A letra que sumiuÍcone de fechar Fechar

A letra que sumiu

Nos anos de 1960, o jornal "A Notícia" noticiou em manchete de primeira página a visita do ex-governador, ex-ministro e senador Carvalho Pinto à região. Tiraram a letra "v" do nome dele


    • São José do Rio Preto
    • máx 32 min 18

Ah. Os velhos e bons "erros de imprensa"! Difícil encontrar um leitor - daqueles dos tempos em que os jornais e as revistas eram, de fato, impressos em papel e estavam condenados a carregar para sempre os descuidos dos redatores, paginadores e revisores - que não tenha tropeçado em um deles de vez em quando.

Já se atribuiu ao jornalista Antenor Pousa Godinho - primeiro editor do "Diário da Região" e fundador do extinto "Correio da Araraquarense" - a decisão pessoal de jamais ler antes das cinco horas da tarde os jornais onde trabalhava, pela singela razão de não permitir que os erros lhe estragassem o dia.

Por mais que os jornais se esmerem nos procedimentos de revisão e cuidados de todo tipo, eles são vítimas recorrentes da imperfeição que vem grudada na pressa de quem tem que fazer uma edição por dia. Há alguns anos, li numa das páginas do diário "DHoje", bravamente mantido pelo amigo Edson Paz e por uma dedicada equipe de jornalistas, uma manchete no mínimo intrigante:

- Uma culinária inovadora e saudável acompanha o enterro de policial.

Claro que se tratou de um erro de montagem. Imagino que o título da reportagem do dia anterior, sobre o acidente que matou um policial durante uma perseguição a marginais, foi apenas parcialmente removido no preparo da edição seguinte e acabou sobreposto à manchete da página de culinária, que cuidava das virtudes proteicas da quinua.

Antigamente, erros desse tipo eram culpa do paste-up (fala-se pestape), que era a etapa da produção dos jornais em que os textos, títulos e fotos eram ordenados na página, antes dela seguir para a fotomecânica. Antes ainda, a responsabilidade era da paginação, que cuidava de ajustar dentro de ramas de ferro do tamanho da página todo o conteúdo em blocos de chumbo, clichês de fotogravuras e os títulos.

Estes eram compostos em tipos móveis, letra por letra, ordenados em uma régua com ajuste de largura. Se o redator errasse no cálculo de letras que deveriam caber em uma linha, o paginador tinha que se virar - ou reduzindo o tamanho da fonte, ou suprimindo alguma letra que julgasse sem importância, normalmente um artigo definido.

Alguma coisa desse tipo deve ter acontecido nas oficinas de "A Notícia", aí pelos anos 1960, quando o jornal noticiou em manchete de primeira página a visita do ex-governador, ex-ministro e senador Carvalho Pinto à região.

Tiraram a letra "v" do nome dele!