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Painel de Ideias

Coração alvinegro

Merli Diniz, corintiana do "bando de locos", de coração alvinegro e sangue de gambá, faz um tributo ao Corinthians num belo livro de crônicas e curtas narrativas e, como ela diz na orelha: "uma forma de dividir com vocês, minhas e nossas alegrias, às vezes angústias e até sofrimento"


    • São José do Rio Preto
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Abrem-se as cortinas e começa o espetáculo... foi assim, como ele sempre fazia, que Fiori Gigliotti deu início à narrativa do jogo que os corintianos aguardavam havia anos. Mais uma vez o Corinthians chegava à final do Campeonato Paulista amargando um jejum desde 1954! Era a época em que os campeonatos estaduais tinham mais brilho e valor que os nacionais. O adversário era a Ponte Preta, com um timaço de impor inveja aos grandes times brasileiros.

Naquele 13 de outubro de 1977 eu estava em Barrolândia, estado de Goiás (hoje Tocantins). Uma pequena cidade de solo esbranquiçado, na margem esquerda da rodovia Belém-Brasília, para quem estava indo de Anápolis para Araguaína. Com meus 17 anos, trabalhava na Distribuidora Genial no melhor emprego, até então, da minha vida. Tínhamos uma série de entregas para fazer a partir do norte de Goiás em direção a Marabá, entrando por Guaraí e Conceição do Araguaia, seguindo até Xinguara para chegar ao destino e retornar pela Transamazônica, cruzando o Bico do Papagaio até alcançar o Estreito.

A partir de Guaraí era tudo terra, exceto um pedaço de asfalto ruim entre Conceição e Redenção. Ainda não havia a ponte sobre o Araguaia ligando Couto Magalhães e Conceição. Também não havia a grande ponte ligando Marabá a São Félix, do outro lado do Tocantins. Palestina do Pará foi a cidade mais feia que já vi. Amava de paixão Rio Maria por causa do sorriso bonito de uma moça chamada Rosália, caixa de um dos nossos clientes. Essa moça foi assassinada no trabalho, com três tiros disparados pelo ex-namorado. A cidade enlutou-se e eu nunca tive vontade de voltar.

Em Barrolândia, naquela tarde de outubro, estávamos à sombra de uma frondosa árvore. A memória me trai e não sei especificar porque estávamos ali naquele horário. Nem sei qual motorista eu estava acompanhando. Experimentei uma alegria silenciosa. Não havia como comemorar aquela vitória tão ansiada numa terra estranha, num lugar onde não se acompanhava o futebol paulista; apenas o carioca. Não houve num só foguete, uma só buzina, um carro sequer com as bandeiras do Timão. Apenas a minha alegria espremida no peito. Um contentamento juvenil de quem estava cansado de ser zoado pelos amigos palmeirenses, são-paulinos e santistas. Na época, eu não bebia nada de álcool. Aliás, comecei a beber no final daquele ano, para acompanhar os amigos.

Lembrei-me dessa história por causa do livro Coração Insano, de Merli Diniz. Corintiana do "bando de locos", de coração alvinegro e sangue de gambá, Merli faz um tributo ao Corinthians num belo livro de crônicas e curtas narrativas e, como ela diz na orelha: "uma forma de dividir com vocês, minhas e nossas alegrias, às vezes angústias e até sofrimento."

Não sou um corintiano do "bando de locos". Não vou a estádios, nem perco mais tempo à frente da televisão para ver jogos de futebol. Não tenho bandeiras. Tenho algumas camisas do Corinthians que fazem parte da minha coleção com mais de duzentas camisas de 178 times brasileiros e alguns estrangeiros e seleções.

Cada "loco" com sua mania. A minha é colecionar camisas de futebol. Considero as mais raras a do Plácido de Castro FC e Atlético, do Acre; Tarumã e Penarol, do Amazonas; Baré, de Roraima; Palmas FR, de Tocantins; América e Jaguar, de Pernambuco; Santana e São José do Amapá; Marcílio Dias, de Santa Catarina; Estanciano e Lagarto, de Sergipe; Iguaçu, do Paraná; Cametá, do Pará; Goytacaz, do Rio de Janeiro; Itamaracá e Pedregal, de Brasília; Canto do Rio, de Sorocaba; União FC, de Valentim Gentil e Maksubara, de Engenheiro Schmitt...

É, torcedor de futebol tem dessas coisas!