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ARTIGO

O rei, o sábio e o asno

"Majestade, eu posso ensinar um asno a ler, mas necessito de um prazo de 10 anos"


    • São José do Rio Preto
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Um rei, conhecido pela sua irascibilidade e pelos maus-tratos praticados contra seus súditos, certa manhã, mais entediado que de costume, propôs aos seus conselheiros um desafio: "Criem algo, qualquer coisa que possa entreter os meus dias. Terão como prazo o pôr do sol, porém, quem tiver sua proposta recusada terá o pescoço cortado. Quem desistir do desafio terá a vida poupada, mas será expulso do reino".

E o que se passou foi o seguinte. Com exceção do mais velho dos conselheiros, talvez o mais sábio deles, os demais logo desistiram da empreitada, cientes das agruras que experimentariam sem as sinecuras do reino, mas com a vida preservada. Quando o sol já se aproximava do horizonte, o velho conselheiro apresentou-se ao rei: "Majestade, minha proposta porá fim aos seus dias de enfado pelo resto da vida". E ante a curiosidade do rei, explicou-se: "Eu posso ensinar um asno a ler, mas necessito de um prazo de 10 anos". O rei, desconfiado, o interrompeu: "Você terá esse prazo, mas, se não cumprir a promessa, será esfolado vivo!".

Assim que o rei se retirou, um burburinho tomou conta dos cortesãos presentes: "Que ideia insana!", diziam. "Sua proposta só o fará sofrer por 10 longos anos, imaginando os horrores da morte cruel e inevitável. Mil vezes preferível o machado, que num átimo lhe cortaria a cabeça." Então o sábio se manifestou: "Há um detalhe, todavia, que não posso olvidar. O rei e eu, longevos, temos o corpo vergado pela idade, e antes que o prazo se esgote a história poderá tomar outro rumo...".

Esse episódio me traz à mente algumas reflexões, uma delas suscitadas por um pensamento atribuído a Albert Einstein: "Se eu tivesse uma hora para resolver um problema e minha vida dependesse dessa solução, eu passaria 55 minutos definindo a pergunta certa a ser feita. Porque quando eu soubesse a pergunta correta, poderia resolver o problema em menos de 5 minutos". A propósito, Tina Seelig, neurocientista da Universidade de Stanford, explora, no seu best-seller "inGenius", a ideia de que a "máquina da criatividade" pode ser manipulada por qualquer um, não só por gênios como Einstein.

O que ocorre, diz ela, é que criamos "molduras" para tudo: o que vemos, ouvimos ou experimentamos, que informam, mas também limitam nosso modo de pensar. "Na vida não há uma resposta única que nos leve a uma recompensa certeira. Encarar nossas escolhas, questionar o que vemos ou tentar revolucionar nosso ponto de vista pode ser a chave para a solução de um problema ou o surgimento de uma ideia não imaginada."

De resto, caberia ainda refletir sobre as inconveniências do "espírito precrastinador", próprio de quem (como eu) está sempre propenso a concluir seus desafios o quanto antes, mesmo que à custa das oportunidades perdidas no processo cognitivo e dos riscos decorrentes da ausência de priorização de suas escolhas. Esse, porém, é um capítulo à parte...

Eurípides A. Silva, Mestre e doutor em Matemática pela USP, aposentado pelo Ibilce, campus da Unesp de S. J. do Rio Preto