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Painel de Ideias

Oh bella, ciao!

Foram mais de 15 anos - metade da minha vida - de amor incondicional. E, certamente, haveria mais anos pela frente, não fosse o destino colocar aquela caminhonete em alta velocidade, literalmente, em seu caminho, justamente no dia do aniversário de meu irmão


    • São José do Rio Preto
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Neste último fim de semana, Lolys nos deixou. É estranho como mesmo a morte dos nossos animais de estimação é capaz de nos fazer refletir sobre ciclos. Lolys era a diferentona de uma ninhada de vira-latas paridos na fazenda onde costumávamos passar os natais em família - antes de o fantasma do comunismo voltar a assombrar a vida difícilima de quem precisou abdicar de alguns privilégios na época da "ditadura de esquerda".

Trouxemos a bichinha para a cidade e levou muito tempo até que ela se acostumasse com a presença de humanos. Escondia-se de toda visita que chegava e, passados mais de 15 anos entre nós, esbugalhava seus olhos pretos e tremia-se toda quando estouravam rojões. Aos poucos, porém, foi se tornando a fiel protetora do nosso lar nada tradicional. Apesar da idade avançada, Lolys não aparentava velhice - senão pelos pêlos brancos que invadiam-lhe a cara. Caçava pombas, cavucava jardim, roubava o capacho para fazer de cama nas cestas da tarde. Depois que meu irmão foi para a faculdade e eu me mudei, a relação de companheirismo entre ela e minha mãe tornou-se ainda mais estreita, capaz, inclusive, de amolecer o coração escorpiano de dona Márcia.

Foram mais de 15 anos - metade da minha vida - de amor incondicional. E, certamente, haveria mais anos pela frente, não fosse o destino colocar aquela caminhonete em alta velocidade, literalmente, em seu caminho, justamente no dia do aniversário de meu irmão. Para Lolys, é o fim de um ciclo - o ciclo de uma vida cheia de descobertas, aventuras, peripécias e alegrias. Para nós, é o fim de uma Era.

Com as bolsas dos olhos encharcadas, o marido cava o leito de descanso eterno do corpinho gorducho da nossa "fedô", ali mesmo no jardim onde ela tanto amava estar, sob a sombra da pitangueira e rodeada pelos bichinhos microscópicos que hão de carcomer sua carcaça devolvendo suas últimas forças para se manter viva aos ciclos impiedosos da natureza. Colho quatro flores cor-de-rosa do canteiro da esquina, com as quais decoramos nossas últimas homenagens de despedida.

Nesses ciclos de vida-morte-vida pelos quais tudo o que é vivo passa, mãe e eu nos perguntamos se cachorros têm espírito, desejando que eles nos recebam à porta de uma outra dimensão - que pode existir ou não - depois da nossa partida, lembrando que "tutti i cani meritano il cielo" (mas talvez nós, humanos, não o mereçamos).

Em um momento de caos nos direitos humanos, crise na democracia, violência como partido, políticos egoicos e batalhas estúpidas por poder, a enxada que vai volvendo a terra à cova quase leva junto nossas esperanças. Mas, de mãos dadas, enxugamos as lágrimas, enterramos o caule de uma flor vigorosa ao lado dos gravetos em forma de cruz e sussurramos para os tatuzinhos-de-jardim que agora desfilam sobre o túmulo: "oh bella ciao, bella ciao, bella ciao, ciao, ciao", sem saber a quem exatamente estamos dando adeus e quanto tempo levará para que a flor volte a criar raízes.