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ARTIGO

Pragmatismo


    • São José do Rio Preto
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Demorou quase um ano, mas finalmente o presidente Jair Bolsonaro percebeu a importância geopolítica que a China representa para o Brasil e parece que esqueceu o viés ideológico do nosso maior parceiro econômico. Se houver um olhar de médio e longo prazo do nosso governo, poderemos chegar a um entendimento bem mais amplo, que pode gerar bons negócios para o Brasil.

No ano passado, tivemos um superávit comercial nas transações da ordem de U$S 29,5 bilhões, o equivalente à metade do saldo total da balança comercial e 46% maior do que 2017. Neste ano, o superávit brasileiro com a China já é de US$ 21,5 bilhões e já representa mais de 60% do superávit total.

A China comprou 27% de tudo o que exportamos no ano passado; em segundo lugar vem os Estados Unidos (EUA), com 12%. Isso mostra o erro que o presidente Bolsonaro estava cometendo em tornar os EUA protagonista de nossa política comercial, tornando-o parceiro incondicional.

O atual governo brasileiro ainda não está atento a uma regra básica do comércio internacional: aquela que diz que países não tem amigos, têm interesses. Quer queira ou não, a China cada vez mais fará parte das estratégias do Brasil e do mundo. Para quem discorda, sugiro olhar as estatísticas.

O importante a observar são os enormes desequilíbrios dessa relação. Dos produtos exportados para a China em 2018, soja, petróleo e minério responderam por 82% do total, ao passo que os manufaturados de maior valor agregado não chegaram a 3%. Por outro lado, os produtos chineses importados pelo Brasil - quase 98% eram manufaturados.

Esses números mostram claramente que a relação comercial entre os dois países tem gerado melhores empregos na China no que no Brasil, mesmo o saldo comercial sendo favorável ao Brasil. Outra questão a ser considerada é que não podemos formar com a China uma zona de livre comércio sem considerar o Mercosul, que tem regras próprias para seus participantes.

Henry Kissinger disse que os EUA e a China são os dois polos de poder que deverão plasmar - pela via de cooperação ou do conflito - a ordem internacional do século 21. É de se esperar que a relação do Brasil com cada uma delas seja de natureza diferente. O dinamismo do intercâmbio Brasil-China vem, sobretudo da complementaridade das nossas economias.

O Brasil tem em abundância terras e água, coisas que a China não tem e precisa atender à demanda de uma população de 1,4 bilhão de pessoas. Eles vêm investindo também em infraestrutura, em linhas de transmissão ou redes de energia e de telecomunicações. Mais recentemente a China se reorganizou para produção de bens de consumo duráveis, como automóveis, que já começam a circular em nossas ruas.

Basta olharmos para o futuro que veremos oportunidades de novos negócios, especialmente na infraestrutura. No agronegócio, as oportunidades são ainda mais promissoras, citarei num outro artigo. As oportunidades para o intercâmbio bilateral continuam relevantes. Num mundo multipolar, o Brasil tem uma posição privilegiada. Tem boas relações com os principais polos da política e da economia global. Pragmatismo e bom senso farão a diferença.