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Editorial

Laranjal político


    • São José do Rio Preto
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O intrincado sistema político-eleitoral brasileiro parece ser feito mesmo para não dar certo, considerando o ponto de vista do interesse dos cidadãos em geral. Ao mesmo tempo, parece bem claro que foi concebido para dar certo de acordo com as conveniências partidárias e os interesses específicos de figuras escolhidas a dedo para se beneficiar da política. Trata-se, obviamente, de uma ingenuidade imaginar que o escândalo das candidaturas laranjas com uso indevido de verba pública do fundo partidário em 2018 foi uma exclusividade do PSL, a sigla da qual o presidente Jair Bolsonaro acaba de se afastar.

A mais recente constatação foi obtida em investigação da Polícia Federal sobre a candidatura de uma policial militar do Acre, que se candidatou a deputada federal pelo DEM. Segundo reportagem da Folha de S. Paulo, Sonia de Fátima Silva Alves recebeu R$ 240 mil do partido e obteve apenas seis votos. Durante a suposta campanha, ela teria contado com 46 pessoas para mobilização de rua, além de ter alugado 16 automóveis, confeccionado santinhos e publicado anúncios. Recebeu ainda R$ 39 mil em material eleitoral doado.

Ela não recebeu voto nem de seus mobilizadores de campanha. Um deles, aliás, chegou a declarar voto em outro candidato nas redes sociais. Com sua meia dúzia de eleitores, dona Sônia foi a candidata com o voto mais caro do País: cada voto custou R$ 40 mil de verba pública. Segundo a reportagem, o inquérito da PF aponta o uso de Sônia como candidata laranja para redirecionamento de verba da cota feminina em benefício da campanha do deputado federal Alan Rick (AC), presidente do Diretório Estadual do DEM e membro de Executiva Nacional do partido. A legislação eleitoral prevê no mínimo 30% de candidaturas femininas - com o fim das coligações, a propósito, a partir de 2020 esse percentual será por partido, não mais em coligações.

O DEM se manifestou na reportagem alegando não ser possível garantir desempenho nas urnas e que Sônia ingressou tardiamente na campanha, substituindo uma desistente, além de ter enfrentado grave enfermidade. Ainda assim, é no mínimo intrigante que nem os apoiadores de campanha tenham votado nela. Que as investigações da PF possam resultar nos devidos enquadramentos, mas que também possam servir de inspiração para o aprimoramento do sistema, especialmente o controle de cotas de candidaturas por sexo, uma medida interessante e necessária que está sendo desvirtuada.