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Painel de Ideias

À Flor da Pele

Quando você chora com alguém, sua alma encontra a do próximo e o sobrenatural acontece. E não importa o quilate ou o tamanho do milagre. O que vale é experimentá-lo, em meio às lágrimas e pleno de que valeu a pena. É sentir e alcançar o que tantos não sentem


    • São José do Rio Preto
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Essa crônica é para os chorões. Gente que nem eu, com olhos sempre bem hidratados. Que chora fácil. Chora com gosto. Que lava a alma mesmo. Que não reprime a lágrima nem freia o soluço. Não anula o êxtase dos sentidos que nos enlevam, que fazem a gente subir aos céus feito meninos com asas. Há ingenuidade e pureza nas emoções que nos fazem chorar. Entrega e abandono. É você e sua emoção num momento de franqueza absoluta. Franqueza e fraqueza também, e daí? Suas lágrimas e você, absolutamente à vontade com a intensidade do que se pode definir como vida. É realmente estupendo, tão necessário quanto o ar que se respira. Chorar a dor e a saudade. A perda e a morte. A decepção, o desencontro e a raiva. E até, mesmo não resolvendo o problema, chorar sim, o leite derramado.

E por que não? Na hora de lamber as feridas, as lágrimas são cicatrizantes, elas nos afagam, curam. Têm poder restaurador. E, que bom, também chorar a beleza das coisas que nos encantam, inebriam. Uma música, um livro, um filme, uma frase, um instante na memória, um adeus, uma fotografia, um dia, uma noite, um encontro.

Lágrimas existem para irrigar o solo da emoção, da gratidão, do assombro e de todos os outros encantos e desencantos da vida. Penso, porém, que o mundo deveria chorar mais. As lágrimas estão desaparecendo na estiagem do egoísmo. Estamos tão ensimesmados, sem tempo e entupidos de informação que a emoção minguou, ressequida. Olhos viciados, corações inertes e almas sedentárias da pratica da contemplação e da humanidade. Assistimos a dor do outro na televisão comendo pipoca. Ouvimos a tragédia do dia em cima de uma esteira na academia. Na tela do celular surgem mazelas e aberrações das quais já não fazemos conta. Horrores que não causam mais espanto, indignação, vergonha. Secura absoluta. Torrão. Duros, compactados, sem nem uma gota de lágrima. Que poderia ser a redenção de alguém. Quando você chora pelo outro, o coração se agita e esse movimento pode gerar a mão estendida, um abraço apertado, um ombro amigo, um socorro material.

Quando você chora com alguém, sua alma encontra a do próximo e o sobrenatural acontece. E não importa o quilate ou o tamanho do milagre. O que vale é experimentá-lo, em meio às lágrimas e pleno de que valeu a pena. Viver à flor da pele é viver em dobro. É sentir e alcançar o que tantos não sentem, não alcançam ou sequer imaginam. Gosto de viver com a emoção à flor da pele. Chorar de amor por quem precisa dessa partilha, de comunhão. É não fugir da dor. Talvez queimar na fogueira, perder o ar num mergulho mais profundo ou não temer a onda que arrebenta forte. É da vida, do jogo. O que não dá é economizar sentimento, ser avarento na ternura. A miséria de lágrimas é deserto, vastidão. Sem flores, frutos, esperança. Aos chorões, um pedido: sigam irrigando esse mundo.