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Editorial

Perigosa fixação


    • São José do Rio Preto
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Fechamento do Congresso e das assembleias legislativas, cassação de mandatos, censura prévia da imprensa, de produções artísticas e de manifestações públicas, violação generalizada dos direitos humanos, perseguições, torturas, assassinatos, terror. As consequências nefastas do Ato Institucional número 5 (o AI-5) publicado naquela sexta-feira de 13 de dezembro de 1968 e que perdurou por uma década devem ser lembradas e sempre repelidas com vigor, especialmente quando têm sua retomada absurdamente defendida por autoridades públicas, como fizeram o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) e agora o ministro da Fazenda, Paulo Guedes.

Quem defende a volta do AI-5 está sonhando, reagiu o presidente da República, Jair Bolsonaro, quando o filho Eduardo cogitou a opção durante uma entrevista - se "a esquerda brasileira radicalizar", declarou Eduardo, o Estado pode responder "via um novo AI-5". Na última segunda-feira, durante uma coletiva em Washington, nos Estados Unidos, foi a vez do ministro Guedes. Ele afirmou que, em caso de onda de protestos populares como os que têm ocorrido em países vizinhos - Chile, Venezuela e Colômbia -, ninguém deve se assustar se "alguém" no Brasil "pedir o AI-5".

Com a repercussão negativa, os autores de tais proezas tratam de alegar que é força de expressão e que, de verdade, não defendem a implantação da mais sombria das medidas adotadas durante a ditadura. Intrigante, no entanto, que em tão pouco tempo esta já tenha sido a segunda manifestação explícita de figuras importantes da vida pública brasileira a defender o extremo autoritarismo. Essa fixação por medidas antidemocráticas, definitivamente, não condiz com o estado democrático de direito e com o sistema político e administrativo que os conduziu aos cargos que ocupam.

Trilhar por essas vias, à direita ou à esquerda, e ao centro, não interessa ao Brasil. São investidas que não podem ser classificadas como simples incontinências verbais - representam um desejo real. Causam instabilidade, frustram investidores internacionais e os nacionais; encorajam abusos, alimentam violência e atrasam a desejada recuperação de um país que o projeto criminoso de poder do lulopetismo deixou em frangalhos. Os protestos públicos são próprios da democracia e devem ser acompanhados dentro dos limites constitucionais. Concordar, ou mesmo silenciar, quando alguém prega a volta do AI-5, é saciar um monstro que pode atingir qualquer um, inclusive quem o defende.