo belo, não se perdeu", diz a escritora e tradutora brasileira Lya Luft.