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Artigo

O 'não' da noiva

Revisitando a igrejinha e lembrando um caso das antigas terras de João Bernardino, nosso fundador


    • São José do Rio Preto
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Num desses dias de fim de outono, arresorvi matá a sodade indo em direção à Vila Azul. Pouco antes da ponte sobre o corgo dos Macacos, virei à direita, deixei o asfalto e entrei por uma estradinha de terra, sempre margeando o riozinho em direção a Bady Bassitt para, um pouco mais à frente, encontrar o antigo traçado da BR-153. Depois de dirigir por uns dois quilômetros, avistei, ladeada por imensos eucaliptos, a igrejinha que eu imaginava não mais existir.

Para surpresa minha, lá está ela e, o principal, muito bem conservada e protegida por muros para evitar a presença de gado. O sol se pondo no horizonte dava um toque de magia por entre os troncos dos arvoredos. A bela construção fica em frente à sede da fazenda. Essas terras, no passado, pertenceram à neta do nosso fundador, João Bernardino de Seixas Ribeiro, dona Avelina Diniz. Aquela igrejinha, há muitos anos, foi palco de um fato que deu muito o que falar.

Antônio Sinhorini ouviu de antigos moradores a história sobre Adelino e Santinha. Ele morava com os pais num sítio próximo à Vila Azul. Rapaz honesto, muito trabalhador. Aos sábados colocava a melhor roupa para ir aos bailes a cavalo nas fazendas das redondezas. Maria Santina, mais conhecida por Santinha, era moça muito bonita. Também colocava a melhor roupa para ir aos bailes nas fazendas. Só que com uma diferença: o pai a levava a bordo de um Cadillac, um luxo pra época. Era dono de uma imensa fazenda produtora de café lá pros lados de Monte Belo.

Mês de junho, sem o saberem, o destino estava prestes a mudar a história dos dois. A festa de São João na fazenda onde até hoje tem a igrejinha era a mais afamada e para lá foram os dois sem se conhecerem. Quando Santinha chegou, foi um alvoroço. Todos os olhos se voltaram para ela, inclusive os de Adelino. Com meneio de cabeça, convidou a moça para bailar. Dançaram o tempo todo, motivo que chamou a atenção do pai. No final do baile, foi ter com o rapaz. Disse-lhe que sua filha estava prometida para um "adevogado" de Rio Preto. Iriam se casar no final do ano. Adelino também queria, e muito, se casar com ela. Foi amor à primeira vista.

Comunicavam-se por bilhetes que amigos passavam enquanto não chegava o dia de ela se casar com o rábula. O casamento seria na igrejinha. O final do ano chegou. O pai levou a noiva até o altar e a entregou ao futuro marido. Ela, sempre de cabeça baixa, aparentava grande tristeza. Estava lívida. Na hora em que o padre perguntou se era de gosto casar-se com o causídico, não teve dúvidas. Disse não! Em seguida, levantou o véu, a grinalda, tirou os sapatos e saiu em desabalada carreira pela estrada na noite escura, sendo alcançada pelo pai. Entrou no veículo e rumaram pra casa.

Quando foi no outro dia bem cedinho, Adelino ouviu o ronco de um motor. Era o pai com sua amada. Sentiu frio n'alma. Quando abriu a porta, o homem já estava no terreiro, e foi logo lhe perguntando: "Ocê inda qué casá cum minha Belinha"?

Jocelino Soares

Artista plástico, diretor da Casa de Cultura Dinorath do Valle; membro da Academia Rio-Pretense de Letras e Cultura