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Painel de Ideias

Tatuagem térmica

Um alerta divulgado pela ONU esta semana mostra que nem o Acordo de Paris será suficiente para controlar o aquecimento global, porque a maioria dos países não cumpriu a meta de reduzir a emissão de gases poluentes


    • São José do Rio Preto
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Que calor, né?

Tempos atrás, esta seria apenas uma tentativa frívola de puxar uma conversa banal, daquelas de esperar trem, quando ainda havia.

Hoje, a pergunta embute a necessidade que as pessoas têm de compartilhar o desconforto com as temperaturas cada vez mais altas, que transformam as cidades em verdadeiras saunas compulsórias, coletivas e a céu aberto. Maçarico solar.

Há no mundo duas vertentes: a que acredita no aquecimento global, oriundo das modificações feitas pelo homem na superfície terrestre, e a que não acredita, alegando ainda não existir comprovação científica para tal afirmação. As duas correntes, porém, concordam num ponto: o planeta já enfrenta mudanças climáticas.

E, claro, é nas cidades que sentimos os maiores efeitos, já que são o palco da urbanização sem planejamento, impermeabilização do solo, construções com materiais inadequados, falta de áreas verdes, esgotamento dos recursos naturais, emissão de gases poluentes de veículos e indústrias, queimadas, desmatamento. Tudo isso modifica o clima urbano e pagamos o preço em forma de tempestades fora de época, ondas absurdas de calor e frio, secas prolongadas.

Dados do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) mostram que 2016 foi o ano mais quente desde 1880. O segundo ano mais calorento foi 2015, e o terceiro, 2014. Cada uma das últimas três décadas foi mais quente do que todas as anteriores desde 1850. Trata-se de um enorme desarranjo na atmosfera. O calor intenso tem consequências para a saúde pública, como o aumento do estresse, problemas respiratórios, infartos, dengue, febre amarela.

Diante das alterações no clima, estudiosos do tema, geógrafos e meteorologistas identificaram o surgimento de um fenômeno social muito preocupante: os refugiados ambientais. A água foi determinante para a fixação do homem em determinadas regiões e o desenvolvimento da agricultura, há milhares de anos. Mas hoje, principalmente no continente africano, e por conta da chamada escassez de recursos hídricos, que impede o plantio, comunidades inteiras são obrigadas a migrar.

Lá pelas tantas em "Cem anos de solidão", numa troca de mensagens telegráficas, o coronel Gerineldo Márquez diz ao coronel Aureliano Buendía: "Aureliano, está chovendo em Macondo". A resposta vem no tom da rotina: "Não seja boboca, Gerineldo. É natural que esteja chovendo em agosto". A realidade, crua, é que nós, que não moramos em Macondo, não sabemos mais qual a época certa de chuva e de sol. Com nossa insensibilidade diante da natureza, superamos o realismo mágico do mestre Gabriel Garcia Márquez.

Um alerta divulgado pela ONU esta semana mostra que nem o Acordo de Paris será suficiente para controlar o aquecimento global, porque a maioria dos países não cumpriu a meta de reduzir a emissão de gases poluentes. Mesmo que todos agora cumprissem, o planeta esquentaria mais três graus Celsius. Sombrio.

Pois é. Décadas e décadas de descaso com o meio ambiente deram nisso: um planeta que enfrenta profundas alterações climáticas.

E, pelo visto, o calor continuará aumentando.

Como um demorado abraço no sol.

Sempre forte, ardido, sufocante.

Que pega, gruda, fica.

Uma tatuagem térmica.