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Painel de Ideias

Romance de minha vida

Se na narrativa em prosa da "alta cultura" há certa impessoalidade entre narrador e leitor, José Antônio da Silva rompe a norma, encurta as distâncias de quem está a falar e quem ouve. Cria um interlocutor virtual em presença, chama-o de "meu irmão"


    • São José do Rio Preto
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O 'Romance de Minha Vida' (1949) faz 70 anos. Fato importante na obra de José Antônio da Silva. Editado pelo Museu de Arte Moderna de São Paulo, teve apoios do crítico de arte e cientista político Lourival Gomes Machado, de Pietro Maria Bardi, diretor do MASP, do jornalista, político e mecenas das artes Assis Chateaubriand, além de outros. Já naquela época, Silva era considerado um artista moderno e seus quadros integraram o acervo inaugural do MAM-SP ao lado de Di Cavalcanti, Anita Malfatti, Alfredo Volpi, Mario Zanini e Francisco Graciano.

Joan Miró, pintor e escultor catalão, evoca as pinturas pré-históricas para explicar o elo entre a estética naïf e uma das vertentes da arte contemporânea: "O que criaram aqueles homens das cavernas possui uma modernidade emocionante. Impressionam não tanto o desenho, nem as manchas de cor, mas a pureza de atitudes: anti-intelectual, antiacadêmica, absolutamente anti-tudo". Esse derramar-se alheio às escolas dominantes, essa autenticidade primitiva desvelam o estilo pitoresco e desenvolto do 'Romance de Minha Vida' e seu autor.

O livro foi reimpresso em 2009, pela Prefeitura de Rio Preto, em menção ao centenário de nascimento do pintor-escritor. Reproduz a edição original, respeitando-se criteriosamente a ortografia, marcas estilísticas e os quarenta bicos-de-pena que a ilustram. Iniciativa rara em relação ao artista rio-pretano. Em sua terra, as elites do poder sempre o trataram como zé-ninguém, tosco e caipira. Essa segunda edição contou com o discernimento de Deodoro Moreira, então Secretário de Cultura, e do editor e historiador Lelé Arantes.

O 'Romance' põe-nos diante dum escritor iletrado e apreciável literatura, a expressar-se no limite da oralidade e a escrita. O fato é trivial entre os violeiros e cantadores nacionais de tradição ibérica. Se na narrativa em prosa da "alta cultura" há certa impessoalidade entre narrador e leitor, Silva rompe a norma, encurta as distâncias de quem está a falar e quem ouve. Cria um interlocutor virtual em presença, chama-o de "meu irmão". Esse "realismo ilusionista" ocorre em vários capítulos: "O padre pôs a boca no mundo, a gritar para os fiéis terem calma... Era arte e astúcia do demônio... Isto que estou dizendo é verdade, meus caríssimos e prezados irmãos" (p. 95).

Vinte e um anos depois, Silva retorna à prosa confessional e, como na pintura, realidade e invenção se misturam. Publica 'Maria Clara' (1970), com prefácio de Antonio Candido. Após, escreve 'Alice' (1972), prefaciado por Nogueira Moutinho e levado ao teatro por Antunes Filho ('Rosa de Cabriúna', 1987), 'Sou Pintor Sou Poeta' (1982), concebido em estrofes, e 'Fazenda Boa Esperança' (1987). Por trás desses livros singelos, dramáticos, nostálgicos, habita um romanceiro de formas, texturas e exuberantes cores. São os quadros do artista.